A ESTRELA DOS MAGOS – 3: LUZES E NUVENS

Nuvens e estrelas

Duas luzes

Todos nós precisamos de estrelas-guia no caminho da vida. Luzes que brilhem na alma com o resplendor da Verdade e do Bem, e que por isso mesmo nos marquem o rumo certo das ações: a bondade, o bem, a virtude. Compreendemos a incerteza é um sofrimento (“estou agindo certo? estou errando?”, “que deveria fazer?”);  que e penoso enganar-se, e pior ainda olhar para trás e dizer “por que não pensei antes?”, “por que não aproveitei as luzes que Deus me oferecia?”, “por que agi assim e me perdi?”…

Já vimos que os Magos enxergaram, com plena segurança – após interrogarem-se e aprofundar – , que aquela estrela era uma luz divina e, portanto, um apelo de Deus dirigido à sua vida.

Acha que é fácil agir assim? Nós fazemos isso habitualmente?

Antes de mais nada, parece-me importante ter em conta que ninguém pode dizer que não tem “estrela”, pois Deus, pelo grande amor com que nos ama (cf. Ef 2,4), sempre faz com que apareça no nosso horizonte interior– de um modo ou de outro – , o raiar das suas luzes.

A alma sincera é capaz de captar duas luzes essenciais para a realização humana. Uma é a luz da Verdade: sobre Deus, sobre o mundo, sobre o homem. A outra é a luz do Bem – projeção da anterior sobre a vida prática –, que nos mostra qual é a conduta reta a ser adotada em cada momento e circunstância, e nos faz discernir o certo e o errado, o bem e o mal, a virtude e o vício.

Como já percebe, estamos aqui concentrando o foco na segunda dessas luzes.

Certamente, as duas luzes começam muitas vezes apenas como um leve cintilar envolto em nevoeiro, mas Deus não as apaga. Só nós podemos extingui-las.

Por que as apagamos? A resposta está nesta frase de Cristo: Felizes os puros de coração, porque verão a Deus (Mt 5,8). Os Magos – como vimos – tinham um coração simples e puro: amavam a verdade e a seguiam sem hesitar. «A estrela – disse Bento XVI – não teria sido suficiente, se os Magos não fossem pessoas intimamente abertas à verdade» (Homilia 6/1/2007).

Se tivéssemos um coração puro, a luz de Deus entraria sempre na nossa alma.

Nuvens que ocultam estrelas

Na parábola do semeador, Cristo compara a palavra de Deus a uma semente, que pode dar fruto em terra boa, ou pode morrer entre pedras e espinhos; pode ser acolhida ou excluída (cf. Mt 13,1-23). Bem no meio da parábola, o Senhor se interrompe e cita umas palavras do profeta Isaías: Ouvireis com vossos ouvidos e não entendereis, olhareis com vossos olhos e não vereis, porque o coração deste povo se endureceu: taparam os seus ouvidos e fecharam os seus olhos, para que seus olhos não vejam e seus ouvidos não ouçam, nem seu coração compreenda; para que não se convertam e eu os sare (Mt 13,15; e Is 6,9-10).

É bom reler devagar essa citação, ponderando cada uma das suas frases, concatenadas por uma lógica evidente. Nunca vê nem escuta aquele “não quer” ver nem ouvir, e, para isso, fecha voluntariamente os olhos e tapa os ouvidos: “Não há pior cego – diz o ditado – que o que não quer ver”. Essa má vontade vai endurecendo cada vez mais o coração, e a razão é que não se quer mudar a conduta porque não se está disposto à conversão.

Sejamos sinceros. Quais são os nossos “fechaolhos” e “tapaouvidos”? Quais são as nuvens escuras que criamos para mascara a estrela? Vou mencionar quatro. Pense se alguma delas não é porventura “sua”.

Primeira nuvem: a ignorância inocente

Um dos “tapaolhos” mais comuns, atualmente, é a indiferença – unida quase sempre ao preconceito –, fruto de uma ignorância supina. As coisas de Deus não preocupam nem interessam. Nem se pensa nelas, porque delas não se tem a mínima noção. Como dizia alguém, com um neologismo: – Para mim a religião e a moral cristã “nem fu nem fá”…

Na maioria das pessoas essa indiferença é um simples reflexo do desconhecimento. Poucas épocas houve nos últimos dois mil anos de cristianismo em que a ignorância acerca de Deus e da religião fosse tão completa como agora. Em épocas chamadas “bárbaras”, mesmo os analfabetos conheciam as noções básicas da doutrina cristã: quer por transmissão familiar, quer por tradição social, ou pela simples observação das construções e pinturas religiosas. As catedrais medievais, com os seus retábulos e esculturas, “falavam”, ensinavam, eram verdadeiras “bíblias de pedra”. A cultura religiosa, agora, parece estar descendo cada vez mais abaixo da linha de zero.

“Olhos que não veem, coração que não sente”, diz um antigo refrão. Quem não sabe, não aprecia nem sente a falta do que ignora. Imaginemos uma pessoa criada nos fundões de uma caverna, que jamais viu a  luz do sol, nem ouviu falar nela. É claro que não lhe sentiria a falta, e acharia normal a sua escuridão. Bastaria, porém , descobrir por acaso uma fenda por onde se infiltram os raios solares e se vislumbra uma flor, para que o coração desse um pulo e se empenhasse com todas as forças em sair da caverna – por mais que custasse – para ir ao encontro daquelas maravilhas.

Penso que é difícil, após dois mil anos de Cristianismo, que no mundo de hoje uma pessoa jovem ou velha não tenha sido atingida nunca ao menos pela luz de uma “fenda”, por uma flor, por um lampejo de estrela. A ignorância pura inocentaria a falta de fé. Mas eu me pergunto se, afora uns poucos casos, essa ignorância pura se dá na realidade.

            Eu soube, sim, de um caso honesto de ignorância inocente. É o do escritor francês André Frossard, filho do que foi o primeiro secretário geral do Partido Comunista francês. «Na minha vida – contou – Deus não existia.  Éramos ateus perfeitos desses que nem sequer questionam o seu ateísmo.  Tanto era assim que os militantes anticlericais nos pareciam tão ridículos ao defender a inexistência de Deus como o seriam os historiadores esforçando-se por refutar a veracidade da fábula do “chapeuzinho vermelho”… O nosso ateísmo era tão perfeito que nem sequer negava a existência de Deus: simplesmente não se apresentava o problema». Era – dizia –«o ateísmo imbecil que não se questiona».

Após a conversão, escreveria, comovido: «A irrupção da verdade aberta e plena veio acompanhada de uma alegria que poderia comparar-se com a exultação de um náufrago que foi salvo a tempo antes de afundar-se. Naquele momento em que fui resgatado para a salvação, quando tomei consciência da lama em que, sem sabê-lo, estava afundado, pensava em como pude ser capaz de viver ali, de respirar ali durante tanto tempo».

Mas é que André Frossard era uma dessas pessoas que, como dizia Bento XVI, estão «intimamente abertas à verdade». Outras não estão. Vamos olhar para algumas delas nos próximos posts.