O FUNDADOR DO OPUS DEI EM SÃO PAULO (fioretti-VIII)

 

NOS NOSSOS CORAÇÕES HÁ UM CÉU
Com estas palavras cheias de beleza – «nos nossos corações há habitualmente um Céu» –, São Josemaria expressava o mistério da presença da Santíssima Trindade na alma do cristão.
É força de expressão? É um exagero devoto? Não. É uma das verdades mais fascinantes do cristianismo, que a teologia denomina a “in-habitação da Santíssima Trindade na alma do justo”, ou seja, na alma do batizado que está em graça de Deus.
Foi Cristo quem nos revelou este mistério: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos a nossa morada (Jo 14, 23).  E, falando do Espírito Santo, acrescentou que o Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber porque não vê nem o conhece, vós o conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós” (Jo 14, 17).  Entende-se o entusiasmo com que São Paulo falava desse mistério revelado por Cristo: Não sabeis que sois templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? (1 Cor 3, 16), e repisava: Ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, o qual recebestes de Deus…? (1 Cor 6, 19).
O Pai, o Filho e o Espírito Santo, a Trindade santíssima, única e indivisível, habita na nossa alma em graça como num templo, como no seu próprio lar. São Josemaria saboreava essa verdade com uma fé incandescente, e compreendia, como o entendem os santos, que o mistério da Trindade nos revela que Deus é Amor (I Jo  4, 8), que nos ama e quer viver conosco. Toda “alma enamorada”, como a de Mons. Escrivá, ao vislumbrar esse Amor divino que se une intimamente a nós, vibra de paixão espiritual.
«Este mistério inefável da Trindade! – exclamava São Josemaria em 27 de maio de 1974 –. É inefável, porque não há palavras capazes de explicá-lo. Quando me acontece – e isso ocorre muitas vezes – fazer a oração pensando na Trindade e na Unidade de Deus, e utilizo para tanto tratados de teologia, se surge em mim um vislumbre, uma luz nova, comovo-me e fico contentíssimo … E quando vejo que não entendo nada, fico ainda mais contente. Digo-Lhe: Senhor, que alegria! Que pequeno serias Tu se coubesses nesta pobre cabeça minha! Dá-me muita alegria render a minha inteligência na presença de Deus, sabendo, além disso, que o tenho na minha alma. Aí é onde o procuro…, procurem-no também vocês aí».
Trecho do livro de F. Faus São Josemaria Escrivá no Brasil, Quadrante 2007, págs. 30-31

O FUNDADOR DO OPUS DEI EM SÃO PAULO (fioretti-VII)

O DESCOBRIMENTO DO BRASIL
O padre Antônio Vieira dizia, num sermão de 1669, que «os olhos veem pelo coração». Foi através de seu coração cheio de amor a Deus e de zelo apostólico que São Josemaria, desde que aterrissou nesta terra, viu o Brasil.
Apenas dois dias depois de sua chegada a São Paulo, em 25 de maio de 1972, comentava, num dos primeiros encontros que teve com grupos numerosos de pessoas:
«Faz pouco mais de quarenta e oito horas que estou aqui e já aprendi muito. Aprendi que este país é um país maravilhoso, que há almas ardentes, que há pessoas que valem um tesouro diante de Deus nosso Senhor; que vocês sabem trabalhar e mexer-se; que sabem formar famílias numerosas, recebendo os filhos como o que eles são, um dom de Deus…”
»Tanta terra e tão fecunda, tão formosa! Eu creio que as vossas almas são como esta terra: aqui tudo é generoso, tudo é abundante; os frutos deste país são mais doces, mais fragrantes… E, depois, vocês têm os braços abertos a todo o mundo: aqui não há distinções. Poderíamos repetir palavras da Escritura: gentes de todos os povos aqui encontram a Pátria, uma Pátria amadíssima. Eu já me sinto brasileiro… Meus filhos, tenho um grande remorso; não ter vindo antes ao Brasil».
«O Brasil! – exclamava no Parque Anhembi –. A primeira coisa que eu vi é uma mãe grande, bela, fecunda, terna, que abre os braços a todos, sem distinção de línguas, de raças, de nações, e a todos chama filhos. Grande coisa é o Brasil! Depois, eu vi que vocês se tratam de uma maneira fraterna, e fiquei comovido».
Eram lisonjas amáveis? Não,era muito mais do que isso. São Josemaria queria despertar os corações dos brasileiros que o escutavam para que compreendessem que os grandes dons naturais recebidos de Deus eram, ao mesmo tempo, um fortíssimo apelo para assumir grandes responsabilidades. Por isso, dizia:
– «Esta terra é grande, e precisa de temperamentos grandes em todos os setores, em qualquer tarefa, porque não há tarefa pequena. Então, toca a mexer-se, a fazer muitas coisas boas nesta terra, que é tão feraz.
»No Brasil há muito a fazer – acrescentava, como quem conclama a assumir essa rsponsabilidade −, porque há pessoas precisadas até das coisas mais elementares. Não só de instrução religiosa – há tantos sem batizar! –, como também de elementos de cultura comum. Temos de promovê-los de tal maneira que não haja ninguém sem trabalho, que não haja um ancião que se preocupe porque esteja mal assistido, que não haja um doente que se encontre abandonado, que não haja ninguém com fome e sede de justiça, e que não saiba do valor do sofrimento».
E alargava essas perspectivas cristãs para horizontes espirituais:
«Neste país, naturalmente, vocês abrem os braços a todo o mundo e o recebem com carinho. Eu quereria que isso se convertesse num movimento sobrenatural, num empenho grande de dar a conhecer a Deus a todas as almas; de se unirem, de fazer o bem não só neste grande país, mas no mundo todo. Podem! E devem! E, dado que o Senhor lhes dá os meios, dar-lhes-á também a vontade de trabalhar.
»Vocês têm que fazer sobrenaturalmente o que fazem naturalmente; e depois, levar esse empenho de caridade, de fraternidade, de compreensão, de amor, de espírito cristão a todos os povos da terra. Entendo que o povo brasileiro é e será um grande povo missionário, um grande povo de Deus, e que vocês saberão cantar as grandezas do Senhor por toda a terra».
Textos do livro de F.Faus São Josemaria Escrivá no Brasil, Quadrante 2007.

