FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA (2)

Recapitulando

Na palestra anterior – “Formação da consciência (1) -, vimos o que é a consciência: «A  consciência moral é um julgamento da razão pelo qual a pessoa humana reconhece a qualidade moral de um ato concreto que vai planejar, que está a ponto de executar ou que já praticou» (CCE, n. 1778).

Dizíamos que a consciência é um juízo da razão com base na verdade e no bem objetivos, que a Lei de Deus nos mostra. E lembrávamos que a Lei eterna é a própria Sabedoria divina, inseparável do Amor com que Deus cria o homem, Sabedoria da qual participa a razão do homem, feito à imagem de Deus: essa participação é a “lei natural”,  quaedam participatio legis aeternae in creatura rationali – uma certa participação da lei eterna na criatura racional (S. Tomás, S. Th. I-II, q.91, a.2).

Com a obra da Redenção realizada por Cristo, e o envio do Espírito Santo, Deus revela plenamente qual é o verdadeiro bem do homem, elevado à ordem da graça, e transformado em filho de Deus.

Qualidades objetivas da consciência

Já sabemos que a consciência não é infalível, não é uma espécie de oráculo divino incontestável. «Posta diante de uma escolha moral, a consciência pode emitir um julgamento correto, de acordo com a razão e a lei divina, ou, ao contrário, um julgamento errôneo que se afasta da razão e a lei divina» (CCE, n. 1786).

“Emitir um julgamento correto” não é fácil. «Às vezes − diz também o Catecismo da Igreja −, o homem depara com situações que tornam o juízo moral menos seguro e a decisão difícil. Mas ele deverá procurar sempre o que é justo e bom e discernir a vontade de Deus expressa na lei divina» (n. 1787).

Esta última frase indica uma das primeiras qualidades que deve ter a consciência do cristão: a procura do que é objetivamente bom, do que Deus quer.

  • Chama-se consciência reta a que procura conhecer a lei divina, para depois agir conforme com o querer de Deus. Jesus ilustra essa busca sincera com estas palavras: Aquele que pratica a verdade vem para a luz (Jo 3, 21).

Santo Tomás, com sua característica sobriedade, explica: «A razão do homem será reta na medida em que se deixar dirigir pela vontade divina, que é a regra primeira e suprema» (Suma Teológica, 1-2, a. 154, a. 2).

Essa qualidade da consciência é descrita assim na Encíclica Veritatis splendor: «Sem dúvida, o homem, para ter uma “boa consciência” (1 Tim 1, 5), deve procurar a verdade e julgar segundo esta mesma verdade. Como diz o apóstolo Paulo, a consciência deve ser iluminada pelo Espírito Santo (cf. Rm 9, 1), deve ser “pura” (2 Tim 1, 3), não deve com astúcia adulterar a palavra de Deus, mas manifestar claramente a verdade (cf. 2 Cor 4, 2). Por outro lado, o mesmo Apóstolo adverte os cristãos, dizendo: “Não vos conformeis com a mentalidade deste mundo mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, a fim de conhecerdes a vontade de Deus: o que é bom, o que Lhe é agradável e o que é perfeito” (Rm 12, 2)» (n. 62).

Para um cristão, a “retidão” vem principalmente da fidelidade à Lei Nova, à “lei evangélica”, como consequência da vida nova em Cristo. E uma prova de retidão será a existência de uma verdadeira luta ascética para alcançar a santidade (cf. Aurelio Fernández, Compendio de Teología Moral, ed. Palabra, Madri 1995, p. 178).

  • Quando a consciência reta julga de modo certeiro, de acordo com «a verdade do bem» (Ibidem, n. 61), chama-se consciência verdadeira.

Mas a consciência «não está isenta da possibilidade de erro» (cf  Veritatis splendor, n. 62). Como dizíamos, não é infalível, da mesma forma que o juízo prudencial sobre o melhor modo de encarar qualquer assunto humano, pode errar.

Temos então a consciência errônea (contrária à verdade).

Há dois tipos de erro de consciência:

a) O erro inculpado. «Não raro acontece que a consciência erra, por ignorância invencível, sem por isso perder a própria dignidade» (Gaudium et spes, n. 16, e Veritatis splendor, n. 62). A ignorância invencível é aquela «de que o sujeito não é consciente e de onde não pode sair sozinho» (V. Spl., n. 62). Portanto, quem comete uma falta com essa ignorância, não peca.

Isso, porém , não quer dizer que o ato cometido seja bom. Ele é objetivamente mau, é um mal, mesmo que por ele sujeito não incorra em culpa. A Veritatis splendor comenta a esse respeito: « O mal cometido por causa de uma ignorância invencível ou de um erro de juízo não culpável, pode não ser imputado à pessoa que o realiza; mas, também neste caso, aquele não deixa de ser um mal, uma desordem face à verdade do bem. Além disso, o bem não reconhecido não contribui para o crescimento moral da pessoa que o cumpre: não a aperfeiçoa nem serve para encaminhá-la ao supremo bem. Assim, antes de nos sentirmos facilmente justificados em nome da nossa consciência, deveríamos meditar nas palavras do Salmo: «Quem poderá discernir todos os erros? Purificai-me das faltas escondidas» (Sal 19, 13)» (n. 63).

b) O erro culpado, ou ignorância vencível. A consciência – dizíamos − pode errar por ignorância invencível, e então está isenta de culpa.. «Outro tanto não se pode dizer quando o homem se descuida de procurar a verdade e o bem, e quando a consciência se vai progressivamente cegando, com o hábito do pecado» (Gaudium et spes, 16). Com estas breves palavras, o Concílio Vaticano II oferece uma síntese da doutrina que a Igreja, ao longo dos séculos, elaborou sobre a consciência errônea» (Veritatis splendor, n. 62).

Somos responsáveis pela ignorância culpável. «Existem faltas que não conseguimos ver e que, não obstante, permanecem culpáveis, porque nos recusamos a caminhar para a luz (cf. Jo 9, 39-41). A consciência, como juízo último concreto, compromete a sua dignidade quando é culpavelmente errônea, ou seja, “quando o homem não se preocupa de buscar a verdade e o bem, e quando a consciência se torna quase cega em consequência do hábito do pecado” (Veritatis splendor, n. 63, com citação de Gaudium et spes, n. 16).

(continua)