2–COMPREENDER E CORRIGIR

FAZER A VIDA AMÁVEL

 2. COMPREENDER E CORRIGIR

Saber corrigir

            Um dos aspectos mais nobres da compreensão é saber corrigir. Sim, isso mesmo: corrigir os erros dos outros com amor e com ânimo de ajudar é uma maneira excelente de compreender.

            É bem possível que alguém diga: “Espere um pouco. Fora o caso da educação das  crianças, “corrigir” não é uma espécie de ato de orgulho, de superioridade…? Não seria mais próprio da compreensão procurar apenas desculpar, relevar, não julgar, olhar só para o lado bom da pessoa, como víamos no capítulo anterior?” Continue reading “2–COMPREENDER E CORRIGIR”

1-COMPREENSÃO

FAZER A VIDA AMÁVEL

 1- COMPREENSÃO

Compreensão em voz ativa

Como é agradável sentir-se compreendido: em casa, no trabalho, entre os amigos mais chegados. E como amargura a alma sofrer a incompreensão. Dói ouvir, repetidamente,  frases como estas: “Meu marido não me compreende”, “Lá em casa não me entendem”, “Meu chefe só vê defeitos, não reconhece o bom trabalho que eu faço”…

Na vida de todos – na sua e na minha – é inevitável que haja malentendidos e incompreensões…, provavelmente menos dos que imaginamos por causa da nossa suscetibilidade. Como é ruim passar a vida queixando-nos de que somos incompreendidos. É um “vitimismo” mórbido, infantil ou patológico, além de uma perda de tempo. Continue reading “1-COMPREENSÃO”

Entrevista na TV Canção Nova

A TV Canção Nova transmitiu, em 2012 e 2013, uma entrevista minha no programa Papo Aberto, dirigido por Márcio Mendes. Abaixo disponibilizo os vídeos:

A compaixão verdadeira

E Jesus chorou

Há um versículo do Evangelho que diz apenas: E Jesus chorou (Jo 11, 35).

O fato aconteceu no vilarejo de Betânia, próximo de Jerusalém, em fins de fevereiro ou começos de março do último ano que Jesus passou nesta terra em carne mortal. Continue reading “A compaixão verdadeira”

Fé ou amor?

Fé e amor em debate

No início da década de setenta, num período em que fermentavam as crises e revoluções sociais, ideológicas e religiosas, dois intelectuais católicos franceses – o filósofo Jean Guitton e o jornalista converso André Frossard – mantiveram um diálogo aberto sobre problemas de atualidade, ao longo de vários programas radiofônicos. O diálogo era aberto porque, como hoje é tão comum na televisão, os ouvintes participavam, manifestando – no caso, por escrito – as suas opiniões.

Num dos programas, Guitton começou dizendo: “Em uma das nossas conversas anteriores, abordávamos o problema da fé, e já recebi muitas cartas a esse respeito. Um dos meus correspondentes escrevia: «André Frossard e o Sr. falaram da crise da fé; mas o essencial não é um problema de fé, e sim um problema de amor. Não importa tanto saber se se tem ou não se tem fé; trata-se de saber se se ama»…”

Penso que muitos dos jovens atuais, mesmo católicos, concordariam plenamente com a opinião desse rapaz. Não hesitariam em afirmar que o que nos faz bons e autênticos é, acima de tudo, amar, independentemente de crermos ou não, de termos esta ou aquela fé. Tanto faz a religião que cada qual tem – diriam –, o importante é amar, é ter amor e dar amor.

Para quem leia o Evangelho, não há dúvida de que Cristo dá a primazia absoluta ao amor: O primeiro de todos os mandamentos – ensina Jesus – é este: amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças. Eis o segundo: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior do que estes, não existe (Mc 12, 29-31).

Então, como se explica que Frossard, bom conhecedor do Evangelho, comentasse a seguir naquele programa? “No Evangelho, o que Deus mais admira, o que provoca a admiração de Cristo, é, sobretudo, precisamente a fé. Chega a dizer, com uma espécie de espanto [ao ver a fé do centurião romano que pede a cura do seu servo]: «Nunca tinha visto tamanha fé em Israel». Essa fé faz parte das virtudes teologais e não pode ser separada do amor”.