O FUNDADOR DO OPUS DEI EM SÃO PAULO (fioretti-VI)

A ESCADA DO AMOR
Era o dia 26 de maio de 1974, no Centro de Convívios Sítio da Aroeira, em Santana de Parnaíba.
Na tarde desse dia, após diversas atividades, São Josemaria Escrivá reuniu-se com as suas filhas que se ocupavam da Administração doméstica da casa.
Uma menina de pouca estatura e muita simpatia perguntou-lhe como poderia viver melhor o amor a Deus no cumprimento dos pequenos deveres do trabalho cotidiano, das “coisas pequenas”.
«Minha filha – respondeu-lhe −, o Opus Dei, como todas as coisas grandes, está feito de coisas pequenas».
  Lá estava também o pe. Álvaro del Portillo (beatificado em 27 de setembro de 2014), que apontou sorrindo para ela dizendo-lhe que ela era uma dessas coisas pequenas de que o Opus Dei está feito. Isso deu pé para que São Josemaria traçasse um belo panorama de santidade:
– «Muito pequenina de estatura…, mas vocês são muito grandes. Tem muita importância o que é pequeno, minha filha. Também estes edifícios grandes de São Paulo estão feitos na base de grãozinhos de cimento, de areia, de peças de ferro… Tudo tem muita importância… Você procure “estar” nos detalhes, porque são o que temos ao alcance da mão. Você, ainda que seja um “toquinho” assim, está subindo uma escada. Temos a escada do amor, minhas filhas: façam as coisas por amor a Jesus Cristo, para ajudá-lo a carregar a Santa Cruz, nesta terra de Santa Cruz; façam por amor a Santa Maria. E então o pequeno se torna grande, e você já não é mais um “toquinho”, mas está tocando o Céu com a cabeça”.
No dia seguinte, 27 de maio, São Josemaria falava a um grupo de universitários e, com outras palavras, transmitia-lhes a mesma mensagem:
– «Amar a Deus – dizia – não é difícil. Há alguns que pensam que Deus está longe, longe, longe … Deus está no nosso trabalho cotidiano, no de cada qual, no que fazemos com a cabeça ou com as mãos. Deus está no cumprimento do dever pessoal e das obrigações próprias de cada estado de vida. Deus nosso Senhor, que é um Pai  – um Pai boníssimo!  –, olha para nós com um carinho imenso. E não só não está longe, mas está perto, tão perto que o temos dentro de nós mesmos, no centro da nossa alma em graça, enquanto procuramos viver em seu Amor».
Textos extraídos do livro de F. Faus São Josemaria Escrivá no Brasil, Quadrante 2007, pág.92

O FUNDADOR DO OPUS DEI EM SÃO PAULO (fioretti-V)

O CARVÃO E O RUBI
Na noite de um para dois de junho de 1974, véspera de Pentecostes, São Josemaria, por causa de uma indisposição física, não conseguiu dormir quase nada. É natural que um homem de setenta e dois anos, com a saúde fragilizada, depois de uma noite em claro, tenha acordado sentindo uma grande fadiga.
Justamente para essa manhã de Pentecostes estava programada uma ampla reunião para centenas de pessoas de todas as idades – homens e mulheres, solteiros e casados, anciãos e adolescentes… –, que teria lugar no auditório do Palácio Mauá, na Praça João Mendes de São Paulo.
Mal começou a “tertúlia”, vários dos assistentes ficaram assombrados ao verificar que nunca tinham visto Mons. Escrivá tão bem disposto, transbordante de vitalidade e alegria, ágil de pensamento e de palavra.
Tinha-se a impressão de que o Espírito Santo, na sua grande solenidade, quis aquecer-lhe a alma com “o fogo do seu amor”.
Foi uma manhã de diálogo animadíssimo, em que muitos perguntavam ao Padre e ele respondia, transmitindo alegria, bom humor e luzes de Deus. Vamos lembrar agora somente um desses diálogos, como amostra do que foi aquele encontro inesquecível.
Levantou-se um juiz, e perguntou-lhe qual seria o melhor modo de ajudar os outros a se aproximarem de Deus:
  – «Meu filho – foi a resposta −, que bom dia hoje para falarmos disso! É verdadeiramente o Espírito Santo quem coloca no seu coração e na sua boca essa pergunta».
São Josemaria espraiou-se, então, numa resposta que mostrava um traço essencial da mensagem do Opus Dei:  recordou-lhe que é dever de todos os cristãos comuns –  de todos! – procurar a santidade e o apostolado no meio do mundo; e fez-lhe ver que, por outro lado, o apostolado só pode ser eficaz se for um ”transbordamento” da vida interior, do amor de Deus. A resposta, um tanto longa, densa de doutrina, terminou com uma comparação:
«Todos os cristãos temos a obrigação de ser apóstolos. Todos os cristãos temos a obrigação de levar o fogo de Cristo a outros corações. Todos os cristãos temos que fazer com que se alastre a fogueira da nossa alma.
»Olhe, você e eu somos pouca coisa … No fundo do meu coração, vejo-me como uma espécie de nada. Vamos dizê-lo com uma comparação: vejo-me a mim mesmo como um carvão que nada vale: preto, escuro, feio… Mas o carvão, metido no fogo, se acende e se converte numa brasa: parece um rubi esplêndido. Além disso, dá calor e luz: é como uma joia reluzente. E caso se apague? Outra vez carvão! E caso se consuma? Um punhadinho de cinza, nada.
»Meu filho, você e eu temos de inflamar-nos no desejo e na realidade de levar a luz de Cristo, a alegria de Cristo, as dores e a salvação de Cristo a tantas almas de colegas, de amigos, de parentes, de conhecidos, de desconhecidos – sejam quais forem as suas opiniões em coisas da terra –, para dar a todos um abraço fraterno. Então, seremos rubi aceso, e deixaremos de ser esse nada, esse carvão pobre e miserável, para sermos voz de Deus, luz de Deus, fogo de Pentecostes!»
Adaptado de trechos do livro de F. Faus São Josemaria Escrivá no Brasil,  Quadrante 2007, pp. 31 a 35

