Amor no Céu e missão na terra

Um olhar para o futuro

No final do seu Evangelho, São João transcreve o diálogo tocante que Cristo manteve com Pedro:

– Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?

– Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo!

Repetindo três vezes a sua declaração de amor, Pedro reparou as suas três negações. Depois disso, Jesus confirmou-o na sua missão de pastor supremo da Igreja e continuou caminhando e conversando com ele pela margem do lago de Genesaré.

Num dado momento, inesperadamente, o Senhor parou e fitou Pedro nos olhos. Antecipando a perspectiva do seu futuro, disse-lhe: Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais jovem, cingias-te e ias para onde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres”. Por estas palavras, indicava o gênero de morte com que ele havia de glorificar a Deus. E depois de assim ter falado, acrescentou: “Segue-me!” (Jo 21, 15-19).

Assim foi. Durante a perseguição do imperador Nero, Pedro foi preso em Roma pelo ”crime” de ser cristão, e, amarrado como um bandido, levaram-no ao patíbulo, onde o crucificaram. O Apóstolo, cheio da fé e da fortaleza que o Espírito Santo lhe infundia, padeceu e morreu serenamente, e – segundo a tradição – teve o detalhe delicado de pedir que o crucificassem de cabeça para baixo, pois se considerava indigno de morrer como o seu Senhor Jesus.

Uma primeira mensagem

Prestando atenção a essa profecia de Jesus, reparamos que nela há duas mensagens. Uma encerra-se no modo em que Jesus alude à morte. A outra, no É modo como alude ao sofrimento, à Cruz. Detenhamo-nos um pouco em ambas. Desde já, é importante perceber que Jesus fala da morte e da dor com tanta naturalidade que é evidente que não pensa que nenhuma das duas seja uma coisa terrível, ruim. Isso faz pensar.

Mensagem sobre a morte. A própria naturalidade – naturalidade séria e grave, mas serena – com que Jesus fala da morte revela que, para Nosso Senhor, a morte não é nem uma tragédia nem o fim de tudo. Ele mesmo dissera que morrer é chegar passar para a casa do Pai (Cf. Jo 14,2). Quer dizer que a vida nesta terra é apenas um caminho – bem curto, por sinal – ; deve ser uma passagem que encaminha para a meta definitiva, que é o Céu, a união plena e feliz com Deus e o convívio com os amigos de Deus por toda a eternidade. Este é o verdadeiro fim e destino do homem.

Isso é algo que Pedro, sob a luz da fé e a graça do Espírito Santo, compreendeu muito bem, como se reflete nesse trecho da sua primeira carta aos fiéis cristãos: Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Na sua grande misericórdia, ele fez-nos renascer, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma viva esperança, para uma herança incorruptível, incontaminável e imarcessível, reservada para vós nos céus. (1 Pedr 1,3-4).

E, na segunda carta, falando da vocação cristã, diz com serena clareza: Portanto, irmãos, cuidai cada vez mais de assegurar a vossa vocação […]. Assim vos será aberta largamente a entrada no Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2 Pedr 1,10-11).

O triunfo, a realização autêntica da vida é a salvação eterna, é ser santo, é ir para o Céu. Que adianta – dizia Jesus – alguém ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma (Mat 16,26).

Sem olhar para a vida eterna, todas as grandezas e conquistas deste mundo são pó e vento que passa. Mais ainda, uma vida carregada de “realizações”, mas virada de costas para Deus, é como um navio ricamente equipado, que navega com cargas valiosíssimas, mas não tem destino, não chegará a porto algum; seu destino consistirá em girar no redemoinho e afundar no abismo.

Uma segunda mensagem

A segunda mensagem é a serenidade com que Jesus fala da dor – do martírio de Pedro – como de um bem, considerando-o como um modo de amar e de glorificar a Deus (Cf. Jo 21, 19).