Na mesma linha, Guitton reforçou: “Se tivesse que escolher entre a fé e o amor, creio que daria preferência à fé. Partindo da fé, estou persuadido de que encontraria o amor, sem as falsas ilusões nem os equívocos que costumam acompanhá-lo”. E acrescentou ainda: “Entre a fé e o amor há uma corrente de força e de luz, que faz com que o verdadeiro amor leve à fé, e a verdadeira fé leve ao amor”(Revista Palabra, Madrid, maio de 1971, pág. 9.).

Esses comentários não são nenhuma tolice. Pelo contrário, apontam para questões decisivas, muito delicadas, em que é fácil derrapar sem perceber, com conseqüências desastrosas; questões de que depende precisamente a autenticidade da bondade e da fé. Por isso, interessa-nos refletir com um pouco de calma a esse respeito.

A fé abre a porta ao amor

Tanto Guitton como Frossard partem da base de que a fé precede o amor, mais concretamente, de que a fé é uma condição para podermos amar com um amor autêntico.

Para entender exatamente o que querem dizer, é preciso ter presente que se trata de dois católicos inteligentes e cultos. Portanto, a noção de fé que eles possuem não é um conceito infantil, vago ou confuso. Pelo contrário, têm a noção clara e precisa que deveria ter todo e qualquer católico que conheça ao menos o catecismo da primeira comunhão, a mesma noção que nos expõe o Catecismo da Igreja Católica: “A fé é primeiramente uma adesão pessoal do homem a Deus; é ao mesmo tempo, e inseparavelmente, o assentimento livre a toda a verdade que Deus revelou” (n. 150).

Por outras palavras: ter fé é, antes de mais nada, crer em Deus: crer que Deus existe, que é Alguém que pode ser encontrado, conhecido e amado, e aderir pessoalmente a Ele; e depois disso, ter fé é aceitar, assentir às verdades que Deus revelou – que nos manifestou claramente – sobre Si mesmo, sobre o sentido da vida humana, sobre os valores da existência, sobre a nossa missão na terra, sobre o bem e o mal, sobre a verdadeira religião, etc.

Sabendo que a fé é isso, uma pessoa de boa vontade chega facilmente a duas conclusões:

* Primeira: como bem sabemos, só podemos amar a quem conhecemos. Ninguém ama de verdade um desconhecido – um nome lido por acaso na lista telefônica –, nem uma figura puramente imaginária. Em contrapartida, podemos amar e admirar de verdade uma pessoa das nossas relações, que conhecemos bem; e também uma pessoa que nunca vimos, mas que conhecemos a fundo, como se a tivéssemos visto, por referências, leituras e outras informações objetivas. Aplicando este raciocínio ao amor de Deus, está claro que só podemos amar a Deus de verdade se o conhecemos bem. E um cristão sabe que só o conhecemos bem se sabemos o que Ele nos manifestou acerca de si mesmo por meio de Jesus Cristo: Ninguém jamais viu a Deus. O Filho único [Jesus], que está no seio do Pai, foi quem o revelou (Jo 1, 18).

* Segunda: Deus revelou-nos – sobretudo pelos ensinamentos de Cristo – o verdadeiro bem e o verdadeiro mal, os valores certos da vida, os caminhos da bem-aventurança, da felicidade terrena e eterna, ou seja, da autêntica realização humana, individual e social. Ora, ninguém pode negar que é impossível amar o próximo de verdade se não sabemos o que é bom para ele, pois amar é querer bem, querer o bem da pessoa amada. Mas como poderemos proporcionar aos outros o verdadeiro bem se o ignoramos?

Tudo isto evidencia que primeiro deve vir o conhecimento – que nos é dado sobretudo pela fé em Jesus Cristo –, e só depois pode vir o amor. Neste sentido, os dois intelectuais franceses tinham razão.

