Por que a Cruz?

ERA NECESSÁRIO TANTO SOFRIMENTO?

Todos temos pousado muitas vezes o olhar sobre imagens de Cristo crucificado. Todos nós, cristãos, já meditamos nas dores que dilaceraram o corpo e a alma do Senhor. E é natural que nos tenhamos perguntado: “Por que a Cruz, por que essa Cruz terrível? Era necessário tanto sofrimento do Filho de Deus para a redenção da humanidade?” Continue reading “Por que a Cruz?”

Cruz, amor e alegria

Só tem mérito o que custa?

Todo cristão bem formado sabe que, para seguir a Cristo, é necessário tomar a Cruz: Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (Mt 16,24).

Daí alguns deduzem, extrapolando, que só a cruz dá o toque de qualidade cristã às nossas ações. Em consequência, pensam que todas as ações que dão prazer, sem exigir nenhum sacrifício especial, ou são erradas ou, pelo menos, não têm mérito diante de Deus. É conhecida a frase irônica que diz: “Tudo o que é gostoso, ou é pecado ou faz mal à saúde”. Pode ter graça, mas com certeza não tem razão.

É verdade que as boas ações que custam sacrifício costumam ter mais valor que as ações fáceis, realizadas quase sem esforço. Quanto mais dificuldades são superadas, quantas mais mortificações são praticadas ou suportadas, maior é o mérito dessas ações. Isso é parcialmente verdade, sob certas condições, mas nem sempre o é. Vale a pena um esclarecimento a respeito.

Não há dúvida de que abraçar a mortificação, a cruz, é indispensável para ter uma vida cristã autêntica, madura. Mas o amor à cruz não encerra todo o panorama da vida cristã.

Em primeiro lugar, é preciso repisar que a cruz –ainda que seja imprescindível- não é a única via existente para atingir a santidade, a plenitude do amor a Deus e ao próximo. Sim, é preciso reafirmar que não há cristianismo nem santidade sem cruz; mas é igualmente necessário afirmar que é errado julgar que os atos que não estão marcados pelo sofrimento ou o pelo sacrifício não têm valor diante de Deus.
Só o amor santifica

O que dá valor sobrenatural, meritório, aos nossos atos é a caridade, o amor a Deus e ao próximo. Por isso, muitas vezes se tem repetido – e com toda a razão – que a menor das pequenas tarefas domésticas de Nossa Senhora no lar de Nazaré – tendo em conta que a sua alma imaculada possuía um grau de amor elevadíssimo – tinha mais valor e merecia mais graça e mais prêmio do que os martírios somados de muitos santos.

Se cumprimos com amor a Deus e com amor ao próximo o menor dos nossos deveres, esse dever nos santifica: Queres de verdade ser santo? – pergunta São Josemaria Escrivá –. Cumpre o pequeno dever de cada momento; faz o que deves e está no que fazes. E, na mesma linha: Um pequeno ato, feito por Amor, quanto não vale!1.

São Paulo fala com alegria de que até os pequenos prazeres honestos do comer e do beber podem ser um meio de santificação e de glória de Deus, quando vividos em espírito de ação de graças ao Senhor: Quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa –escreve – fazei tudo para a glória de Deus (1 Cor 10,31).

Pelo contrário, os maiores sacrifícios, feitos sem amor, não valem nada: Ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada me valeria (I Cor 13,3).

É verdade que o espírito de desprendimento, a disposição alegre de tomar Cruz, o esquecimento de nós mesmos, devem estar sempre prontos na alma do cristão; mas não é menos verdade que encontramos Deus inúmeras vezes em tarefas, em tempos de oração, em conversas, em momentos de amor e de amizade, em lazeres honestos, que nos dão imenso prazer, e que, se estão de acordo com a Vontade de Deus e impregnados de seu amor, nos santificam tanto como o sacrifício difícil feito com o mesmo nível de amor.

No meio dessas horas felizes, como condimento que lhes faz mais delicioso o sabor, não falta, com certeza, a pequena mortificação amável, mas não é a mortificação a que dá o caráter santo a esses atos, é a caridade.

A Cruz do cristão é o portão da alegria

Em segundo lugar, é preciso afirmar que a Cruz não é o ponto final, nem na vida de Cristo nem na vida do cristão. E aí está precisamente o seu segredo e a sua grandeza.