O próprio Pedro chegará a ver o sofrimento, sob a luz poderosa da fé e do amor, como um verdadeiro tesouro. Àqueles cristãos do século primeiro, perseguidos de morte pelo Imperador (muitos foram queimados vivos como tochas, quando Nero incendiou Roma), escrevia-lhes dizendo que seus padecimentos eram a prova a que é submetida a vossa fé, mais preciosa do que o ouro perecível (1 Ped 1,7). E exortava-os deste modo: Alegrai-vos de ser participantes dos sofrimentos de Cristo, para que vos possais alegrar e exultar no dia em que for manifestada a sua glória (1 Ped 4,13). Referindo-se ainda a Jesus, acrescentava com palavras tocantes: Este Jesus vós o amais, sem o terdes visto; credes nele sem o verdes ainda, e isto é para vós a fonte de uma alegria inefável e gloriosa (1 Ped 1,8).

Ao meditar nessa fé dos que conheceram Cristo e os Apóstolos, causam-nos imensa pena aqueles que são incapazes de entender a grandeza do fim sobrenatural da nossa vida – Deus, o amor que dá sentido a tudo, o Céu – e vivem exclusivamente atrás do prazer, da ambição e da vaidade: balões ocos, furados, que a morte vai queimar. Só a alma iluminada pela luz do Espírito Santo pode compreender o paradoxo, incompreensível para um materialista, de que amar a Cruz – a Cruz-amor de Cristo e do cristão – é o segredo para se ser feliz, não só no Céu, mas já antes na terra. Mas este é um tema bem profundo, que agora ultrapassa a nossa reflexão 1. Falta-nos ainda acompanhar a parte final do diálogo entre Cristo e Pedro que estamos meditando.

Uma passagem alegre e fecunda

Depois das palavras sobre o futuro de Pedro, houve mais um diálogo interessantíssimo. O apóstolo Pedro, voltando-se para trás, viu que o seguia aquele discípulo que Jesus amava – João, o narrador destas cenas – . Vendo-o, Pedro perguntou a Jesus: “Senhor, e este? Que será dele?” Jesus não lhe quis satisfazer a curiosidade, e respondeu-lhe de um modo aparentemente seco: “Que te importa…? Tu, segue-me!” (Jo 21,20-22).

Digo que é aparentemente seco, porque, entre Pedro e Jesus, havia uma confiança grande e afetuosa, difícil para nós de calibrar. Podemos, contudo, imaginar Nosso Senhor com um sorriso meio brincalhão, dizendo a Pedro algo assim: “Estamos falando agora é da tua vida, da tua missão e da tua entrada no Céu, não da vida dos outros. Cada filho de Deus tem a sua tarefa, a sua vocação própria. Deixa João tranqüilo. É claro que também tenho uma missão reservada para ele, e não é nada pequena (de fato João viveu até cerca dos cem anos, cuidou de Nossa Senhora, difundiu a fé entre milhares de pessoas, escreveu o quarto Evangelho e três Epístolas que fazem parte da Bíblia… Nada menos!). Mas o que interessa é que tu, Pedro, cumpras a tua missão pessoal. Por isso, te digo: Tu segue-me!

Com certeza, estas palavras – Tu, segue-me! – provocaram um sobressalto no coração de Pedro, pois fora com esses mesmos termos que Jesus o chamara, três anos antes, à beira do mesmo lago onde agora estavam, para se tornar o seu apóstolo. O coração de Pedro deve ter acelerado. As lembranças do dia da vocação devem ter-lhe voltado à memória, rodando com a nitidez de um filme colorido.

Na realidade, havia uma correspondência significativa – querida por Cristo – entre aquele dia, já remoto, do primeiro chamado e esse dia do encontro com o Ressuscitado. No dia da sua vocação, Jesus, antes de comunicar-lhe a chamada, fez o prodígio da primeira pesca milagrosa, que São Lucas descreve no capítulo quinto, e à qual já nos referimos. Naquele dia, após o milagre, Pedro jogou-se aos pés do Senhor, e este disse-lhe: “Não temas; de agora em diante serás pescador de homens” (Lc 5, 10). Era uma definição simbólica da vocação do apóstolo, e é também uma definição da vocação apostólica do cristão: Vinde após mim, e eu farei de vós pescadores de homens (Mat 4,19).