Por não perceber isso é que muitas pessoas de muito boa vontade e muito pouca doutrina tropeçam e se afundam. Querem uma religião “autêntica”, sem as “firulas” – assim falam às vezes – das doutrinas, dos dogmas, dos ensinamentos da Igreja; querem uma fé “sincera”, de coração, com “pouca teoria e muito amor”. Na realidade, padecem de um vácuo de fé, de uma ignorância leviana, que os leva a amar mal – e a causar até um grande mal aos outros – ou a não amar em absoluto. É desse modo que se forja a triste inautenticidade de tantos “autênticos”.

Fé e “fés”

Talvez os esclarecimentos anteriores se destaquem mais se os colocarmos contra o pano de fundo das “fés que não são a fé”; por assim dizer, das fés falsas, que parecem ouro, mas são barro.

Vejamos um bom elenco dessas “fés” inautênticas, em confronto com a fé verdadeira, feito por um escritor cristão, Michel Quoist:

“A fé não é:

* uma impressão ou um sentimento;

* uma certa forma de otimismo em face da vida;

* a satisfação de uma necessidade de segurança.

“Também não é:

* uma opinião;

* uma simples regra de bom comportamento moral;

* uma convicção baseada apenas no raciocínio;

* uma evidência científica;

* um hábito social, fruto da educação.

“A fé é, em primeiro lugar, uma graça (recebida em germe no batismo), quer dizer, um dom de Deus. Essa graça ajuda-nos a reencontrar uma pessoa viva, Jesus Cristo; permite-nos adquirir a certeza de que Ele fala a Verdade, de que o seu testemunho – palavra e vida – é exato. Com a força dessa certeza, a fé consiste então em esposar o seu olhar, a sua visão de nós mesmos, dos outros, das coisas, da humanidade, da história, do universo, do próprio Deus, e comprometer-se em função desse olhar” (Michel Quoist, Réussir, Les Éditions Ouvrières, Paris, 1961, pág. 201).

Comentemos, por enquanto, só a primeira parte desse texto. O autor começa dizendo o que a fé “não é”. Não custa muito perceber que isso – o que a fé “não é” – coincide exatamente com o que grande quantidade de jovens e menos jovens acham que “é” a fé, pelo menos a “fé” deles.

Para bastantes deles, com efeito, a fé não passa de um sentimento; ou então é uma simples opinião pessoal, uma crença que cada qual escolhe, não se sabe bem como, ou, melhor, sabe-se, sim: de acordo com os seus interesses.

A pseudofé dessas pessoas parece-se muito com o mitológico leito de Procusto, o estalajadeiro grego que tinha na hospedaria uma cama-padrão. Se o hóspede era mais comprido do que o leito, serrava-lhe o que sobrava das pernas e deixava-o esvaindo-se em sangue; se era baixinho, esticava-o pela cabeça e pelos pés até torná-lo do tamanho do leito, mesmo que com isso acabasse com a vida do coitado. O importante era “adaptar” todo o mundo ao formato do leito.

Da mesma forma, bastantes, que se julgam autênticos, só aceitam as verdades religiosas e morais se se “adaptam” – mesmo que seja deturpando-as, reta-lhando-as, arrancando-lhes pedaços vitais – ao formato do leito do seu comodismo, da sua sensualidade, da sua ambição, da sua cupidez…, quer dizer, ao formato dos seus sete pecados capitais, que eles não estão dispostos a combater.

Por isso, se há, por exemplo, um preceito da Igreja que, concretizando o terceiro mandamento da Lei de Deus, manda ir à Missa aos domingos e dias santos, eles acharão “careta” levá-lo a sério. Tal preceito só seria autêntico se se adaptasse ao leito de Procusto da sua moleza, dos seus planos de fim de semana, dos seus gostos e do seu prazer. Não se adapta? Corta!

Se, para pôr outro exemplo, o sexto e o nono mandamentos da Lei de Deus ordenam que se respeitem amorosamente os planos divinos nas coisas relativas ao sexo – à faculdade de transmitir a vida humana –, eles vão rir-se desse “plano divino” – dentro do qual justamente se ilumina o valor da castidade e da fidelidade – e dirão que o sexo é para gozar (como a cerveja, o sorvete, a coca-cola, a praia e as drogas) e que o resto são histórias.

