A alegria de servir

Um incidente que ilustra. São Paulo, no grande hino à caridade do capítulo treze da primeira Carta aos Coríntios, diz que o amor não busca os seus próprios interesses (1 Cor, 13,5), e exorta também os cristãos de Filipos a nada fazer por espírito de partido ou vanglória, mas – como ele escreve – “que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses, e sim os dos outros” (Fil 2,3-4). Essas palavras são um eco da constante exortação de Cristo a servir, atitude imprescindível para imitá-Lo: O Filho do homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por uma multidão (Mt 20,28).

Estas última palavras pronunciou-as Cristo para encerrar um triste incidente que se deu entre os Apóstolos. Vale a pena recordá-lo…, para meditar e aprender.

Aconteceu que, indo Jesus a caminho de Jerusalém com os seus discípulos, chegaram-se a Ele dois irmãos, Tiago e João, acompanhados pela mãe, Salomé, uma das mulheres que seguiam e serviam o Senhor (cfr. Mc 15,40). A mãe adotou um ar solene, um olhar suplicante: Prostrou-se diante de Jesus, para lhe fazer um pedido. E que pediu? O melhor para os filhos, como é próprio de uma mãe: Ordena que estes meus dois filhos se sentem no teu Reino, um à tua direita e outro à tua esquerda. Nada menos! Pedia os dois primeiros lugares naquele Reino que tanto ela como os filhos ainda imaginavam como um reino terreno.

Jesus olhou-a, imagino que carinhosamente divertido. Sorrindo, dirigiu-se aos dois que tinham vindo conchavados com a mãe, e disse-lhes: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu devo beber? Cristo ia ser, certamente, Rei, mas o seu Reino seria conquistado pela Cruz, por meio da sua entrega redentora. Eles não sabiam ainda o que isso significava, saberiam mais tarde; mas, mesmo assim, com simplicidade inconsciente, respondem sem hesitar: Podemos! Como que a dizer: “Estamos dispostos a tudo, contanto que nos tenhas, no Reino, como homens de confiança, bem perto de ti”.

Foi aí que irrompeu o conflito. Os dez outros [Apóstolos], que haviam ouvido tudo, indignaram-se contra os dois irmãos. Pronto, já estava armada a briga. O Evangelho não a descreve com detalhes, mas todos sabemos as caras que fazemos, as palavras que dizemos e o tom com que falamos quando estamos morrendo de raiva. No caso, morrendo de inveja: “Quem pensam que são esses dois, que querem passar à frente de todos nós, e ainda por cima com artimanhas de politicagem materna?”

Jesus, calmo e entristecido pelo espetáculo, chamou-os. E disse-lhes: Sabeis que os chefes das nações as subjugam, e que os grandes as governam com autoridade. Não seja assim entre vós. Todo aquele que quiser tornar-se grande entre vós faça-se vosso servo. E o que quiser tornar-se entre vós o primeiro faça-se vosso escravo. Assim como o Filho do homem – o próprio Jesus – veio, não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por uma multidão (Mt 20, 20-28).

A ambição dos dois irmãos, e a explosão irritada dos outros dez, deram ensejo ao Senhor para expor uma das lições mais belas do Evangelho: o espírito de serviço. Por outras palavras, diz-lhes: “Não se comparem, para ver se um é mais do que o outro; não se deixem arrastar pela inveja e uma competitividade vaidosa; pelo contrário, a sua ambição deve ser dar-se totalmente e servir, por amor, como Eu faço. Aí encontrarão a felicidade: servindo e dando alegrias, e não procurando a alegria vaidosa de ser mais que todos”.

Para servir, servir

Nos anos em que tive a felicidade de morar em Roma e ali conviver com São Josemaria Escrivá, inúmeras vezes estive numa sala de estar onde havia um abajur decorado, na cúpula, com a seguinte inscrição italiana: Per servire, servire – “Para servir, servir”. A mensagem era clara: para termos o espírito de serviço que é próprio do cristão, devemos pôr-nos em condições de ser úteis, e estar dispostos a servir realmente: duas coisas que se expressam com a mesma palavra servir.

Com efeito, servir significa, em primeiro lugar, que alguém é útil, serve, presta; da mesma maneira que dizemos das coisas materiais: “esta ferramenta serve; esse tecido não presta, não tem serventia”. Para servir, é preciso ter qualificação, preparo, condições pessoais para poder prestar determinados serviços.

