Cristo: amor de amizade

Eu vos chamei amigos 

Na Santa Ceia, Jesus, depois de dizer aos apóstolos como a Pai me ama, assim também eu vos amo, esclarece o tipo de amor que deseja. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor, mas chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai (Jo 15, 9.15).

Jesus “abriu-se” totalmente a nós (até mesmo seu coração chagado ficou fisicamente aberto na Cruz), e deseja achar em nós corações totalmente abertos a Ele, ou seja, achar em nós amigos, com todas as qualidades da amizade: amor, confiança, sinceridade, sacrifício, lealdade…

Você se lembra dos fatos que precederam a ressurreição de Lázaro? Lázaro, Marta e Maria eram três irmãos da cidadezinha de Betânia, próxima de Jerusalém, em cuja casa Jesus se hospedava habitualmente quando subia à cidade santa. Naquela casa, junto desses três amigos, Ele achava um lar.

São Lucas expressa a bem a familiaridade que reinava naquela família. Focaliza Jesus que fala, Maria que o escuta sentada a seus pés e Marta, nervosa com a lida da casa, reclamando com Jesus: Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço (Lc 10, 38-42). Que confiança!

Passado um tempo, Lázaro ─ provavelmente o caçula ─ adoeceu gravemente. Imediatamente, as irmãs enviaram um mensageiro a Jesus, que se achava longe dali, com o seguinte recado: Senhor, aquele que tu amas está doente (Jo 11, 3).

Acho esse brevíssimo recado comovente. Não explicam nada, não pedem nada, basta-lhes dizer a Jesus que aquele tu que amas está doente. Estava tudo dito. Que certeza tinham da amizade de Cristo!

Poucos dias depois, Jesus realizou seu maior milagre: a ressurreição de Lázaro (Jo 11, 17-44).

Na Missa do início do seu pontificado, em 24 de abril de 2005, Bento XVI dizia: «Só quando encontramos em Cristo o Deus vivo, conhecemos o que é a vida… Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário. Não há nada mais belo do que ser alcançados, surpreendidos por Cristo. Não há nada de mais belo do que conhecê-Lo e comunicar com os outros a Sua amizade»…

»Quem faz entrar Cristo em si nada perde, nada absolutamente nada daquilo que torna a vida livre, bela e grande. Não! Só nesta amizade se abrem de par em par as portas da vida. Só nesta amizade se abrem realmente as grandes potencialidades da condição humana. Só nesta amizade experimentamos o que é belo e o que liberta».

Está compreendendo por que dizemos que ser cristão é acima de tudo ser amigo de Cristo? Da parte dele, a amizade está garantida. Isso permitia a santa Teresa de Ávila definir, com toda a simplicidade, que «a oração mental não é, em meu entender, senão uma relação íntima de amizade, em que muitas vezes nos entretemos a sós com aquele que sabemos que nos ama»[1].

Essa certeza de ser amada, essa confiança, levava santa Teresa a familiaridades que, para nós, seriam chocantes. Assim aconteceu, por exemplo, que, quando num certo dia se queixava a Jesus de ter que padecer tantas dificuldades, Ele lhe teria respondido: «Teresa, é assim que eu trato meus amigos». E ela, com a franqueza da amizade: «Por isso tens tão poucos!».

Quando nos esforçamos por viver vida de fé e de oração, quando procuramos Jesus e o encontramos, como lembrávamos acima, o dia inteiro pode se transformar num diálogo de amigos entre Ele e nós.

Lembro que me contaram, há tempo, o caso de um menino de nove ou dez anos, que passando férias na praia, depois da Missa e do café da manhã, foi nadar, e falou assim com Jesus, que acabava de receber na comunhão: «Olha, Jesus, agora nós dois vamos mergulhar no mar, você irá comigo, e será como se fosse num submarino».

Quantas mulheres e homens comuns, cristãos com defeitos como nós, mas cheios de fé e amor, não falam muitas vezes ao dia com «o Grande Amigo que nunca atraiçoa»[2]: «Jesus ─ dizem-lhe ─, agora nós dois vamos sair à rua e pegaremos juntos o ônibus», «Jesus, vamos começar a trabalhar; me ajuda a fazer um trabalho bem feito, que te agrade», «Jesus, ajuda essa pobre menina, que está sofrendo com a doença da mãe», «Jesus, dá-me paciência para não me irritar com o chefe», «Jesus, faz com que esqueça o mau humor ao chegar em casa e dá-me um belo sorriso para a minha mulher – para o meu marido».

Quando você estiver confuso, quando duvidar da Providência de Deus, quando se sentir incapaz de vencer as tentações, quando reclamar de que ser cristão é só questão de imposições e obrigações, lembre-se destas palavras: «Jesus é teu amigo. – O Amigo. – Com coração de carne como o teu. – Com olhos de olhar amabilíssimo, que choraram por Lázaro… − E, tanto como Lázaro, te ama a ti»[3].

E diga-lhe então: «Como te fazes compreender, Senhor! Como te fazes amar! Tu te mostras como nós, em tudo menos no pecado, para que saibamos palpavelmente que contigo podemos vencer as nossas más inclinações, as nossas culpas. Que importância tem o cansaço, a fome, a sede, as lágrimas?… Cristo cansou-se, passou fome, teve sede, chorou. O que importa é a luta – uma luta amável, porque o Senhor permanece sempre ao nosso lado – para cumprir a vontade do Pai que está nos Céus» (Cf. Jo 4, 34)[4].

Do livro Procurar, encontrar e amar a Cristo, Cultor de Livros 2018

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[1] Livro da Vida, cap. 8

[2] Caminho, n. 88

[3] Ibidem, n. 422

[4] São Josemaria, Amigos de Deus, n. 201