Em conseqüência dessa mentalidade, o “deus” deles – tal como a religião deles – é um falso “deus” plástico, ajeitado, domesticado, moldado pelos dedos do egoísmo, da condescendência, da vida fácil, do consumismo, do prazer, do descompromisso…; em suma, um “deus” falsificado que se adapta ao leito de Procusto da sua falsíssima autenticidade. Não é, absolutamente, o Deus vivo e verdadeiro (1 Tess 1, 9). É somente um ídolo, obra das suas mãos (Salmo 135, 15).

Uma graça e uma boa disposição

O autor acima citado, além de dizer aquilo que a fé não é, comenta também o que é. Digo que “comenta”, porque usa palavras simples, conversacionais, sem pretender formular uma definição teológica. Começa essa parte – como víamos – com uma afirmação categórica: “A fé é, em primeiro lugar, uma graça, quer dizer, um dom de Deus”.

É coisa que muitos esquecem e, por isso, são poucos os que rezam, pedindo a Deus a fé, ou o aumento da fé, que tanta falta lhes faz; e também são poucos os que procuram ter a alma preparada para recebê-la, purificando-a dos obstáculos que bloqueiam a recepção da fé.

O principal desses obstáculos é a má disposição do coração, mais ou menos consciente. Geralmente, é a má vontade que nos leva a não querer ouvir falar de Deus, a manter uma voluntária indiferença, a não querer “saber” das coisas de Deus, para não termos que incomodar-nos, corrigir-nos, comprometer-nos e mudar.

Mas, quer queiramos ouvi-lo quer não, Deus fala-nos, e fala claro. Abramos a Bíblia, mesmo que seja ao acaso. Logo perceberemos que Deus nos procura sem cessar; que se dirige de mil modos a cada um de nós; que se “abre” conosco, oferecendo-nos o seu amor; que nos quer salvar, enviando-nos e entregando-nos, para isso, o seu Filho, Jesus Cristo. Como diz o autor da Carta aos Hebreus: Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas; ultimamente falou-nos pelo seu Filho (Hebr 1, 1-2).

Falou-nos pelo Filho. Jesus Cristo, desde o seu nascimento em Belém, “fala”, não cessa de falar. Fala com o seu exemplo, fala com a sua palavra, fala, por meio do Espírito Santo, dentro do nosso coração. Ele é a verdadeira Luz que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem (Jo 1, 9). É a luz que resplandece nas trevas, apesar de que, muitas vezes, as trevas não o recebam (cf. Jo 1, 5).

Mas, como Ele próprio dizia – e já Isaías profetizara antes –, há muitos que, diante dEle e das suas palavras, vendo não vêem, e ouvindo não ouvem (cf. Lc 8, 10). Por quê? Porque o seu coração se endureceu: taparam os seus ouvidos, e fecharam os seus olhos, para que os seus olhos não vejam, e os seus ouvidos não ouçam, nem o seu coração compreenda; para que não se convertam e eu os sare (Mt 13, 15). E, se nos perguntarmos ainda por que fizeram isso, Jesus dir-nos-á mais: Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas aquele que pratica a verdade [nós diríamos, o “homem autêntico e sincero”] vem para a luz (Jo 3, 20-21).

Só quem é sincero, reto e bom (Lc 8, 15), é capaz de abrir os olhos e o coração a Deus.

Mas, e quando já existe essa boa disposição? Isso vale muito, mas não basta. Temos que compreender que as verdades que Deus nos revelou são de uma grandeza tão indizível, de uma claridade tão intensa e deslumbrante, que os olhos da mente – as forças da razão humana – não são capazes de captá-las plenamente, de abrangê-las até ao fim. É uma coisa análoga à que acontece com a luz do sol: certamente um cego não a pode ver, porque carece de toda a capacidade visual; mas também não consegue vê-la quem tem boa vista, se encara o sol diretamente, devido ao excesso de luminosidade; não é que lhe falte capacidade visual; é que essa capacidade é limitada, e não suporta uma luz tão forte.