Na vida de Cristo, a Cruz foi o caminho escolhido pela Santíssima Trindade para chegar ao triunfo da Ressurreição, que é a verdadeira meta da Redenção: a vitória do Redentor sobre o pecado, o demônio e a morte, que Jesus Ressuscitado nos oferece –como Vida nova e imortal – a todos nós. A Cruz levou Cristo ao cume do Amor, mas esse cume era como o monte que deve ser transposto para se atingir o vale da felicidade que não morre. O mistério da Cruz é mistério pascal, mistério de passagem: passagem da morte para a Vida, do pecado para a graça, da tristeza para a alegria que ninguém nos poderá tirar (Jo 16,22).

Cristo, triunfante e glorificado, mostrando com imensa alegria as chagas vitoriosas da sua Paixão (cfr. Luc 24,39), derrama finalmente sobre nós o Espírito Santo, o Amor pessoal de Deus, que é o grande “fruto da Cruz”2, para que inunde as nossas almas com a sua graça, com os seus sete dons e com a abundância dos seus frutos: amor, alegria, paz, paciência, bondade… (cfr. Gál 5, 22).

É por tudo isso que os autênticos cristãos nunca encararam a Cruz com ar tristonho ou com complexo de vítima. Nunca se obsessionaram neuroticamente com o sofrimento. Nunca se queixaram da Cruz santa, que é o portão da alegria. Gozaram ao sofrer, convencidos de que aquela dor não era um mal, mas a raiz de uma maior alegria. Assim, souberam carregar a Cruz às costas, com um sorriso nos lábios, com uma luz na alma 3, souberam abraçar a dor com alegria, dando graças ao Senhor por conceder-lhes o privilégio de participar da sua doce Cruz 4.

Sobre essa “arte cristã de sofrer com fé, esperança e amor” escrevi algumas páginas em outra pequena obra sobre “A paciência” 5, que está neste site, entre as “obras de espiritualidade”. Nela se evoca o exemplo empolgante de vários homens e mulheres do nosso tempo que sofreram com paz, com categoria, sem que se notasse, e com o coração totalmente voltado para os outros. Permita-me o leitor remetê-lo para o que lá está escrito.

Dentro dessa perspectiva, desejava terminar com umas palavras de São Josemaria, que me parecem um belo fecho para estas considerações:

“Sinais inequívocos da verdadeira Cruz de Cristo: a serenidade, um profundo sentimento de paz, um amor disposto a qualquer sacrifício, uma eficácia grande, que brota do próprio Lado aberto de Jesus, e sempre –de modo evidente – a alegria: uma alegria que procede de saber que, quem se entrega de verdade, está junto da Cruz e, por conseguinte, junto de Nosso Senhor”6.

(Adaptação de um trecho do livro de F. Faus: A sabedoria da Cruz)

1 Caminho, nn. 815 e 813
2 Josemaría Escrivá, “É Cristo que passa”, n. 96
3 Via Sacra, II estação, n. 3
4 Caminho 658
5 Ed. Quadrante, São Paulo 1995
6 Forja, n. 772

O que faz Cristo chorar?

No primeiro dia da Semana Santa – que comemoramos no Domingo de Ramos –, Jesus, antes de entrar em Jerusalém, deteve-se na ladeira do monte das Oliveiras e dali contemplou o espetáculo da Cidade Santa brilhando ao sol do amanhecer. Uma golfada de dor invadiu-lhe a alma, e seus discípulos viram cintilar lágrimas sobre a sua face: Contemplou Jerusalém – diz São Lucas – e chorou sobre ela (Lc 19, 41). Continue reading “O que faz Cristo chorar?”

Por que confessar-se?

A Confissão, uma fonte de graça

Para ter mais vida

Aos católicos que desejam levar a sério a vida espiritual e chegar à maturidade cristã (cf. Ef. 4,13), sempre foi recomendada a prática da Confissão frequente. Agora, o Papa Francisco não se cansa de recomendá-la.

“Não tenhais medo da Confissão! – dizia o Papa em 19 de fevereiro de 2014 -Quando estamos em fila para nos confessarmos, sentimos tudo isto, também a vergonha, mas depois quando termina a Confissão sentimo-nos livres, grandes, bons, perdoados, puros e felizes. Esta é a beleza da Confissão! Gostaria de vos perguntar — mas não o digais em voz alta; cada um responda no seu coração: quando foi a última vez que te confessaste? Cada um pense nisto… Há dois dias, duas semanas, dois anos, vinte anos, quarenta anos? Cada um faça as contas, mas cada um diga: quando foi a última vez que me confessei? E se já passou muito tempo, não perca nem sequer um dia; vai, que o sacerdote será bom contigo. É Jesus que está ali presente, e é mais bondoso que os sacerdotes, Jesus receber-te-á com muito amor. Sê corajoso e vai confessar-te!” Continue reading “Por que confessar-se?”

