Olhar com Cristo

Levantai os vossos olhos

Nos começos da vida pública de Jesus, há uma passagem que não nos pode deixar indiferentes.

São Mateus narra que Jesus percorria todas as cidades e aldeias. Ensinava nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo mal e enfermidade.

A seguir, revela quais eram os sentimentos de Cristo naquela sua incansável dedicação a todos:

Vendo a multidão, ficou tomado de compaixão, porque estava enfraquecida e abatida como ovelhas sem pastor. Disse, então, a seus discípulos: «A messe é grande, mas os operários são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da messe que envie operários à sua seara (Mt 9, 36-38).

Doía a Jesus no coração contemplar tanto abandono, tanta dor, tanta carência: tantos sofrimentos físicos (doença, violência, miséria, pobreza) e morais (ignorância, descrença, infidelidade, engano, manipulação); e, por isso, ansiava por discípulos contagiados pelo fogo do seu amor, que percebessem que essa situação do mundo os interpela, os chama a dar e a dar-se ─ sobretudo a dar-se ─ incansavelmente, decididos a serem outros Cristos para os demais.

Jesus mostra esses mesmos sentimentos do coração, após a conversa com a mulher samaritana. Sentado junto do poço de Sicar, Ele fica sozinho. Os apóstolos tinham ido comprar mantimentos e, ao voltarem, encontram-no ensimesmado, absorvido em seus pensamentos.

Mestre, come, dizem-lhe. E Ele responde: Eu tenho um alimento que vós não conheceis… Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e completar a sua obra.

Logo a seguir, ergue a cabeça e percorre com o olhar as terras de lavoura que tem ao seu redor. Abre, então, o coração e convida os discípulos: Levantai os vossos olhos e vede os campos, que já estão branquejando para a ceifa (Jo 4, 31-35).

Há no mundo uma imensa colheita pronta e à espera, mas que se pode perder pelas nossas omissões.

Os campos são os homens e mulheres, jovens e velhos, sãos e doentes, cultos e incultos, que, no mundo, padecem necessidade de pão cotidiano e de Deus, pois são literalmente ovelhas sem pastor. Não tem luz, não têm orientação, são vítimas dos abusos do materialismo, da ganância que explora, da infâmia das drogas, da ignorância religiosa (a carência da verdade que lhes deveriam ter ensinado e não lhes ensinaram), das propagandas ideológicas que parecem cozinhadas no forno do pai da mentira (Jo 8, 44).

Que faremos nós para levar o amor, o auxílio, a verdade, a caridade de Cristo a esse  mundo que gira sem rumo e enche milhões de vidas de vazio e decepção.

Lembro que, em maio de 1974, são Josemaria, reunido em São Paulo com muitos estudantes, os incentivava ─ à imitação de Jesus ─ a levantarem os olhos: «As pessoas – dizia-lhes– estão tristes. Fazem muito barulho, cantam, dançam, gritam – mas soluçam. No fundo do coração, só têm lágrimas: não são felizes, são desgraçados” [1]. E os exortava a levar a todos a alegria de Cristo.

Muitos encontram-se, como dizia de si mesmo Gustavo Corção antes da sua conversão, «numa encruzilhada, como quem tivesse feito uma caminhada fatigante por estradas de pedra e lama, e visse cair a tarde chuvosa diante de uma divergência de caminhos que não iam ter a nenhum lugar»[2]

Muitos anos atrás, são Josemaria tinha dado um diagnóstico, que continua sendo válido agora, e o será enquanto o mundo for mundo: «Um segredo. – Um segredo em voz alta: estas crises mundiais são crises de santos. – Deus quer um punhado de homens “seus” em cada atividade humana. – Depois… pax Christi in regno Christi – a paz de Cristo no reino de Cristo»[3].

Depois do que estivemos meditando nestas páginas, você não se anima a acolher essa interpelação divina, o apelo que Jesus nos faz a todos: Eu vos escolhi e vos destinei para que deis fruto, e um fruto que permaneça (Jo 15, 16)?

Se você quiser encontrar a resposta definitiva que faça sorrir Jesus, seu Amigo, penso que uma boa solução será aplicar a si mesmo o pensamento com que o livro Caminho começa, e que já ajudou muitas mulheres e homens a dar uma virada decisiva às suas vidas[4]. Um pensamento com que nós vamos terminar estas reflexões:

« Que a tua vida não seja uma vida estéril. – Sê útil. – Deixa rasto. – Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor. – Apaga, com a tua vida de apóstolo, o rasto viscoso e sujo que deixaram os semeadores impuros do ódio. – E incendeia todos os caminhos da terra com o fogo de Cristo que levas no coração»[5].

Do livro de F. Faus Procurar, encontrar e amar a Cristo, Cultor de Livros 2018

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[1] Salvador Bernal, Perfil do Fundador do Opus Dei, Quadrante, São Paulo, 1978, p. 264

[2] A descoberta do Outro, Ed. Agir, Rio de Janeiro 1955, p. 34

[3] Caminho, n. 301

[4] Vale a pena ler o livro – por ora, eletrônico – que pode encontrar no site opusdei.org/es : Javier Medina-Michele Dolz, Compañeros de Camino, Fundação Studium 2017. Está sendo preparada a edição brasileira

[5] Caminho, n. 1