Há verdades referentes a Deus que não excedem a capacidade visual da nossa razão (por exemplo, chegar à conclusão de que Deus existe, é criador, é bom, etc.). Mas há outras muitas que a ultrapassam (como o conhecimento dos desígnios e planos de Deus sobre a Redenção do mundo, a vida íntima da Santíssima Trindade, o mistério de Jesus Cristo, Deus e homem verdadeiro, etc.). Para podermos “ver” essas realidades, precisamos de outra “visão” mais poderosa. Pois bem, essa nova potência visual é justamente a que a graça da fé comunica à alma; é como se Deus nos emprestasse os seus próprios olhos.

“Poderia talvez comparar-se a alma cristã – escreve Boylan – a um piloto que voa às cegas, que segue o rumo e as ordens pelo rádio. Tem de estar equipado com um aparelho receptor devidamente sintonizado [...]. A alma cristã está em situação semelhante. Precisa de um equipamento sobrenatural para receber e acatar a direção de Deus com certeza e confiança” (E. Boylan, Amor sublime, União Gráfica, Lisboa, 1955, págs. 84-85).

Se procurarmos “ver a Deus”, com coração puro e vontade sincera (cf. Mt 5, 8), Cristo tocará os olhos da nossa alma, como tocou os do cego Bartimeu; conceder-nos-á a graça da fé e nos dirá: “Vê!”… No mesmo instante, ele recuperou a vista e foi seguindo Jesus pelo caminho (Mc 10, 52).

(Trecho do livro de F. Faus: Autenticidade & Cia)

N.B Esta meditação completa-se com a meditação “Fé:Encontro com Cristo, que se encontra nesta mesma seção do site”)

Mundo em crise e esperança

Crer no amor de Deus

Referindo-se à crise de valores espirituais e morais do nosso tempo, o Papa Bento XVI comenta, na parte final da encíclica Deus é amor (Deus caritas est), que «os cristãos continuam a crer, não obstante todas as incompreensões e confusões do mundo circunstante, “na bondade de Deus e no seu amor pelos homens” (Tit 3, 4). Apesar de estarem imersos, como os outros seres humanos, na complexidade dramática das vicissitudes da história, permanecem inabaláveis na certeza de que Deus é Pai e nos ama, ainda que o seu silêncio seja incompreensível para nós»1.

E acrescenta, com palavras que convém meditar:

«A fé mostra-nos o Deus que entregou o seu Filho por nós e, assim, gera em nós a certeza vitoriosa de que isto é mesmo verdade: Deus é amor! Desse modo, Ele transforma a nossa impaciência e as nossas dúvidas em esperança segura de que Deus tem o mundo nas suas mãos e que, não obstante todas as trevas, Ele vence [...]. A fé que toma consciência do amor de Deus revelado no coração trespassado de Jesus na cruz, suscita, por sua vez, o amor. Aquele amor divino é a luz – fundamentalmente, a única – que ilumina incessantemente um mundo às escuras e nos dá a coragem de viver e agir. O amor é possível, e nós somos capazes de o praticar porque criados à imagem de Deus. Viver o amor e, desse modo, fazer entrar a luz de Deus no mundo: tal é o convite que vos queria deixar com a presente encíclica»2.

Essa visão esperançosa, positiva, otimista, será uma utopia? Não. As utopias são divagações sonhadoras ou teimosos apriorismos ideológicos, divorciados da realidade. Cristo é “realista”. Nunca prometeu um triunfo geral e avassalador. Ninguém melhor do que Ele conhece o caráter sagrado da liberdade que Ele próprio nos outorgou. Podemos dizer-lhe “sim” e podemos dizer-lhe “não”. Podemos construir ou destruir. Ele nada quer impor-nos, apenas propor-nos: Eis que estou à porta do teu coração e bato. Se alguém escutar a minha voz e me abrir a porta, entrarei e cearei com ele… (Apoc 3, 20). A liberdade de dizer “não” sempre estará na mão de todos os homens, sempre poderá abrir os abismos do mal. Mas sempre estará também a liberdade de dizer “sim”, de aceder ao abismo da santidade de Deus e de mudar o mundo, lavando-o numa catarata de Verdade e de Amor.