O FUNDADOR DO OPUS DEI EM SÃO PAULO (fioretti-IV)

UM CARTÃO E UMA TALHA
O relógio marcava meio-dia. Aquela manhã de junho de 1974 tinha a suavidade aconchegante do sol de inverno em São Paulo. São Josemaria regressava ao Centro Universitário do Sumaré – onde residiu durante a sua estadia no Brasil – após uma hora de reunião familiar (“tertúlia”) com um grupo de suas filhas brasileiras.
Faltava ainda um tempo para o almoço e alguém teve a ideia de convidá-lo a visitar uma ala de escritórios do edifício, que ainda não conhecia. Foi aí que apareceu o cartão. Porque tudo começou com um cartão de Natal colocado a um canto da mesa de um pequeno escritório. Era um cartão canadense de Boas Festas, com a reprodução fotográfica de uma talha em madeira da Sagrada Família sobre um fundo verde escuro: os três − Jesus, Maria e José – caminhando; o Menino no meio, de mãos dadas com a Mãe e São José.
Essa imagem atraiu logo São Josemaria; e ali ficou, sentado à mesa, enquanto contemplava encantado as três figuras.
Todos sabíamos do arraigado amor do Fundador do Opus Dei à Sagrada Família, que vinha crescendo ao longo da sua vida como uma maré impetuosa de devoção, carinho e delicadezas. Mal desembarcou no Brasil confidenciou o propósito espiritual que tinha feito para aquele mês de maio: ir «a Jesus, por Maria, com José».
De repente, um dos presentes lembrou-se de mencionar uma talha de madeira da Sagrada Família, de quase meio metro de altura, que se conservava naquela casa à espera do destino definitivo em outro Centro. Bastaram uns momentos para que aquela imagem de Jesus, Maria e José, caminhando de mãos dadas como as do cartão, repousasse sobre a mesa diante do santo.
Punha os olhos, cativado, em cada uma das três figuras, beijava-as, acariciava-as com as mãos. Transparecia nessas atitudes a fé enamorada com que tratava habitualmente, dia e noite, com Jesus, Maria e José. Muitas vezes lhe tínhamos ouvido que seu desejo seria «estar sempre com os três».
Foi uma bela lição de piedade pessoal, e um lembrete vivo – para os que o conhecíamos e meditávamos as suas obras – das luzes que, desde 1928, não se cansou de difundir e que cumularam de fé e ideal muitos corações de cristãos correntes, de “cidadãos comuns”. Deus pode e deve ser encontrado na vida diária – vida de família, de trabalho, de amizades – como a que viveu durante trinta anos a Sagrada Família. E ali, no trabalho e nos deveres cotidianos, “vulgares”, podem ser alcançados os cumes da santidade, os mais altos patamares do Amor cristão.
«Jesus – tinha escrito −, crescendo e vivendo como um de nós, revela-nos que a existência humana, a vida comum de cada dia, tem um sentido divino. Por muito que tenhamos considerado essas verdades, devemos encher-nos sempre de admiração ao pensar nos trinta anos de obscuridade que constituem a maior parte da vida de Jesus entre seus irmãos, os homens. Anos de sombra, mas, para nós, claros como o sol. Mais: resplendor que ilumina os nossos dias e que lhes dá uma autêntica projeção» (É Cristo que passa, n. 14).
A imagem de papel e a imagem de madeira foram um farol que projetava nos que o viam e ouviam o cerne da mensagem do Fundador do Opus Dei: que Deus chama todos os batizados à santidade, e que a vida cotidiana, corriqueira, comum, vivida na presença de Deus, colocando amor nos detalhes diários, pode e deve ser um luminoso caminho de santidade.
Adaptado do livro de F. Faus São Josemaria Escrivá no Brasil, Quadrante 2007, págs. 43-45

O FUNDADOR DO OPUS DEI EM SÃO PAULO (fioretti-III)

LUZES NA NOITE DA VIDA
São Josemaria acabava de celebrar a Santa Missa no Centro de Estudos Universitários do Sumaré. Como de outras vezes, ficou ajoelhado num genuflexório, do lado esquerdo do presbitério, para fazer a ação de graças. Após alguns segundos de silêncio, sua oração pessoal começou a fluir em voz alta:
– «Temos de confessar o nosso nada. Senhor, eu não posso, não valho, não sei, não tenho, não sou nada. Mas Tu és tudo, e eu sou teu filho e teu irmão».
Sentia-se um pobre carente de tudo, mas um pobre agasalhado por aquele Amor generoso  – Deus  – que derrama em nós, por pura misericórdia, as riquezas espirituais da Comunhão dos Santos, o tesouro dos méritos e orações de Cristo e dos santos, que Ele põe à nossa disposição. E, por isso, continuava a dizer:
– «Mas posso tomar, Jesus, os teus méritos infinitos, os merecimentos de tua Mãe e os do Patriarca São José, meu Pai e Senhor; e as virtudes dos santos, e o ouro os meus filhos…»
“O ouro”… Queria apoiar-se nas virtudes dos seus filhos no Opus Dei, com as quais sentia-se rico e forte. E as dele? E ele? Nada reconhecia de bom em si? Algo via, sim, mas perecia-lhe tão pouco…:
– …«e as pequenas luzes que brilham na noite da minha vida, pela misericórdia infinita de Deus e a minha pouca correspondência».
Bem convencido disso, acrescentava, falando em linha direta com Jesus:
– «Aumenta-nos a fé, a esperança e o amor. Porque temos de viver de amor, e só Tu nos podes dar essas virtudes».
E concluía com um ato de humilde e candente confiança:
– «Senhor, ainda que a minha pobre vida seja tão miserável como a do filho pródigo…, eu volto, voltarei sempre, Senhor, porque te amo! Não me abandones!».

