A ESTRELA DOS MAGOS – 4: MAIS NUVENS

Nuvens que ocultam a estrela

Segunda nuvem: a ignorância culpável

Há outras ignorâncias que não são inocentes. Têm culpas no cartório. Vamos recorrer a outra imagem para enxergá-las. O idealizador dessa alegoria é Jacques Leclercq.

Era uma vez um homem que vivia no fundo de um poço: um poço pequeno , estreito, incômodo e, como todos os poços, escuro e úmido. A lama era a sua inseparável companhia, a umidade penetrava-lhe o corpo, este doía-lhe e a alma ainda mais. Mas ele tinha achado um jeito de se acomodar razoavelmente no barro do fundo, e até julgava aquilo suportável.

Um dia, sem saber bem por quê, teve o impulso de dar uma olhada por cima do poço. Levantou-se lentamente, esticou as mãos até à beirada, retesou os músculos e por um instante ergueu-se a prumo e pôde contemplar a grandeza e o esplendor da terra: árvores, caminhos a perder-se de vista no horizonte, relva esmaltada nos pastos, flores, pássaros, cantos… Passado o primeiro deslumbramento, enquanto fitava triste o horizonte, o homem do poço resmungou: – “Tudo isto é muito complicado”. E voltou a encolher-se no poço. Lá apodreceu, por não ter tido a coragem de abrir-se à luz.

Deu para entender? Qualquer um de nós, possivelmente, já foi – pelo menos alguma vez –o homem do poço. A luz de Deus nos atingiu, com brilhos atraentes e, após vislumbrar que aquilo era verdadeiro e valia a pena, fechamos os olhos para não ter que assumi-lo e complicar a vida.

No livro Caminho, São Josemaria Escrivá anota uma frase breve, que hoje faz muita falta escutar: «Não tenhas medo à verdade, ainda que a verdade te acarrete a morte» (n. 34).

O medo da verdade traduz-se em fugas e traições. Muitas vezes não queremos ver algo que percebemos ser uma luz para a nossa vida familiar ou profissional, ou para a nossa conduta sexual, ou para os nossos maus hábitos, apenas porque nos incomoda. Cuidado – dizemos a nós mesmos –,  é melhor não esclarecer! Tapamos olhos e ouvidos. E a consciência mente a si mesma.

E assim, com um inocente ar de normalidade, vai se espalhando cada vez mais nas pessoas e na sociedade o permissivismo ético, a corrupção, a luxúria, a anemia moral, a anestesia da consciência. Deste modo cresce a cada dia a «desertificação espiritual» de que fala Bento XVI (catequese de 11/10/2012).***

Terceira nuvem: o ambiente

Lia recentemente o livro de Joseph Conrad “O espelho do mar”. Impressionam as narrações desse grande escritor, que já foi capitão da marinha mercante inglesa na época dos veleiros. Descreve, por exemplo, uma tempestade provocada, perto do Canal da Mancha, pelo “Rei dos Ventos”, o Vento Oeste. Nuvens carregadas, rajadas furiosas, ondas agressivas ameaçando o navio e os tripulantes. E o pior: podem passar-se dias e noites sem enxergar um palmo à frente da proa. Comenta o autor:

«Ver! Ver! Este é o anseio do marinheiro bem como do resto da humanidade cega. Ter caminho claro à sua frente é a aspiração de todo ser humano em nossa existência tempestuosa e anuviada. Já ouvi um homem silencioso e reservado, não especialmente ousado, depois de três dias de uma corrida dura sob um tempo carregado de vento sudoeste, explodir impetuosamente dizendo: “Por Deus, eu queria que pudéssemos enxergar alguma coisa”».

Penso em tantas e tantos, jovens e maduros, que vivem impelidos pelo vento do ambiente, dos costumes sociais (“Maria vai com as outras”), e vão à deriva, movidos pelas opiniões “politicamente corretas” da maioria, verdadeiras nuvens que impedem de ver um palmo à frente do nariz. Mas eles não querem, como o capitão de Conrad, “enxergar alguma coisa”.

O ambiente pode ser simbolizado pela curiosa bruxa do desenho animado japonês “A viagem de Hikiko”. Essa bruxa-monstro, abre uma espécie de imensa boca no abdome e engole tudo, gente, objetos, máquinas. Quando não se tem caráter suficiente para procurar a verdade “ainda que a verdade te acarrete a morte”, o ambiente engole a personalidade e a digere, levando a pessoa a pensar como “todos” pensam, a fazer o que “todos” fazem, a namorar como “todos” namoram, a beber como “todos bebem”, a vestir como “todas” vestem… E – cuidado! –, se você não concorda com as aberrações politicamente corretas, pode ser denunciado à polícia.

Surge assim o paradoxo de uma sociedade em que o indivíduo e divinizado (“realize-se!”, “pense em você!”, “você tem o direito de ser feliz!”), e, ao mesmo tempo, é massificado, é despersonalizado, é padronizado.

Esse tapaolhos do ambiente atinge milhões. Influi na legislação, pesa na balança dos tribunais, justifica o injustificável… e torna-se agressivo contra os que se esforçam por andar na verdade (2 Jo, 4).

(continuaremos esta reflexão nos próximos posts)