A Igreja nos ensina que todos os batizados temos uma vocação divina e uma missão a realizar no mundo. Deus chama-nos a todos para sermos pescadores de homens. Não podemos ficar pensando apenas na nossa santificação, na nossa salvação. Não é cristão ficar fechado nas preocupações e sonhos pessoais. Estamos chamados por Deus a envolver afetuosamente os outros – respeitando-lhes sempre a liberdade – nas “redes” da nossa caridade, do nosso amor fraterno, desse amor que deseja para todos o maior bem, isto é, trazê-los para junto de Cristo, tal como os Apóstolos puseram aos pés de Jesus os cento e cinqüenta e três peixes grandes. Peixes que o próprio Jesus fez questão de que simbolizassem as almas: farei de vós pescadores de homens!

Perguntemo-nos, à vista disso, quantos parentes, amigos, colegas, conhecidos já levamos nós aos pés de Cristo, à alegria de se encontrarem com o olhar de Cristo, com a palavra de Cristo, com o Coração de Cristo; à felicidade de descobrirem junto de Jesus o amor que não acaba e que dá o sentido à vida?

O mar da Galiléia, para nós, é o mundo, e o “Pedro” atual, o Papa, no caso João Paulo II, posto ao leme da barca da Igreja, nos deu como lema – para o novo milênio – as mesmas palavras com que Jesus mandou Pedro pescar, naquele encontro do dia da vocação: -Duc in altum! – Mar adentro! Deus quer que recristianizemos o mundo!

Por incrível que pareça, Deus, que é tudo e fez tudo , quer contar conosco para estender pelo mundo os frutos da Redenção que Cristo conquistou para nós na Cruz, ao preço do seu Sangue. Ele quer que o Reino de Deus também “dependa de nós”: do nosso exemplo, do nosso empenho em difundir a doutrina cristã, do nosso apostolado pessoal, feito com a palavra compreensiva, com a confidência amiga, com o conselho leal.

“Mar adentro! Sigamos em frente, com esperança! – escreveu João Paulo II na Carta sobre o novo milênio – Diante da Igreja – dizia – abre-se um novo milênio como um vasto oceano onde aventurar-se com a ajuda de Cristo […]. O mandato missionário introduz-nos no terceiro milênio, convidando-nos a ter o mesmo entusiasmo dos cristãos da primeira hora; podemos contar com a força do mesmo Espírito que foi derramado no Pentecostes e nos impele hoje a partir de novo sustentados pela esperança que não nos deixa confundidos (Rom 5,5)”.

Cheio de um santo otimismo, o mesmo Papa, na sua Carta sobre o Rosário, escrevia que o Cristianismo, “passados dois mil anos, nada perdeu do seu frescor original, e sente-se impulsionado pelo Espírito de Deus a “fazer-se ao largo” – mar adentro! – para reafirmar, melhor, para “gritar” Cristo ao mundo como Senhor e Salvador, como “caminho, verdade e vida” , como “o fim da história humana, o ponto para onde tendem os desejos da história e da civilização”.

Concluamos esta reflexão. A vida tem como meta, certamente, o Céu. Mas, antes de chegarmos ao Céu, é preciso que arregacemos as mangas e realizemos muitas coisas na terra. Sobretudo, é preciso que ajudemos muitos a encontrarem e amarem a Deus, porque Cristo nos deu essa missão no mundo e confia em nós.

(Adaptação de um capítulo do livro de F.Faus: Cristo, minha esperança)

1 Cf. F.Faus: A sabedoria da Cruz, Ed. Quadrante, São Paulo 2001