SE O SENHOR NÃO EDIFICA A CASA…

OS SALMOS, NOSSO ESPELHO

7 – SE O SENHOR NÃO EDIFICA A CASA

 

Se o Senhor não edificar a casa, é inútil que trabalhem os que a constroem. Se o Senhor não guarda a cidade, em vão vigia a sentinela (Salmo 127,1).

Porque tu és, ó Deus, a minha fortaleza (Salmo 43,2). 

Esses dois versículos são um facho de luz. Eles nos transmitem uma verdade fundamental, que todos os santos compreenderam e experimentaram.  Sem a graça de Deus, não podemos conseguir nenhum bem sobrenatural, nada que tenha valor cristão.

São Paulo, depois da conversão, olhava para trás e considerava que, antes de que Cristo o conquistasse, ele era como um aborto, pois nem “vivia”, não tinha renascido ainda  pelo batismo (cf. 1 Cor 15,8).

Uma vez convertido, pelo contrário exclamava: Para mim o viver é Cristo! Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim! (cf. Fl 1,21 e Gl 2,).

Firme nessa convicção, dava graças Deus com umas belas palavras que talvez alguns não entendam bem (1 Cor 15,8-10).  Falava aos fiéis de Corinto das aparições de Jesus ressuscitado, e dizia: Por último, apareceu também a mim, que sou como um aborto. Pois eu sou o menor dos apóstolos, que nem mereço o nome de apóstolo, pois persegui a Igreja de Deus. É pela graça de Deus que sou o que sou.

É um grande ato de humildade. Mas logo depois dessa confissão humilde, acrescenta: E a graça que Deus reservou para mim não foi estéril; a prova disso é que tenho trabalhado mais do que todos eles.

Como se entende isso? Não é vanglória? Diz que é o menor dos apóstolos e, ao mesmo tempo, afirma ter trabalhado mais do que todos eles.

Não há contradição. Tão humilde é essa segunda afirmação como a primeira, por duas razões: primeiro, porque a humildade é a verdade, e Deus se serviu de Paulo para converter milhares de almas em muitos lugares; depois porque reconhece que foi Deus quem lhe concedeu essa eficácia assombrosa: Tenho trabalhado mais do que todos eles, não propriamente eu, mas a graça de Deus comigo.

Assim, ele nos ensina que, na vida cristã, deve haver sempre uma “simbiose” de suas virtudes:

Humildade. “Eu, só com minhas forças, sem a graça de Deus, nada conseguirei”

Confiança.”Com a graça, meu nada poderá tudo”.

Humildade e confiança. Humildade e coração grande, cheio de esperança.

Depois disso, pense um pouco e verá que o que esteriliza a nossa vida de filhos de Deus é a autossuficiência arrogante: “Com a minha cabeça, com os meus planos, com a minha força de vontade, com o meu esforço, eu vou conseguir …”. Esquecemos que Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes (1 Pdr 5,5).

São Paulo, antes de ser conquistado por Cristo (Fl 3,12) experimentou o sofrimento da alma privada da graça divina: Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero… Infeliz que eu sou! Quem me libertará deste corpo de morte? Graças sejam dadas a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor! (Rm 7, 19.24-25).

Depois de se ter revestido de Cristo, pelo batismo, e de ter recebido o Espírito Santo, a perspectiva mudou cento e oitenta graus: Posso tudo naquele que ma dá forças (Fl 4, 13).

Quando captamos pela fé essas verdades, Deus cria em nós as “asas” de duas certezas indiscutíveis:

1ª) Sem estarmos unidos a Deus, sem recorrer às fontes da graça ( os Sacramentos, a oração, a mortificação, as virtudes…), a nossa vida cristã é um baldio estéril. Sem mim, nada podeis fazer, disse Jesus depois de se ter comparando a si mesmo com o pé da videira, que envia aos ramos a seiva que lhes dá vida e fruto (Jo 15, 1-8).

2ª) Contando com a “seiva” divina, isto é, com a graça, você nunca pode cair no pessimismo. Jamais deve admitir pensamentos como estes: “não consigo”, “não posso”, “já tentei”, “caio nos mesmo pecados uma e outra vez”, “mesmo que me confesse vinte vezes não me corrijo”, etc.

Confie! Ponha todo o seu esforço e boa vontade nas mãos de Jesus, e não renuncie a alcançar as virtudes, mesmo que demore anos e anos. Com a esperança em Deus, nunca pare de correr em direção à meta da santidade. Tudo poderá  naquele que nos dá forças (Fl 3,13-14 e 4,13).

«Não desanimes, escreve o Papa Francisco, porque tens a força do Espírito Santo para tornar possível a santidade e, no fundo, esta é o fruto do Espírito Santo na tua vida (cf. Gal 5, 22-23). Quando sentires a tentação de te enredares na tua fragilidade, levanta os olhos para o Crucificado e diz-Lhe: “Senhor, sou um miserável! Mas vós podeis realizar o milagre de me tornar um pouco melhor”. Na Igreja, santa e formada por pecadores, encontrarás tudo o que precisas para crescer rumo à santidade» (Exortação apostólica Gaudete et exsultate, n. 13).

O Senhor ampara todos os que caem e reergue todos os combalidos. Os olhos de todos em ti esperam (Salmo 145,14-15).