O FUNDADOR DO OPUS DEI EM SÃO PAULO (fioretti-II)

A COBRA E O RATO BRANCO
Mons. Escrivá, por prescrição médica, tinha que andar a bom passo uma hora diária. Para amenizar esse dever, que a repetição podia tornar monótono, nos primeiros dias de sua estada no Brasil, entre maio e junho de 1974, procurou-se que fizesse a caminhada em lugares amenos e interessantes de se conhecer.
Para o dia 30 de maio, foram escolhidos os jardins do Instituto Butantã, colados à Cidade Universitária. Andando e conversando, podiam contemplar-se os serpentários, as amplas fossas onde se misturam cobras de todo tipo, cujo veneno é extraído periodicamente para a fabricação do soro antiofídico. Perto de um desses lacus, uma edícula com formato de quiosque mostrava em suas quatro faces o que poderíamos chamar de flats privativos de algumas cobras. Através de um vidro de segurança, o espectador podia contemplar lá um espécime interessante de réptil venenoso.
Um desses flats chamou a atenção dos caminhantes. Repousava nele, perfeitamente imóvel, uma gorda serpente cascavel. No mesmo local, estava evolucionando, na maior paz, um ratinho branco. Ora erguia a cabeça, mostrando a ponta rosácea do nariz a tremular, ora farejava a um canto, ora iniciava um surto de corrida e ia passando tranquilo, uma e outra vez,  por cima da cobra. Confiante demais, subiu no corpo da cobra e aproximou-se da cabeça do “bicho mau”. Foi fulminante. Numa investida rapidíssima, a cascavel abocanhou-o, e a aventura do ratinho terminou ali. Como nas fábulas clássicas.
São Josemaria tinha observado atentamente a cena. Quando aconteceu o desfecho previsível, comentou só com pena:  – Ele pediu! (Se lo ha buscado!).
Mais adiante, evocando o episódio, extraiu-lhe o simbolismo espiritual, aplicando-o a atitude lamentável do “pobre cristão, que luta, luta, mas não sabe fugir da ocasião…”. Cristãos de boa vontade, que não se decidem a esforçar-se por melhorar, por vencer erros, pecados e defeitos e por adquirir virtudes; cristãos que sempre ficam na gangorra do cai-levanta e volta-a-cair, e que não conseguirão livrar-se dessa perigosa ambiguidade enquanto não tiverem a coragem (ou a sinceridade) de se afastar das pessoas ou circunstâncias que os levam a claudicar, e a ser abocanhados pela cobra da preguiça, da desordem, do mau humor, da maledicência, do rancor, do ódio, da sensualidade sempre à espreita, da tentação de trocar o dever familiar por uma sonolência de cascavel saciada perante a tv…  Não pode haver vida cristã sem luta.
Nesse mesmo dia, 30 de maio, não sei se por causa do ratinho, São Josemaria falou à tardinha, a um grupo de estudantes, da necessidade de lutar. Animava-os: «Eu tenho que lutar como vocês. Da mesma forma! Experimento as mesmas paixões, as mesmas más inclinações. E tenho também  – como vocês, como todos os homens – uma chamada de Deus. Há algo de grande, de nobre, de divino, que me diz: porta-te bem, vence-te a ti mesmo, procura servir os outros e trabalhar com o pensamento voltado para o bem de todos…»
Não era a primeira vez que falava de luta, naqueles dias. Numa das primeiras reuniões com rapazes, uma daquelas tertúlias familiares em que o diálogo se tornava logo confiante e cálido, o Padre começou assim:
– Meus filhos, estamos no mundo para não sair do mundo. Nosso Senhor quer que fiquemos no meio da rua…
De ouvido atento, os assistentes compreendiam que queria aquecer em seus corações o ideal da santidade no meio do mundo, através do trabalho profissional e dos deveres cotidianos do cristão, esse grande ideal que Deus quis proclamar por todas as encruzilhadas da terra por intermédio de São Josemaria e do Opus Dei. Mons. Escrivá continuava:
– «Dizia que estamos no meio da rua. O Senhor quer que estejamos no mundo e que o amemos, sem sermos mundanos. O Senhor quer que permaneçamos neste mundo  – que agora está tão agitado, onde se ouvem clamores de luxúria, de desobediência, de rebeldias que não levam a parte nenhuma  – , para ensinarmos as pessoas a viver com alegria. A gente está triste. Fazem muito barulho, cantam, dançam, gritam, mas soluçam. No fundo do coração só têm lágrimas: não são felizes, são desgraçados. E o Senhor, a vocês e a mim, nos quer felizes».
O Padre pronunciava essa última palavra –“felizes” – dando ênfase a cada sílaba. Era como erguer a bandeira da alegria que todos, na vida, queremos seguir. Todos queremos ser felizes. E, logo a seguir, o “segredo”:
– «Seremos felizes se lutamos e vencemos. Cada um de nós tem uma experiência pessoal, como eu a tenho. Cada um de vocês sabe que, todos os dias, há uma porção de batalhas».
E, como São Josemaria tinha a experiência de que as ideias só valem quando são sangue e vida, acrescentou: «Sei que todos vocês estão decididos a lutar. Sei que nenhum de vocês é covarde, que todos são valentes, que não têm medo…»
Pouco depois, em diálogo com um estudante, completou: «Eu, que sou menos jovem, tenho que lutar igual a você… Mas, não se iluda, não se imagine vitorioso. Será vitorioso se contar com Deus, se for humilde. Senão, irá para o chão. E eu também. No entanto, é preciso lutar, não há outro remédio. E por que é preciso lutar? Por amor. Nós estamos apaixonados…».

