Mais sobre amor ao próximo

Levai uns as cargas dos outros, e deste modo cumprireis a lei de Cristo (Gal 6, 2).

Para “levar as cargas”, pensemos em primeiro lugar – evocando o exemplo do samaritano que carregou o ferido – que os outros deveriam ter mais espaço e mais “peso” nos nossos pensamentos. Na verdade, se o amor de Cristo habitasse no nosso coração, certamente nos preocuparíamos mais com os problemas do próximo. É sugestiva essa palavra “pre-ocupação” – no sentido em que agora a empregamos –, pois indica um modo de pensar antes com interesse, preparando assim uma dedicação, uma “ocupação” em serviço dos outros.

Como seria bom que o pai e a mãe de família, ao transporem o limiar da casa, deixassem fora as “preocupações” no sentido negativo da palavra, isto é, as apreensões, angústias, questões de solução difícil, prazos que vão vencer em breve…, e entrassem no lar com uma preocupação boa: com alguma iniciativa pensada, preparada antes com carinho para alegrar alguém, para causar uma agradável surpresa, para reavivar um diálogo um tanto descuidado, para enfrentar algum problema deixado de lado por comodismo, ou para dar um conselho que não pode esperar mais!

Em matéria de ajudas e serviços, não há dúvida de que a primeira preocupação que deveríamos ter para com os que amamos é a oração. Lembremo-nos de quanto não rezou e chorou Santa Mônica, “preocupada” durante longos anos com os extravios de seu filho Agostinho; de dia e de noite suplicava a Deus a sua conversão. O próprio Santo Agostinho conta no livro das Confissões que, certo dia, falando sua mãe, aflita, com o bispo Santo Ambrósio, este tranqüilizou-a dizendo-lhe umas palavras que encheram a sua alma de consolo: “Vai em paz, mulher, e fica tranqüila, pois é impossível que se perca um filho de tantas lágrimas” 15. Em outro dos seus escritos, Agostinho anotará um dia, cheio de gratidão: “Se eu não pereci no erro, foi devido às lágrimas cotidianas cheias de fé de minha mãe” 16.

Tratemos, portanto, de que os outros tenham mais “peso” no mundo dos nossos pensamentos. Depois, haveremos de conseguir que “pesem mais” também no mundo das nossas palavras.

Podemos dizer, por acaso, que as nossas palavras, concretamente as que dirigimos a toda a hora aos que conosco convivem ou trabalham, são palavras construtivas, veículos de amor serviçal, gotas de orvalho reconfortante na secura dos corações, ativadores das fibras de bondade que se escondem em todo o coração humano?

 

Do livro de F.F. Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens, Quadrante 1993