Vencer o mal com o bem

[PERDOAI  SEREIS PERDOADOS – Lc 6, 36]

6. «DESEJO QUE SE CONVERTAM…»

Após a aventura da travessia dos montes Pirineus, cheia de perigos e sofrimentos – só o resumo dela daria um impressionante relato –, São Josemaria chegou à França e dali passou a Pamplona (na zona não comunista) em 17 de dezembro de 1937. Continue reading “Vencer o mal com o bem”

Pregador da misericórdia

[PERDOAI  SEREIS PERDOADOS – Lc 6, 36]

5. PREGADOR DA MISERICÓRDIA CRISTÃ

Num asilo de emergência

São Josemaria Escrivá, no período da guerra civil espanhola em que mais violenta foi a perseguição religiosa, refugiou-se na Legação de Honduras de Madrid, e lá permaneceu asilado – com alguns jovens que se contavam entre os primeiros membros  do Opus Dei –  de maio a agosto de 1937. Nessa perseguição, foram martirizados treze bispos, 4.184 padres diocesanos, 2.365 padres e irmãos membros de institutos religiosos,  283 freiras e numerosos leigos católicos. Muitos deles já foram beatificados ou canonizados.

Como acontecia com outros asilos diplomáticos, aquela casa estava atulhada de refugiados. Todos eles, como São Josemaria Escrivá, fugiam de uma perseguição injusta, que punha em risco as suas vidas, além dos bens materiais, a família e a carreira. Tinham motivos de sobra para que neles – com os nervos em frangalhos –, fermentasse um forte ressentimento contra os perseguidores, a revolta contra os responsáveis por tamanho descalabro. E, no entanto, junto do Pe. Escrivá, nada disso havia. Não era coisa natural. Ali havia algo que escapava aos parâmetros humanos habituais: a grandeza do espírito de fé, unido a um incrível espírito de compreensão, convivência e perdão.

O genro do Cônsul declarou, certa vez, que este sacerdote estava «continuamente preocupado pelo que vinha acontecendo, se bem que, ao mesmo tempo, estava muito por cima das circunstâncias …. Nunca se pronunciou com ódio nem com rancor a respeito de ninguém; limitava-se a dizer: “Isto é uma barbaridade, uma tragédia”. Doía-lhe o que se passava, mas sempre dentro de uma perspectiva mais alta. E quando nós celebrávamos vitórias, o Pe. Josemaria permanecia calado».

Diariamente dirigia um tempo de meditação, que fazia juntamente com seus cinco acompanhantes. A sua oração era uma meditação em voz alta, uma pregação em que se fundiam o comentário espiritual e o diálogo direto com Deus.

Transcrevo a seguir trechos de algumas dessas meditações, anotadas, na hora, por um dos presentes – Eduardo Alastrué – , que bastam por si sós como ilustração do espírito de São Josemaria no tempo da guerra:

─ «Dá-me, Senhor – pedia no dia 10 de abril –, a graça da misericórdia, a graça de que eu também seja misericordioso com os outros. Intransigência comigo mesmo, compreensão com os que me rodeiam. Que não julgue, para não ser julgado».

─ «A revolução – dizia em 24 de agosto – surpreendeu-nos absorvidos no nosso trabalho, preocupados unicamente pelo anseio de servir a Deus … Se permanecermos fiéis, será que o Senhor não nos preparará um porvir fecundo; mais ainda se tivermos coberto com o adubo dos nossos sofrimentos o terreno onde há de nascer a colheita? … Assim, crendo e esperando nEle, amando-o com todas as nossas forças, viveremos contentes e cheios de paz, sejam quais forem as circunstâncias que nos rodeiem. Não nos faltará alegria nem no meio da fome, nem sofrendo tantas desconsiderações, nem carecendo de liberdade. Devo confessar que tenho sofrido aqui horrivelmente; mas devo dizer  também que tenho experimentado alegrias muito profundas neste encerramento… Formulemos para hoje um propósito concreto: não nos enraivecermos por nada, nunca nos aborrecermos, aconteça o que acontecer».

─ Em 30 de maio, perguntava: «Queremos ser duros quando Cristo não o é? A sua justiça funde-se com a sua misericórdia e as duas juntas produzem um maravilhoso equilíbrio, cujo dom devemos implorar para nós».

─ «Em vez de nos precipitarmos a julgar o nosso próximo  – são palavras de 20 de junho –, e talvez a condenar duramente, temos de pensar no que seria de nós se tivéssemos estado no ambiente em que viveu o homem que julgamos; se tivéssemos lido os livros que leu; se tivéssemos sentido as paixões que o dominaram. Esta consideração porá no nosso trato com ele a caridade … Não nos basta como exemplo o caso de Paulo que, depois de ter sido perseguidor de cristãos, foi exemplo para todos? Compreensão, pois; essa criatura, que talvez no nosso interior desprezamos e condenamos, quem sabe se, uma vez corrigida, purificada, convertida em espiga sã, não produzirá frutos mais saborosos do que nós?».