O FUNDADOR DO OPUS DEI EM SÃO PAULO (fioretti – I)

UMA CAMÉLIA VERMELHA
A porta do oratório estava aberta e todas as luzes acesas. Eram 8,00 horas da noite de 22 de maio de 1974. O lugar, a sede do Opus Dei no Brasil, no bairro do Sumaré, em São Paulo. O clima, carregado de emotividade cálida, era de intensa expectativa. E não era para menos, pois se tratava da primeira vez em que São Josemaría Escrivá visitava os seus filhos da América do Sul, começando pelo Brasil.
Eu encontrava-me junto dessa porta. Por ela entrou São Josemaria, após ter cumprimentado antes, com grande afeto, todos os que o recebemos, recém chegado do aeroporto. Mal entrou no oratório, feito o sinal da cruz com a água benta, o seu olhar, brilhante, cravou-se no sacrário. Aproximou-se dele, direto, mirando-o embevecido,  como outros contemplam, cativados, a pessoa amada.
 Adorou Jesus presente na Eucaristia  – o “Amor dos amores” –  com uma genuflexão pausada, enquanto com a alma Lhe dizia: «Creio firmemente que és Jesus, o filho de Maria sempre Virgem, que estás aqui verdadeira, real e substancialmente presente, com o teu corpo, o teu sangue, a tua alma e a tua divindade. Adoro te devote…». Uma oração silenciosa, habitual nele, que nós viemos a conhecer quando nos confidenciou que costumava dizê-la, com o coração, ao adorar  Jesus na Santíssima Eucaristia.
Foi neste momento que aconteceu o episódio da flor.
Já ao entrar no oratório, o Bem-aventurado Álvaro del Portillo, seu fiel e inseparável colaborador, vindo de Roma com ele, entregou a Mons. Escrivá uma camélia vermelha. Ele tomou-a na mão e, encostando-a ao peito, quase que apertando-a contra o coração, subiu ao estrado do altar e  depositou-a na mesa, junto ao sacrário, ao pé de Jesus. Então, sorriu.
A história dessa flor e simples: apenas uma pequenina história do coração. São Josemaria Escrivá saía do aeroporto de Congonhas, aonde acabava de chegar num avião Bandeirantes, que o trouxe do Rio  – término do seu voo transatlântico  –, quando foi repentinamente “assaltado”.
Isso mesmo. Um grupo de cinco pessoas, meio embuçadas pela escuridão da noite, aproximou-se rapidamente da janela do carro através da qual se avistava o perfil de Mons. Escrivá. Só que, em vez de gritarem “É um assalto!”, gritavam “Padre, Padre!”, e, em vez de apontar-lhe ao peito um revólver, apontavam-lhe uma flor. Era uma camélia vermelha, grande, viçosa, bonita.
Um símbolo, que o Padre entendeu e agradeceu: – «Obrigado, obrigado! Que Deus vos abençoe!».  Nas pétalas estavam invisivelmente inscritos os nomes daqueles cinco amigos, mas a camélia tinha um simbolismo mais amplo: o do carinho para com o “pai” de centenas de filhos brasileiros do Opus Dei, que aquele grupo de amigos quis expressar por meio de uma flor, vermelha como o coração. São Josemaria não guardou a camélia para si. Tudo na sua vida era só para o seu grande Amor  – Deus  –  e para as almas que Ele ama. E, deste modo, lá no altar ficou a camélia até murchar, exalando seu perfume em honra de Jesus sacramentado.

Novena do Espírito Santo: terminar com Maria (10)