«A vida – escreve ainda Bento XVI 3 – não é um simples produto das leis e dos acasos da matéria». Não estamos em um mundo cego, à deriva. «Em tudo e, contemporaneamente, acima de tudo – prossegue –, há uma Vontade pessoal, há um Espírito que em Jesus se revelou como Amor». Deus não deixará que o mundo se transforme num pião desvairado, mesmo que às vezes chegue à beira disso. Deus está presente e age: Meu Pai continua agindo até agora – disse Jesus – e eu ajo também (Jo 5, 17). E isso não é utopia, é uma verdade prodigiosa.

A pequena semente

Se quisermos mais um alicerce para a esperança no meio das sombras, basta constatar, lendo o Novo Testamento, que, se, por um lado, é verdade que nem Cristo nem os Apóstolos jamais nos prometeram um paraíso na terra, por outro, também é verdade que nunca falaram de uma devastação moral absoluta, que apagasse a esperança, nem sequer ao anunciar as piores crises de fé da humanidade e a vinda de muitos anticristos (cfr. 2 Tes 2, 3-4; 1 Jo 2, 18; 1 Tim 4, 1-2, etc.).

Jesus não prediz aos seus discípulos nem sucessos retumbantes nem derrotas catastróficas. O que Ele faz é propor-lhes reiteradamente um belo mistério de esperança, que às vezes esquecemos: O Reino de Deus – que com Cristo veio ao mundo – é como o grão de mostarda que, quando é semeado, é a menor de todas as sementes; mas, depois de semeado, cresce, torna-se maior que todas as hortaliças e estende de tal modo os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra (Mc 4, 31-32). É uma imagem clara do que a presença de Cristo, do que a graça do Espírito Santo podem fazer, na alma e no mundo, se nós, os cristãos, formos fiéis.

Esta parábola do grão de mostarda complementa-se com a do trigo e o joio. O Reino dos céus é semelhante a um homem – Jesus – que tinha semeado boa semente em seu campo (o mundo). Aconteceu, porém, que, na calada da noite, o Inimigo (o demônio e os seus seguidores) espalhou joio, erva daninha, no meio do trigo. Ambos cresceram, e o dono do campo viu o joio crescer de mistura com o trigo, parecendo que iria com ele. O triunfo do bem só se verá no fim da História. Só na época da colheita – ou seja, no dia do Juízo – é que o joio será separado do trigo, e o trigo brilhará como o ouro. Os que fazem o mal serão lançados fora, e os justos, no Reino do Pai, resplandecerão como o sol (cfr. Mt 13, 24-30.36-43).

É com essa perspectiva positiva que João Paulo II escrevia: «Na realidade, a parábola pode ser tomada como chave de leitura para toda a história do homem. Com diverso sentido nas várias épocas, o “trigo” cresce juntamente com o “joio” e, vice-versa, o “joio” com o “trigo”. A história da humanidade é o palco da coexistência do bem com o mal. Isto significa que, se o mal existe ao lado do bem, também o bem persevera ao lado do mal, e cresce» 4. Isso é o que importa, Jesus garante que “o bem persevera”.

A boa semente sempre cresce, porque sempre encontra boa terra em almas generosas e fiéis. É alentadora essa promessa de que o grão de mostarda, o grão de trigo, existirá até o fim do mundo e de que sempre, de um modo ou de outro, crescerá, umas vezes de maneira oculta para nós; outras, de forma palpável e exuberante. Num e noutro caso, é nosso dever perseverar, colaborar, corresponder à graça divina, para que a semente arraigue e se desenvolva, mantendo a fé mesmo que, durante longo tempo, não esteja aparentemente a crescer.