 

Adaptação de vários trechos do livro de F. Faus “O homem que sabia perdoar” (Ed. Indaiá)

 

 

Portador do perdão de Deus

 

[PERDOAI  SEREIS PERDOADOS – Lc 6, 36]

4. PORTADOR DO PERDÃO DE DEUS

Voltemos de novo ao primeiro dos episódios antes relatados, o da batina enxovalhada de cal, porque essa história teve sequência. Enquanto os alunos da Academia Cicuéndez comentavam, espantados, o que tinha acontecido, outro professor lhes falou de um lado desconhecido da vida do Pe. Josemaria Escrivá que os deixou intrigados.

Contou-lhes que esse jovem sacerdote, intelectual de nível, formado em direito pela universidade de Saragoça, em teologia pela Pontifícia Universidade da mesma cidade, e doutorando em direito pela de Madrid, dedicava-se a atender centenas de pobres e doentes – os mais abandonados –, no barracos e cortiços dos subúrbios, e nos hospitais públicos, repletos de tuberculosos e de outros doentes incuráveis. E que, para isso, ia de uma ponta a outra de Madrid, andando a pé ou de bonde, durante horas e mais horas. Continue reading “Portador do perdão de Deus”

Lutando para perdoar

[PERDOAI  SEREIS PERDOADOS – Lc 6, 36]

3. LUTAVA PARA CONSEGUIR PERDOAR

Na sequência dos Anteriores posts sobre o espírito de perdão do jovem Pe. Josemaria Escrivá, reúnem-se a seguir alguns exemplos da luta íntima que o futuro São Josemaria procurou manter, para “aprender a perdoar”, com a graça de Deus, no ambiente de lutas, ódios e perseguição religiosa, que dominava Madrid, e a Espanha toda, na década de trinta do século XX.

O operário sujo de cal

No ano de 1930, o Padre apresentou-se um dia na academia Cicuéndez, onde dava aulas, com a batina toda manchada de cal. Grande foi a surpresa dos alunos, que o conheciam como homem que costumava andar vestido dignamente, com a roupa limpa. Um deles, Mariano Trueba, perguntou-lhe o que tinha acontecido e depois o contou aos outros. Continue reading “Lutando para perdoar”

Um coração aberto a todos

[PERDOAI  SEREIS PERDOADOS – Lc 6, 36]

2. UM CORAÇÃO ABERTO A TODOS

Um dos primeiros seguidores de Josemaria Escrivá – filho de um destacado republicano perseguido por Franco, que conseguiu salvar a vida exilando-se na Argélia – foi Pedro Casciaro, então estudante de Matemática e de Arquitetura em Madrid. Esse rapaz pôde acompanhar São Josemaria em todas as aventuras  do período conturbado da preguerra e da guerra e, por isso, é testemunha valiosa, sobretudo porque deixou suas memórias escritas num excelente livro, já publicado no Brasil: Sonhai e  ficareis aquém (Ed. Quadrante, 2013). Continue reading “Um coração aberto a todos”

O futebol da concórdia

[PERDOAI E SEREIS PERDOADOS – Lc 6,36]

1. O FUTEBOL DA CONCÓRDIA

Durante a guerra civil espanhola (1936-1939), e nos anos agitados que a precederam, São Josemaria Escrivá, mesmo arriscando a vida, não cessou de infundir, tanto quanto lhe foi possível, o espírito cristão de perdão (cf. Mt 5,43-48) em todos os que dele se aproximavam.

O estudante José Manuel Doménech conheceu o Pe. Escrivá no verão de 1932. Naquele ano, as arruaças, lutas e tiroteios já faziam parte da vida cotidiana, e tinham como consequência a detenção pelas forças policiais de muitos exaltados de tendências políticas as mais divergentes.

«Em 10 de agosto de 1932 – diz José Manuel –, participei de um intentona militar, que fracassou poucas horas depois. Um colega e eu fomos detidos e metidos na prisão, na “Cárcel Modelo” de Madrid. O Pe. Josemaria, que jamais teve a menor vacilação para atender espiritualmente as pessoas, por maior que fosse o risco que corria, visitava-nos com frequência. Era admirável que viesse vestido de batina, pois então levar o hábito sacerdotal já significava um perigo grande.

