MAIS BRANCO QUE A NEVE

OS SALMOS, NOSSO ESPELHO

6 – MAIS BRANCO QUE A NEVE

 

Lava-me de toda a minha culpa, e purifica-me do meu pecado. Lava-me e ficarei mais branco que a neve (Salmo 51,4.9)

A nossa alma é como um quadro que combina luzes e sombras. Num bom quadro, as sombras fazem parte da beleza da obra e a ressaltam. Há, porém, outras sombras que deterioram ou encobrem essa beleza.

É o que aconteceu com a Capela Sixtina. Com a passagem dos séculos, as cores dessa esplêndida criação de Michelangelo foram ficando obscurecidas. A fuligem das velas, a poeira, a umidade, a oxidação, embaçaram e escureceram de tal maneira a pintura que a desfiguraram. Quando nos tempos de São João Paulo II se concluiu a restauração, a obra desse gênio do Renascimento deslumbrou com o esplendor original das suas cores.

A alma também tem suas luzes e sombras: tem a beleza de Deus que a criou à sua imagem e semelhança, a da graça que ele nos dá, e a sujeira que os nossos pecados depositam: «porque pequei muitas vezes por pensamentos, palavras, atos e omissões», dizemos na liturgia da Missa.

É uma fuligem que tem várias tonalidades. O comum denominador de todas as sombras se chama egoísmo. As tonalidades são: soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça, ou seja, os sete pecados capitais.

Nós não conseguimos lavar-nos, sozinhos, dos nossos pecados. Deus misericordioso, sim, pode nos purificar com seu Amor. Para isso veio seu Filho até nós. Jesus morreu na cruz para “restaurar” a semelhança de Deus em nós. Impressionam as palavras que São João coloca bem no começo do Apocalipse: Jesus é aquele que nos ama e que, com o seu sangue, nos lavou dos nossos pecados (Apoc 1,5). São Paulo expõe a mesma fé: Fostes resgatados, e por um peço muito alto! (1 Cor 6,20). E São Pedro: Fostes resgatados…não a preço de coisas corruptíveis, prata e ouro, mas pelo sangue precioso de Cristo (1 Pdr 1,18-19).

Os salmos expressam de diversas maneiras o anseio de purificação do homem pecador, que somos todos nós:

Ó Deus, tem piedade de mim, conforme a tua misericórdia: no teu grande amor cancela o meu pecado. Lava-me de toda a minha culpa e purifica-me de meu pecado… Fiz o que é mal aos teus olhos…Não me rejeites da tua presença e não me prives do teu Santo Espírito (do Salmo 51).

Deus, por meio do sacrifício da Cruz, abriu as comportas do perdão e da graça do Espírito Santo para todos. Primeiro, pelo o sacramento do Batismo; depois de batizados, pelo sacramento da Reconciliação, a Confissão. É como uma fonte copiosa e limpa, oferecida a todos, desde que lhe abramos a porta com o coração arrependido.

Santo Ambrósio, o bispo que acolheu Santo Agostinho na Igreja Católica, dizia: «Feliz aquele a cuja porta Cristo bate… Se teu coração dorme, Ele se afasta antes de bater; se teu coração está vigilante, Ele bate e pede que lhe abramos a porta»[1].

Quais são as boas disposições de um coração que abre a porta? Medite nas seguintes palavras do salmo 51 – o salmo penitencial por excelência –, que transcrevo a seguir:

Tem piedade de mim… Reconheço a minha iniquidade, e o meu o pecado está sempre diante de mim… Cria em mim, Deus, um coração puro, renova em mim um espírito resoluto… Devolve-me a alegria de ser salvo, que me sustente um ânimo generoso… Não desprezas, ó Deus, um coração contrito e humilhado… Senhor, abre os meus lábios, e minha boca proclame o teu louvor (do Salmo 51).

Percebe? O rei David, arrependido depois do seu crime, enumera nesse salmo as disposições com que nós, também hoje, devemos nos aproximar da confissão:

  • Termos a sinceridade de reconhecer e acusar cada um dos nossos pecados, sem medo nem disfarces. Não nos aconteça o que dizem outros salmos-espelho: Não entendem, não querem entender, caminham no escuro (Salmo 82,5). Por quê? Porque minhas culpas me tiranizam e não posso mais ver (Salmo 14,13). Jesus alerta-nos sobre esse perigo: Todo aquele que faz o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para não serem postas a descoberto as suas obras (Jo 3,20).
  • Termos contrição sincera, dor de amor por ter ofendido a Deus. Tem piedade de mim… Contra ti pequei… Cria em mim, ó Deus, um coração puro… Não desprezas um coração contrito e humilhado.
  • Termos o propósito firme de retificar os erros confessados: Renova em mim um espírito resoluto…, que me sustente um ânimo generoso.
  • Termos um agradecimento alegre e uma confiança plena na misericórdia de Deus que perdoa. Senhor, abre os meus lábios, e minha boca proclame o teu louvor.

Meditando nisso, como não vamos amar a fonte de perdão e de paz que Cristo fez brotar na sua Igreja com o sacramento da Reconciliação? Como não vamos recorrer com mais frequência a esse manancial de renovação e de alegria?

Demos graças a Deus com os sentimentos que expressa o Salmo 103: Minha alma, bendize o Senhor e não esqueças nenhum dos seus benefícios. É ele quem perdoa todas as tuas culpas, que cura todas as tuas doenças… Ele te coroa com sua bondade e sua misericórdia; é ele que pela vida afora te cumula de bens; e a tua juventude se renova como a da águia.

 

[1] Explicação do salmo 118.