Décimo dia: MARIA: ESPOSA DO ESPÍRITO SANTO
TODOS. – Santa Maria, Filha de Deus Pai, Mãe de Deus Filho, Esposa de Deus Espírito Santo, acolhei maternalmente as nossas súplicas e intercedei por nós para que, na grande solenidade de Pentecostes, possamos oferecer ao Espírito Santo um coração aberto, transparente e puro. Vós que sempre acolhestes o Espírito Santo em vosso Coração Imaculado.
LEITOR 1. – Hoje encerramos a nossa novena – o nosso “decenário” – ao Espírito Santo voltando o olhar para a nossa Mãe, Maria Santíssima. Ela é, como a chama o Catecismo da Igreja, “a obra prima de Deus” , a virgem puríssima que sempre correspondeu à graça do Espírito Santo, sem nunca lhe opor a menor resistência ou recusa.
TODOS. – Que alegria ter como Mãe aquela que é a “obra prima” do Amor divino, aquela que é movida somente pelo Amor de Deus em pessoa, pelo Espírito Santo.
LEITOR 1. – Vocês se lembram da primeira vez que Nossa Senhora aparece no Evangelho?
LEITOR 2. – Sim, foi no dia da Anunciação. Assim o conta São Lucas, no primeiro capítulo do seu Evangelho: Entrando o Anjo onde ela estava, disse-lhe: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo .
LEITOR 1. – É bonito. Desde o primeiro momento, a Bíblia nos fala de Maria inseparavelmente unida ao Espírito Santo.
LEITOR 3. – Como assim? Eu não ouvi que o Anjo mencionasse ainda o Espírito Santo.
LEITOR 1. – Mas, sim, sem nomeá-lo, ele o mencionou. Repare que a saudação do Anjo Gabriel, entrando em casa de Maria, é anterior à Encarnação do Filho de Deus no seio da Vigem. É importante lembrar-nos disso. E veja que o Anjo saúda Maria com duas frases breves (as que nós repetimos no começo da Ave-Maria). A primeira é Cheia de graça!  Vocês sabem que toda a graça é dada pelo Espírito Santo, e que toda alma em estado de graça – limpa de pecado grave–, é templo do Espírito Santo: Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito Santo habita em vós?, dizia São Paulo . Pois bem, se até uma alma cheia de pecados veniais é templo do Espírito Santo (ainda que o “entristeça”), quanto mais não o será Maria, que foi concebida sem pecado original e jamais foi atingida por pecado algum. Portanto, ao dizer Cheia de graça, o Anjo diz, na realidade: Tu és plenamente habitada pelo Espírito Santo, és o templo perfeito, a morada perfeita do Espírito Santo.
TODOS. – É bonito mesmo ter uma Mãe assim. Mas…, por favor, comente a segunda frase.
LEITOR 1. –O Senhor é contigo – diz o Arcanjo. Que Senhor? Voltemos a pensar que não pode ser Jesus, pois nesse instante ainda não estava em seu seio. Então, isso significa que quem “está com ela” é o Espírito Santo, a quem  nós também invocamos como Senhor, no Credo longo da Missa, como aqui faz o Anjo.  “Senhor que dá a vida” – dizemos no Credo.
LEITOR 3. – É verdade. E, depois disso, o que é que o Anjo disse? O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo te envolverá com a sua sombra. Por isso, o santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus . Nesse momento O Verbo se fez carne e habitou entre nós . Não acham maravilhoso que Jesus tenha vindo ao mundo como fruto direto do Espírito Santo, do Amor substancial no seio da Santíssima Trindade, e que tenha tido como Mãe a criatura mais bela, pura, maravilhosa e fantástica que saiu das mãos do Criador. E não acham que o mais tocante é que nos tenha dado essa Mãe como Mãe nossa? .
TODOS. – Sabendo disso, como nós sabemos, será possível que exista algum cristão que não tenha uma admiração, uma devoção, uma ternura e um amor imensos por essa Mãe santíssima, que nos quer a cada um de nós como filhos seus, irmãos de Jesus Cristo?
LEITOR 3. – Agora, se me permitem…
LEITOR 1. – Lógico! Estamos falando de coração aberto…, Diga, por favor.
LEITOR 3. – Então, se me permitem, eu direi que a cena do Evangelho relativa a Maria e ao Espírito Santo que mais me toca o coração é a da Visitação.
TODOS. – Gostaríamos muito de acompanhar o seu pensamento.
LEITOR 3. – Só o fato de ler o que diz o Evangelho de São Lucas já é um jato de luz. Vejam. Maria, na Anunciação, ouviu dizer que sua prima Isabel, já idosa, por mercê especial de Deus, estava esperando um filho. O Anjo falou disso como prova de que para Deus não há nada impossível. Mas Nossa Senhora logo captou que Isabel estaria precisando de ajuda nos últimos meses de gravidez e, então, diz São Lucas: Maria se levantou e foi às pressas às montanhas, a uma cidade de Judá, onde Isabel morava. Ora, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança – o futuro São João Batista – estremeceu de gozo no seu ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.
LEITOR 1. – Pensemos na mensagem que nos traz essa passagem do Evangelho.
