A VERDADE NO FUNDO DO CORAÇÃO

OS SALMOS, NOSSO ESPELHO

5 – A VERDADE NO FUNDO DO CORAÇÃO

 

Deus ama a verdade no fundo do coração (Salmo  51,8).

 

Deus ama a verdade, a verdade íntima do meu coração. Será que eu conheço essa “verdade”? Vejo mesmo o que há – de bom e de ruim – dentro de mim?

Quem é que desceu alguma vez até o fundo do coração? Ninguém. Nem você nem eu, pois ninguém se conhece bem a si mesmo. Somente  Deus: Ele sonda o abismo e o coração humano, e penetra os seus pensamentos mais sutis (Eccli 42,18).

As trevas não são escuras para Ti, e a noite é clara como o dia (Salmo 139,12).

Vamos pedir agora mesmo: – Senhor, Tu que és a Luz e me vês como sou, faz com que o meu olhar interior coincida cada vez mais com o teu! Só assim viverei na verdade, e a  verdade me libertará (cf. Jo 8,32). Me livrará das mentiras, dos porões escuros da consciência, das aparências, das armadilhas traiçoeiras do orgulho e da vaidade, das emoções egoístas maquiadas de bondade.

O Catecismo da Igreja é um tesouro de luzes para o cristão. Na quarta parte, dedicada à oração, trata da oração mental, vivida como um diálogo de tu a Tu com Deus, e diz: «Entrar em oração é recolher todo o nosso ser sob a moção do Espírito Santo, entrar na presença de Deus que nos espera, fazer cair as nossas máscaras e voltar o nosso coração para o Senhor que nos ama» (cf. n. 2711).

Só num diálogo silencioso, íntimo e franco, com o Deus que nos ama é que podemos dissipar as brumas que deixam o coração confuso. Só por meio de um diálogo sincero e constante com Ele poderemos conseguir que caiam as nossas máscaras, e teremos então a alma limpa para olhar o rosto de Cristo. Os puros de coração verão a Deus (Mt  5,8); e também se verão a sim mesmos na transparência da alma purificada.

Que máscaras deveríamos arrancar e atirar fora? Muitas. Que o Espírito Santo nos ajude a perceber como nos enganamos ao dizer frases como estas:

– “Não posso”, máscara do “Não quero”.

– “Não me interessa”, máscara do “Prefiro não enfrentar a verdade”

– “Tolice!”, máscara do “Não estou disposto a mudar”

– “Não acredito”, máscara do “Não quero arcar com as consequências do conhecimento sincero da verdade cristã”

– “Não dá mais para continuar com o meu casamento”, que, traduzido, quer dizer: “Quero o amor fácil e egoísta, não aquele que pede mais paciência, mais compreensão, mais atenção, mais renúncia, mais dedicação, mais ajuda mútua, mais oração”.

Pense que a Deus ninguém engana. A nós mesmos, sim, nos enganamos muitas vezes. São Paulo falava forte: Não vos iludais, de Deus não se zomba (Gl 6,7).

Eu poso me esconder de Deus, como Adão tentou fazê-lo atrás das moitas. Mas Ele me vê, Ele me chama, como a Adão, pelo nome (Gên 3,8-9).

Senhor, Tu me examinas e me conheces, penetras de longe os meus pensamentos, sabes todos os meus passos (Salma 139,1).

«O Senhor que pede que nos convertamos não é um Dominador tirânico, nem um Juiz rígido e implacável: é o nosso Pai. Fala-nos dos nossos pecados, dos nossos erros, da nossa falta de generosidade; mas é para nos livrar de tudo isso, para nos prometer a sua amizade e o seu amor»[1].

Busquemos sem medo a verdade no fundo do coração, lutemos por admiti-la; e confiemos no amor com que Ele nos ajuda a ser sinceros, ao mesmo tempo que nos estende a sua mão para vivermos seguindo seu caminho e luz.

Confia sempre nele, diante dele derrama o teu coração (Salmo 62,9),  porque o Senhor está perto de todos os que o invocam, dos que o invocam com coração sincero (Salmo 145,18).

 

[1] São Josemaria Escrivá, É Cristo que passa, n. 64