Vamos agora dar ainda um novo passo na nossa reflexão, perguntando-nos: Essa pequena semente, o que é? Cristo disse, na parábola do semeador, que é a palavra de Deus (cfr. Lc 8, 11). Mas isso não esgota o seu significado. Há uma comparação audaz, utilizada por São João, que me parece enormemente sugestiva. Ele diz que o próprio Espírito Santo é a semente de Deus, que reside em nós, os cristãos unidos a Deus pela graça (cfr. 1 Jo 3, 9). Essa semente é Deus! É o seu Amor! É o Espírito Santo. E é próprio do Espírito Santo “produzir” – se é que se pode falar assim – almas santas. A partir delas, a partir dos santos – que nunca faltaram nem faltarão na história da Igreja –, é que a semente continuará a ser espalhada sem cessar pelo mundo e sempre dará fruto maduro e abundante.

Uma comparação e um episódio

Como ilustração do que acabamos de ver, vejamos a seguir uma comparação e um episódio histórico, que podem lançar uma luz clara sobre as razões da nossa esperança (1 Pedr 3,15).

Primeiro, a “comparação”, que, como todas as comparações, sempre será insuficiente para expressar de modo pleno as realidades divinas.

Talvez o leitor tenha assistido a um documentário excelente sobre o deserto da Namíbia, na África. Creio que, na versão brasileira, se chamava, com um toque de humorismo, Os bichos também são gente boa.

Mostrava a desolação espantosa desse deserto, na época da seca. Quem não conhecesse a realidade diria que era como um Saara irrecuperável. No entanto – como acontece de modo análogo no nosso sertão nordestino –, quando chegava a época das chuvas torrenciais, o deserto acordava, estremecia, pulsava, transformava-se num jardim exuberante de vida vegetal e animal: árvores frondosas, carregadas de frutos; arbustos; capim à farta; bandos de elefantes, búfalos, gnus, macacos…, lagos atulhados de peixes e povoados por aves inúmeras…

Os pessimistas, que julgam que, no mundo, está avançando de modo irresistível a “era pós-cristã”, têm uma visão saariana do mundo atual, e não se lembram de que, mesmo no pior momento, a semente de Deus, ainda que não se perceba e pareça ter morrido, está presente neste nosso mundo atrapalhado, e mantém nele a sua fecundidade divina. De cada vez que a chuva da graça cai em almas “generosas e boas” (cfr. Lc 8, 18), desponta e se alastra no mundo um vergel divino.

O “episódio” acima anunciado é um fato real, ao mesmo tempo trágico e luminoso, ocorrido em 1996 na Argélia, que a seguir vou resumir. Quem quiser um relato mais detalhado do episódio pode encontrá-lo num texto do pe. Fernando Pascual, incluído no web-site catholic.net.

Trata-se do martírio de sete monges trapistas franceses, que se encontravam num mosteiro nas montanhas da zona do Atlas, no Norte da África, concretamente em Tibhirine, perto da cidade de Medea. O mosteiro tinha recebido o nome de Nossa Senhora do Atlas. Dedicavam-se à oração e prestavam serviços humildes aos muçulmanos mais necessitados da região.

Em 26 de março de 1996, sete monges desse mosteiro foram seqüestrados por um comando radical de terroristas islâmicos. Após diversas vicissitudes, no dia 21 de maio desse mesmo ano os sete monges – entre eles, o abade – foram degolados. Só em 30 de maio é que os seus restos mortais foram achados perto de Medea.

Entre dezembro de 1993 e janeiro de 1994, o abade do mosteiro, padre Christian de Chergé, prevendo esse trágico desfecho, havia escrito um testamento espiritual, testemunhando nele o seu amor a Cristo e, por Ele, a todos os muçulmanos da zona. Reproduzo uns poucos parágrafos:

“Se algum dia me acontecesse ser vítima do terrorismo, eu quereria que a minha comunidade, a minha Igreja, a minha família, se lembrassem de que a minha vida estava entregue a Deus e a este país. Peço-lhes que rezem por mim.

“Como posso ser digno dessa oferenda? Eu desejaria, ao chegar esse momento da morte, ter um instante de lucidez tal, que me permitisse pedir o perdão de Deus e o dos meus irmãos os homens, e perdoar eu, ao mesmo tempo, de todo o coração, aos que me tiverem ferido.