LEITOR 2. – Realmente, traz uma mensagem fantástica. Deus nos mostra que, desde o primeiro momento em que Maria se tornou a Mãe de Jesus, Deus quis se servir dela como instrumento para derramar a graça do Espírito Santo em outras almas. De fato, Maria – trazendo Jesus em seu ventre – torna-se, por querer de Deus, medianeira da graça do Espírito Santo para sua prima Isabel. Bem claro o diz Evangelho: bastou que os olhos de Isabel vissem Maria e seus ouvidos escutassem a sua saudação, para que Isabel ficasse cheia do Espírito Santo.
LEITOR 1. – É por isso que a Igreja invoca Maria com o belo título de “Medianeira de todas as graças”. O Papa Leão XIII chegou a dizer: “Ainda que a graça e a verdade nos tenham vindo, sem dúvida, por Jesus Cristo, é vontade de Deus que nada se distribua se não é através de Maria, de sorte que assim como ninguém pode ir ao Pai senão pelo Filho, do mesmo modo ninguém pode chegar-se ao Filho senão pela Mãe” .
LEITOR 3. – Faz muitos séculos, o grande poeta Dante Alighieri, na sua Divina Comédia, expressou essa fé antiqüíssima do povo cristão com os seguintes versos de grande beleza: “Senhora, és tão grande e tanto podes, que quem quer graça e a ti não recorre, o seu desejo quer voar sem asas” .
TODOS. – Será que a devoção a Nossa Senhora ocupa, na nossa vida, o lugar que Deus quer? Será que às vezes não nos esquecemos do que acabamos de meditar: que o próprio Deus nos manifesta que quer trazer-nos a graça do Espírito Santo pela mediação maternal de Maria? Recorremos sempre e em tudo a ela, com plena confiança filial? Seria bom pararmos um pouco e refletir sobre isso.
(pausa de silêncio).
LEITOR 2. –Sem nos afastarmos da cena da Visitação,  eu gostaria de acrescentar outra reflexão. O Evangelho descreve o encontro de Maria e Isabel como uma verdadeira explosão de alegria: Isabel louva Maria, feliz, transbordante de entusiasmo: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Agradece em voz alta a honra de ter sido digna de receber a Mãe do meu Senhor, e acrescenta: Pois assim que a voz da tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria no meu seio. Logo a seguir, a própria Maria, inundada de alegria, expressa o seu gozo no cântico do Magnificat: Minha alma engrandece o Senhor e meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador .  Toda esta cena, que tem o Espírito Santo como principal “protagonista”, é um transbordamento de alegria. Realmente, não é sem razão que nós invocamos Nossa Senhora, na ladainha, como “Causa da nossa alegria”.
LEITOR 3. – É que a graça do Espírito Santo e a alegria vão juntas. Recordemos que, como víamos no primeiro dia da novena, São Paulo coloca a alegria como segundo “fruto” do Espírito Santo, junto com a caridade, com o amor…?  Ao pensarmos nisso, não acham que também poderíamos dizer, modificando um pouco os versos de Dante: “quem quer alegria e a ti, Santa Maria, não recorre, o seu desejo quer voar sem asas”?
LEITOR 1. – É isso mesmo! A alegria é o sinal de Deus, porque a alegria é inseparável do verdadeiro amor. Mesmo nos momentos difíceis da vida, se há amor a Deus e ao próximo, no fundo da alma reinam a paz e a alegria, que são compatíveis com as lágrimas. A alegria é inseparável do estado de graça, que nos faz templos do Espírito Santo, quer dizer – vale a pena repeti-lo mais uma vez –, do Amor divino. Bem dizia alguém que, no fundo, só existe uma tristeza, e é a de não sermos santos, de não termos em nós o amor de Deus.
LEITOR 3. – Com Maria, sempre poderemos alcançar ou recuperar a graça. Tendo um trato filial com ela, seremos capazes de aspirar à santidade, mesmo sendo pecadores, como de fato o somos. Mas Deus só nos pede isso: aspirar à santidade. E é uma verdade muito grande, talvez hoje mais do que nunca, o que dizia São Josemaria Escrivá: Um segredo – Um segredo em voz alta. –Estas crises mundiais são crises de santos .
LEITOR 1. – Que Deus acenda em nós o desejo de caminhar para a santidade, e que nós estejamos prontos para dar cada dia um passo: passos de amor e passos de contrição pelos pecados . Peçamos a Maria que nos acompanhe até um encontro cada vez mais intenso com o Amor que santifica, com o Espírito Santo.  Que Ela nos dê a mão e nos conduza, como o fez com os Apóstolos nos dez dias de  espera de Pentecostes.
TODOS. – Santa Mãe nossa, Virgem Maria, Esposa do Espírito Santo, dai-nos a mão no caminho da vida. Nós somos fracos, pecadores, pequenos, mas somos as vossas crianças, crianças rebeldes e sujas às vezes, mas crianças que querem caminhar pelos caminhos do amor a Deus e ao próximo. Vós, Mãe querida, nos ajudareis a sermos, como vós, dóceis à graça do Espírito Santo, dóceis aos seus sete dons. Não nos solteis da mão e, se alguma vez caímos no chão, pegai-nos em vossos braços, ajudai-nos a curar-nos e limpar-nos na confissão, e voltai a ser a mão materna e doce que nos guia por onde o Espírito Santo nos quer conduzir.
LEITOR 1. – Este é o melhor propósito concreto que poderíamos oferecer ao terminar a novena. Que Deus, pela intercessão de Maria, abençoe a todos os que nos preparamos com Ela para a grande solenidade de Pentecostes.