«Aguardava-nos no “locutório” dos presos políticos: uma longa galeria dividida por duas grades, separadas entre si uns dez centímetros. Lá, nas grades daquele locutório, continuava a chamar-me a atenção o caráter espiritual das suas conversas. Insistia-nos na importância do trabalho e do estudo, coisa que, à primeira vista, parecia bem pouco adequada àquelas circunstâncias de encerramento forçoso. Mas falava de tal maneira, descobrindo ante os nossos olhos o valor santificador do trabalho, que produziu efeito imediato. E comecei lá mesmo a ministrar aulas e a estudar francês.

«Durante aqueles meses, uns anarco-sindicalistas do Sul da Espanha, se não me engano de Cádiz, assassinaram vários guardas civis, entre eles o chefe do posto, e proclamaram a “Revolução libertária”. Foram detidos e confinados também na Penitenciária Modelo, numa galeria diferente da nossa.  Diariamente todos os presos, comuns e políticos, descíamos a pátios diferentes para fazer exercício. A nossa surpresa foi grande quando vimos os anarco-sindicalistas no nosso local de passeio. Costumávamos jogar futebol, e continuamos a fazê-lo ante o olhar espantado daqueles inesperados companheiros.

«Na primeira oportunidade, expus ao Padre Escrivá o meu problema: “Como podemos conviver com homens tão contrários aos nossos ideais e à nossa fé?”. A resposta deixou-me pasmado: “Agora vocês têm a oportunidade de falar com eles, conversando com cada um, em particular, com respeito e carinho. Tenham em conta que provavelmente não tiveram pais cristãos como vocês, nem viveram num ambiente como o de vocês. Que teria sido de vocês e de mim se estivéssemos nas suas mesmas circunstâncias?  Não se esqueçam de que recebemos a fé de graça e temos obrigação de difundi-la. Agora têm a oportunidade, nesse pátio, de lhes demonstrar que são cristãos, convivendo e jogando bola com eles como se fossem seus melhores amigos”». E acrescentava: «Ao rezar o Pai nosso, prestem muita atenção às duas primeiras palavras: “Pai”… “nosso”».

O interlocutor do padre ficou gelado. Mas, após refletir, seguiu o conselho recebido. «Depois de uns dias de convivência tensa no pátio, organizamos um jogo de futebol nos termos sugeridos pelo Padre. Eu era goleiro e meus zagueiros dois anarco-sindicalistas. Nunca jogávamos na mesma posição, que variávamos com frequência. Nunca joguei futebol com mais elegância e menos violência. Ao sairmos da cadeia, mantivemos a amizade com alguns deles, e vários se aproximaram da Igreja» .

Trecho do livro de F. Faus, O homem que sabia perdoar (Ed. Indaiá, 2012)

Atualização por e-mail

Cadastre-se e receba as novas publicações por e-mail

Qual é o seu e-mail?


abnegação aborto abuso sexual Add new tag agradecimento alegria amor arrependimento ateísmo autenticidade Bento XVI bioética bondade calúnia caridade caráter castidade compreensão Concílio confissão consciência constância contemplação coragem cruz células tronco círculos defeitos desculpar dificuldades direção espiritual discrição dor doutrina educação entrega esperança espontaneidade Espírito Santo Estado estudantes Eucaristia Evangelho exame exame de consciência excomunhão exemplo família fidelidade filhos formação fortaleza generosidade gratidâo graça Guimarães Rosa hedonismo homilia humildade Igreja Igreja Católica infância espiritual inveja Irlanda Jesus Cristo João Paulo II justiça juízos temerários laicismo lei de Deus Leitura espiritual liberdade limitações literatura liturgia livros luta língua magnanimidade maledicência mandamentos mansidão martírio mediocridade meditação meditações mentira misericórdia Missa moderação moral mortificação mídia Natal Nossa Senhora novena obediência Opus Dei oração Oração de petição oração vocal ordem orgulho paciência Paixão palavra palavras palestras palm paz pecado pedofilia pelestras penitência perdão perseverança piedade Plano de vida pregação preguiça presença de Deus propósitos prudência pureza Páscoa quaresma razão Recife recolhimento reconciliação relativismo Responsabilidade Ressurreição Rosário sacerdote sacerdotes sacrifício Sacrário segredo seminaristas sentido da vida servir serviço sexo silêncio sinceridade sofrimento São Josemaria São Josemaria Escrivá São Pedro São Tomé temas palestras temas pregação temperança Temário Terço tibieza Trapistas Unidade de vida Vaticano II verdade vida espiritual Vida interior vida sobrenatural virtude virtudes Visitas Santíssimo vocação vontade Vontade de Deus