“Se Deus o permitir, espero poder mergulhar o meu olhar no olhar do Pai, e contemplar assim, juntamente com Ele, os seus filhos do Islã tal como Ele os vê; que os possa ver iluminados pela glória de Cristo, fruto da sua Paixão, inundados pelo dom do Espírito… Por essa minha vida perdida, totalmente minha e totalmente deles, dou graças a Deus”.

Finalmente, dirigindo-se ao seu futuro assassino, escrevia: “E a ti também, meu amigo do último instante, que não sabias o que estavas fazendo, também a ti dirijo esta ação de graças…, e peço a Deus que nos seja concedido reencontrar-nos no Céu, como «bons ladrões» felizes no Paraíso, se assim Deus, Pai nosso, teu e meu, o quiser. Amém! Im Jallah!”.

Será que esse monge verá esse sonho realizar-se algum dia ? Parece muito difícil, mas não podemos esquecer que Deus faz coisas incríveis com a sua graça, sobretudo em resposta às orações dos que crêem nEle e o amam de verdade. Penso que esses monges, ignorados de todos e perdidos nos confins desérticos da Argélia, encarnam o mistério do grão de mostarda; e especialmente encarnam o mistério daquele grão de trigo de que falava Jesus pouco antes da sua Paixão: Se o grão de trigo, caindo na terra, morrer – morrer por amor –, produzirá muito fruto (cfr. Jo 12, 24).

A força do amor cristão e os seus frutos impressionantes não podem ser pesados por nenhuma balança humana. Estejamos certos de que a Providência fará com que, mesmo nas épocas mais confusas e afastadas de Deus, surjam muitos santos e santas, que, como tochas brilhantes, mantenham acesa a “sinalização divina” e arrastem para a fé e o amor cristão, com a suave pressão da sua oração e do seu exemplo, muitas outras almas, capazes de “renovar a face da terra” (cf. Sl 104,30).

[Adaptação de um trecho do livro de F. Faus: Otimismo cristão, hoje]

1 Spe salvi, n. 38.
2 Spe salvi, n. 39.
3 Spe salvi, n. 5.
4 Memória e identidade, pág. 14.

Jesus e Pedro

[DIÁLOGOS SOBRE A PÁSCOA]

SÉTIMO DIÁLOGO: PEDRO

(Lucas 22,55-62 e João 21, 15-17)

 

Da queda à esperança

 

D 1.- O quadro familiar que meditávamos no quinto diálogo, contemplando Jesus sentado à beira-mar com os Apóstolos, todos participando de uma cordial refeição de peixe na brasa, prolonga-se numa cena comovente, à qual vale a pena dedicar um diálogo inteiro. Como das outras vezes, procuraremos focalizar a cena devagar, imaginando que estamos lá presentes, olhando e participando de tudo, e tratando de penetrar no coração dos protagonistas, que agora são só dois: Jesus e Pedro. Continue reading “Jesus e Pedro”

Maria e o dom da sabedoria

Sede da sabedoria,

Mãe santa!

Fazei-nos amar o dom de Sabedoria,

o mais alto dos dons do Espírito Santo, Continue reading “Maria e o dom da sabedoria”

A última pesca

 

[DIÁLOGOS SOBRE A PÁSCOA]

SEXTO DIÁLOGO: A ÚLTIMA PESCA

(João 21, 1-14)

Da rotina à esperança

 

D 1.- Hoje vai mudar a paisagem. Já não estamos mais em Jerusalém, com os Apóstolos, lá no Cenáculo. Eles viajaram, conforme Jesus lhes pedira, e voltaram todos para o Norte, para a Galiléia, a terra deles, onde Jesus os tinha chamado para segui-lo e onde haviam andado juntos durante quase três anos. Sabemos – porque assim o conta São Lucas no início dos Atos dos Apóstolos – que, lá na Galiléia, Jesus ressuscitado se encontrou com eles um bom número vezes, durante mais de um mês… Continue reading “A última pesca”

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