QUARESMA: DUAS HISTÓRIAS DE CONTRIÇÃO

O cavaleiro do barrilzinho

  • O coração humano, enquanto não derrama uma lágrima de verdadeiro arrependimento, não possui o segredo da porta que dá acesso ao Amor de Deus.

É uma verdade que a consciência cristã de todos os tempos intuiu, mesmo que muitos não quisessem encará-la. Uma boa ilustração disto é a lenda relatada pelo rei Afonso, o Sábio, nas suas Cantigas, e que percorreu – com diversas variantes − a cristandade medieval.

Fala de um cavaleiro que, não suportando mais o peso das suas blasfêmias e crimes, foi procurar um padre eremita para se confessar. Recebeu, como penitência, a ordem de encher de água um pequeno barril. Durante semanas e meses, tentou cumprir esse gesto, aparentemente tão simples, sem nada conseguir: mergulhava o recipiente em todos os rios e córregos, achegava-o a todas as fontes, mas o baldezinho ficava vazio. Até que um dia se sentou, voltou a pensar na sua má vida e na bondade de Deus, na sua miséria e no amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, que deu a vida por nós na Cruz. Caiu-lhe então no balde uma lágrima de verdadeira contrição – de dor de amor – , e o recipiente ficou imediatamente cheio até transbordar. Tinha cumprido a sua penitência.

A insônia de São Luis, rei da França

  • O chefe dos exércitos do rei São Luís da França, Joinville, senescal da Champagne, conta, na sua crônica sobre o santo rei que, certa vez, São Luis comentou-lhe que preferia cem vezes ficar leproso a cometer um só pecado mortal. Joinville, muito franco e descomedido, retrucou dizendo que preferia cometer cem pecados mortais antes que ficar leproso. São Luis ficou tão aflito que naquela noite não dormiu nada e, no dia seguinte, chamou Joinville e, muito mansamente, fez-lhe ver que a lepra acaba quando morre o corpo, mas que o pecado mortal pode acompanhar a alma ao inferno por toda a eternidade.