As pérolas da fé

Procurar as pérolas escondidas

Para sermos descobridores de “novos Mediterrâneos”, temos que pedir a Deus o espírito daquele mercador que procurava boas pérolas, e que não parou até achar uma pérola tão valiosa que, para comprá-la, não hesitou em vender tudo o que tinha (Mt 13, 45-45). Tomara que Deus nos ajude a encontrar muitas dessas pérolas dentro do mar da fé, da doutrina, da liturgia, das devoções, da vida cristã.

Às vezes me passa pela cabeça que estamos vivendo uns tempos em que as pérolas de que temos mais urgente necessidade são aquelas a que os filósofos chamavam, desde tempos antigos, os «transcendentais do ser».

Sabe quais são? Unum, Verum, Bonum, Pulchrum, quer dizer, a Unidade, a Verdade, a Bondade e a Beleza.

Esses transcendentais formam em Deus uma unidade simples, que funde as quatro pérolas no próprio ser de Deus. Nós temos que começar dando-nos conta de que os quatro transcendentais correspondem às necessidades mais profundas do nosso ser, aànostalgias íntimas que a maioria ignora, mas cuja ausência é a causa profunda do nosso sofrer.

─ Que sede de “unidade” temos nós neste mundo dilacerado, esmigalhado, como um caleidoscópio onde não parece haver nada fixo. Muitos, como diria Mário de Andrade, são trezentos e não uma só pessoa; ou seja, não são uma personalidade única, coerente, harmônica, mas pretendem soldar o insoldável: a verdade com a mentira ou com trezentas mentiras; o egoísmo doentio com compensações fugazes de amor inconsistente; a solidariedade e bem-estar da humanidade com as injustiças pessoais e a indiferença em relação aos mais próximos na família e no trabalho; o amor à Natureza com a abolição da natureza humana…

─ Que nostalgia profunda da Verdade! De uma verdade que não mude de cor nem de direção a cada cinco minutos, conforme o arbítrio de cada um. De uma Verdade com maiúscula que, como a estrela dos Magos, às vezes pode se ocultar e tornar difícil, mas que nunca vira no seu contrário, nem se desmente, nem reduz o seu conteúdo, antes permanece fiel a si mesma e brilha como um astro inapagável, capaz de orientar a vida com a segurança de Deus.

Na Missa do início do Conclave que o elegeria Papa, o Card. Ratzinger fazia eco à exortação de São Paulo aos cristãos de Éfeso, quando lhes pedia que não andassem  batidos pelas ondas e levados ao sabor de qualquer vento de doutrina… (Ef 4, 14). «Uma descrição muito atual! ─ dizia Ratzinger ─. Quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decênios, quantas correntes ideológicas, quantos modos de pensamento… A pequena barca do pensamento de muitos cristãos foi não raro agitada por estas ondas – lançada de um extremo ao outro…

»O relativismo, isto é, o deixar-se levar ao sabor de qualquer vento de doutrina, aparece como a única atitude à altura dos tempos atuais. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que usa como critério último apenas o próprio “eu” e os seus apetites… Nós, pelo contrário, temos um outro critério: o Filho de Deus…, que nos dá o critério para discernir entre o que é verdadeiro e o que é falso, entre engano e verdade»[1].

─ Que nostalgia também, meu Deus, da Bondade, que assinala sem erro a diferença entre o bem e o mal. «Nenhum homem ─ escrevia são João Paulo II ─ pode esquivar-se às perguntas fundamentais: Que devo fazer? Como discernir o bem do mal? A resposta somente é possível graças ao esplendor da verdade que brilha no íntimo do espírito humano, como atesta o salmista: Muitos dizem: “Quem nos fará ver o bem?” Fazei brilhar sobre nós, Senhor, a luz da vossa face (Sl 4, 7).

»A luz da face de Deus resplandece em toda a sua beleza no rosto de Jesus Cristo, imagem do Deus invisível (Col 1, 15), resplendor da sua glória (Heb 1, 3), cheio de graça e de verdade (Jo 1, 14): Ele é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14, 6). Por isso, a resposta decisiva a cada interrogação do homem, e particularmente às suas questões religiosas e morais, é dada por Jesus Cristo, mais ainda, é o próprio Jesus Cristo»[2].

─ Por fim, temos uma imensa sede da autêntica Beleza, sinal de Deus, suprema Beleza. O Papa Bento XVI insistiu muitas vezes em que a via pulchritudinis, ou seja a via da beleza, é um dos mais excelentes caminhos que temos para chegar a Deus. A nossa alma tem sede do Deus vivo, anseios de contemplar o rosto de Deus (cf. Sl 41[42], 3), de ver Cristo, o mais belo dentre os filhos dos homens (Sl 44[45], 3).

Um dos sinais mais evidentes da negação do «rosto de Deus» numa cultura é a exaltação cada vez maior do feio, do sujo, do repulsivo, do caricato, do disparatado: na música, na pintura, na literatura, no teatro, no cinema… Deus não está lá onde impera a estética do banheiro público. Quando Deus, a Beleza por essência da qual participam todas coisas belas, é expulso da escola, das leis, da mídia e de seus múltiplos braços ─ como os da deusa hindu Durga ─ , perde-se um dos caminhos mais límpidos que existem para encontrar Jesus.

A exclusão dos transcendentais talvez seja o sinal mais evidente da exclusão de Deus. Mas, precisamente por isso, constitui a maior carência, a maior fome de que o mundo padece, ainda que a imensa maioria não a sinta de modo explícito. Muitos corações cansados, traídos, decepcionados, estão gritando com grandes vozes silenciosas o que pedia um grupo de pagãos no dia da entrada de Cristo em Jerusalém: Queremos ver Jesus! (Jo 12, 21).

Do livro de F. Faus Procurar, encontrar e amar a Cristo, Cultor de Livros 2018

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[1] Homilia da Missa Pro eligendo Summo Pontifice, 18/04/2005

[2] Encíclica Veritatis splendor, n. 2