Numa segunda acepção, o verbo servir indica o ato e o espírito de serviço: a atitude da pessoa prestativa, serviçal, dedicada, sacrificada. Para servir…, o único jeito é dedicar-se, servir mesmo.

Em ambos os sentidos, servir é caminhar na contramão do egocentrismo; é esforçar-se com generosidade em colaborar com o bem e a alegria dos outros.

Exame de consciência

Tendo presente o que acabamos de ver, talvez nos ajude a meditar e a falar com Deus um exame de consciência sobre como vivemos os dois sentidos desse verbo servir.

Primeiro: por que são tantas as ocasiões em que dizemos: “Não sei fazer, não tenho jeito, não tenho condições”? É lógico que não saibamos fazer tudo nem sejamos aptos para todas as tarefas. Mas há muitas coisas que deveríamos saber fazer. Por exemplo, um pai e uma mãe deveriam saber educar os filhos e, se não sabem, é porque não se deram ao trabalho de aprender, de formar-se, de preparar-se (o que é, para eles, um dever grave). Outro exemplo: uma mãe de família, por mais que tenha que trabalhar fora de casa, deveria saber cuidar com primor de todas as coisas que tornam um lar agradável, aconchegante e bem cuidado. Que pena ver mães com os filhos desleixados, mães que não sabem nem proporcionar uma comida variada e gostosa, nem frigir um ovo, nem meter a roupa na máquina de lavar sem que saia desfiada e desbotada. Se a mãe não sabe, é porque não foi responsável: deveria ter-se preparado. A sua inaptidão e despreparo rouba alegrias que deveria dar à família.

Segundo: assim como é muito cômodo não saber fazer as coisas, também é muito cômodo saber fazê-las, mas “ficar na moita”, esconder-se, mascarar-se, omitir-se. Estamos no segundo sentido da palavra servir.

Será que já percebemos a enorme capacidade inativa de ajudar (portanto, de servir), que todos nós temos? Que acha se, para não ficarmos na teoria, pegássemos um papel e um lápis e fizéssemos uma lista – em várias colunas – com as nossas possibilidades? Por exemplo, as seguintes:

– Primeira coluna: Pequenos serviços que eu poderia prestar, se fosse generoso, às pessoas da minha casa (pensando em todas elas, uma por uma). Serviços materiais (ordem, tarefas, compras, limpeza, atendimento da porta, do telefone, etc.) que posso fazer. Ajuda no estudo dos filhos. Auxílios mais profundos, de orientação, de aconselhamento moral e espiritual, de formação nas virtudes, que poderia dar e não dou…

– Segunda coluna: Pequenos serviços que poderia prestar – além dos “grandes” serviços do próprio trabalho – no meu ambiente profissional. Modos possíveis de auxiliar, facilitar e tornar mais amável o trabalho a colegas e subordinados. Será que podem contar comigo, se estão atribulados? Sabem que estou disposto a ouvir, e por isso me confidenciam as suas dificuldades?

– Terceira coluna: E no clube, no time de futebol, na turma de pescadores, na do mountain-bike, na dos integrantes da banda, será que não poderia ser mais prestativo, ter mais iniciativas, ser um apoio maior, dar o couro quando é preciso preparar festas, churrascos e outros bons momentos?

– Quarta coluna: E com os necessitados, com os que sofrem? Que faço? Digo que não posso fazer nada, a não ser dar esmolas de vez em quando, uma contribuição para o orfanato e o dízimo na igreja? Digo que não sei falar, ensinar, dar aula e, por isso, não posso prestar serviços? Mas… posso visitar doentes. Posso fazer visitas a algum hospital ou asilo. Posso prestar algum serviço de voluntariado (uma vez por semana, uma vez por mês…) baseado nos meus conhecimentos profissionais (assessoria jurídica gratuita, assistência médica ou dentária, assistência técnica para a construção de casinhas populares, aulas de complementação, etc, etc).

Há, sem dúvida, outras colunas, que cada qual pode descobrir sozinho e preencher; mas sejam quantas forem, o que importa é tirar delas propósitos concretos de servir mais, muito mais, conscientes de que assim daremos as alegrias que devemos aos outros, e ao mesmo tempo, o nosso coração irá ficando mais cheio de alegria e mais próximo do coração de Cristo que não veio para ser servido, mas para servir, e do coração de Maria, quer só queria ser a serva do Senhor, pronta para fazer tudo quanto Ele lhe pedisse: Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38).

(adaptado de um trecho do livro de F. Faus: A inveja, Quadrante 2000)