Novena do Espírito Santo (9)

Nono dia: O DOM DE PIEDADE (para com o próximo)
TODOS. – Vinde, Espírito Criador, visitai as almas dos vossos fiéis; enchei de graça celestial os corações que Vós criastes; vós, que sois chamado o Consolador, o dom do Deus altíssimo, fonte viva, fogo, caridade e unção espiritual.
LEITOR 1. – Hoje completamos a nossa meditação sobre os sete dons do Espírito Santo, e pedimos luz ao Paráclito para compreender bem a segunda manifestação do dom de Piedade, que – como víamos ontem – é a piedade para com o próximo. Como definiríamos esse dom?
LEITOR 2. – Com certeza, aqui também nos pode ajudar o que dizia João Paulo II, que, aliás, já lembramos no último encontro: “Mediante o dom de piedade, o Espírito Santo sana em nosso coração todo tipo de dureza e o abre à ternura para com Deus e para com os irmãos”. Sobre esse último aspecto, o Papa acrescentava que o dom de piedade nos comunica a ternura em forma de uma “abertura autenticamente fraterna para com o próximo, que se manifesta na mansidão”. Ao mesmo tempo, dizia que esse dom “extingue no coração todos os focos de tensão e divisão, tais como a amargura, a cólera e a impaciência; e alimenta a alma com sentimentos de compreensão, de tolerância e de perdão”. Não acham que é um fantástico panorama de amor cristão? Não é isso o que todos nós desejaríamos praticar?
TODOS. – Meu Deus, só por causa dessas palavras que acabamos de ouvir já dá vontade de parar e meditar sobre tantas falhas diárias de amor que nós temos. Muitas faltas de caridade! Que pena que muitas vezes nem nos demos conta delas e até achemos que são naturais! Supliquemos a Deus que perdoe a nossa falta de “ternura”, e nos conceda a piedade tal como João Paulo II a descreve.
LEITOR 3.  Acho que agora, que reconhecemos isso, estamos em condições de meditar melhor sobre as palavras do Papa.
LEITOR 1. – Perfeitamente. Sem dúvida, todos nós já percebemos que João Paulo II fala, em primeiro lugar, da “mansidão”, como manifestação de “ternura fraterna”. E lembra que, para vivê-la bem, é preciso “extinguir os focos de tensão e divisão”, e concretamente: “a amargura, a cólera e a impaciência”.
LEITOR 2. – Parece-me natural que Jesus, que nos deu como mandamento principal o do amor a Deus e ao próximo, tenha pedido que pratiquemos a mansidão, porque sem ela o amor ao próximo fica abalado. Aprendei de mim – dizia Cristo –, que sou manso e humilde de coração . Não é por acaso que Ele coloca juntas essas duas virtudes, a humildade e a mansidão, porque são duas irmãs gêmeas, inseparáveis.
LEITOR 3. – Realmente, sem humildade é impossível ter mansidão. A maior parte dos pecados de ira, como as explosões de cólera, as irritações, as raivas e as impaciências procedem da falta de humildade, de que nos colocamos como centro de tudo, e qualquer coisa que nos contraria ou nos humilha provoca em nós uma reação de orgulho ferido, de irritação, de protesto.
LEITOR 1. – A respeito disso, vou sugerir que meditemos, fazendo depois uma pausa de reflexão silenciosa, umas palavras impressionantes de São Paulo, na sua Carta aos Colossenses. São as seguintes:  Deixai de lado a ira, animosidade, maledicência, maldade, palavras torpes da vossa boca… Como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, toda vez que tiverdes queixa contra alguém. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós .
(pausa de silêncio)
TODOS. – É bem claro que o orgulho é a raiz venenosa da falta de amor ao próximo. Mas, como podemos vencer o orgulho e adquirir a humildade? Como conseguiremos extinguir os focos de divisão, a amargura, a cólera e a impaciência?
LEITOR 1. – Em primeiro lugar, rezando, pedindo humildemente: “Jesus, manso e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso”. Em segundo lugar, colaborando com esta graça que pedimos – no caso, o dom de piedade –, por meio da nossa luta para purificar a alma dos nossos maus sentimentos e maus hábitos, dos defeitos do nosso mau caráter, que são como espinhos que ferem o próximo.
LEITOR 3. – E como podemos lutar, de modo prático?
LEITOR 2. – Alguns autores espirituais recomendam fazer exercícios de paciência.
LEITOR 3. – Por exemplo?
LEITOR 2. – Em algum lugar, li uns conselhos práticos, que anotei e trouxe aqui. Poderia ler agora essas anotações, ainda que sejam um pouco longas?
TODOS. – Lógico. O que interessa é meditar coisas que ajudem a melhorar.
LEITOR 2. – Então, esse autor, sintetizando um pouco o que ele escreve, diz assim:
 1) Não repreender quando sentimos a indignação pela falta cometida – como diz São Josemaria Escrivá. Esperar até acalmar;
2) Fazer o esforço de escutar pacientemente a todos, se possível com um sorriso dos lábios;
3) não queixar-nos nem andar comentando a toda a hora as nossas dores de cabeça, de barriga ou de coluna nem, em geral, qualquer outro tipo de mal-estar, mas oferecer a Deus o sofrimento, e fazer boa cara;
4) Não usar nunca as frases do Dicionário da Impaciência: “Você sempre faz isso!”, “De novo”, “Já é a terceira vez!”, “Já estou cansado”, etc., etc.;
5) Evitar cobranças insistentes e antipáticas, e ajudar os outros com paciência, lembrando-lhes sem rispidez as coisas que esqueceram e estimulando-os a fazê-las;
6) não implicar com pequenos maus hábitos ou cacoetes dos outros, mas deixá-los passar como quem nem repara neles: mania de bater na cadeira, de fazer ruído com a boca, de deixar luzes acesas e portas abertas;
7) saber repetir calmamente as nossas explicações a quem não as entende;
8) não buzinar na rua com raiva, e nunca olhar para a cara do motorista “barbeiro” (não vendo-lhe a cara, é difícil ter raiva dele);
9) rezar quando a ira começa a ferver,  como aquela mãe impaciente que se tornou “rezadora”, e dizia nessas horas: “Mãe de misericórdia, rogai por nós (por mim e por esse moleque danado)”; e, quando começava a estourar uma discussão conjugal: “Meu Deus, que eu veja aí a cruz e saiba oferecer-Vos essa contrariedade! Rainha da paz, rogai por nós!”… São só alguns exemplos. Mas já vêem que isso ficou muito longo .
TODOS. – Não importa. É disso que precisamos!
LEITOR 3. – E o que fazer, para praticar esse outro aspecto da piedade, que é a compreensão e o perdão, tão difíceis de viver?
LEITOR 1. – Sobre a compreensão, muitos bons orientadores espirituais aconselham a fazer-nos estas perguntas: Eu amo só a “imagem ideal” que fiz dessa pessoa que não consigo compreender, aquela imagem com que sonhei (por exemplo, quando iniciei o namoro), ou estou disposto a amar a “imagem real”, ou seja, a pessoa real que convive comigo dia-a-dia, a pessoa como ela é? – Porque a tal “imagem ideal” (o que nós gostaríamos que os outros fossem e nos achamos no direito de exigir-lhes que sejam) nos impede de “entender”, de “compreender” a pessoa real, de ver por que é assim, por que responde assim, por que age assim. Só após um sério esforço de compreensão é que podemos amá-la – querê-la bem – e ajudá-la pouco a pouco, com paciência, a ser melhor. Dá para entender? Sei que isso exigiria uma longa conversa, mas o tempo não nos permite tê-la.
TODOS. – Está bem… Mas, mesmo que seja brevemente, ainda há tempo de nos perguntarmos, a respeito do perdão, o que fazer quando não conseguimos perdoar as pessoas que nos ofendem ou prejudicam, mesmo querendo perdoar, mesmo sabendo que Jesus nos pede isso: perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido?
LEITOR 1. – Não é fácil. Para dar uma resposta breve, talvez a melhor coisa seja recordar o conselho que dá o Catecismo da Igreja Católica (núm. 2843): “Não está em nosso poder não mais sentir e esquecer a ofensa; mas o coração que se entrega ao Espírito Santo transforma a ferida em compaixão e purifica a memória, transformando a ofensa em intercessão”. Quer dizer, nós nem sempre somos donos das nossas emoções e sentimentos, mas podemos fazer duas coisas: esforçar-nos por ver o pecado do outro como o que é aos olhos de Deus, uma ferida que o machuca sobretudo a ele mesmo, e termos dor disso; e, depois, rezar – aí está a “intercessão” –, mesmo que não “sintamos” afeto ou simpatia pela pessoa por quem rezamos.
TODOS. – Que bonita é a expressão do Catecismo, que fala de sermos “um coração que se entrega ao Espírito Santo”. Agora que este encontro está chegando ao fim, vamos fazer essa entrega, pelo menos com o desejo: – Divino Espírito Santo, Deus, Amor, eu quero entregar-vos o meu coração. Aceitai-o, ainda que esteja manchado e seja fraco e, como reza a Igreja, “acendei nele o fogo do vosso Amor”, para eu possa transmiti-lo aos outros em forma de compreensão e de perdão. Divino Espírito Santo, nós vos agradecemos, e ficamos com a convicção, bem clara e definitiva, de que só o Amor, o vosso Amor, é capaz de “renovar a face da terra”.
LEITOR 1. – Encerrando o nosso nono dia (para alguns, o último dia da novena; para os que desejam fazer o “decenário”, o penúltimo), eu sugeriria, como propósito concreto, examinar com toda a sinceridade as nossas faltas de ternura, de mansidão, de paciência, de compreensão e de perdão; e começar propondo-nos alguns “exercícios” práticos de paciência e caridade, semelhantes aos que há pouco nos foram lembrados.

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