CONTAR BEM OS NOSSOS DIAS

OS SALMOS, NOSSO ESPELHO

9 – CONTAR BEM OS NOSSOS DIAS

Ensina-nos a bem contar os nossos dias, para que alcancemos a sabedoria do coração (Salmo 90,12).

Deus fala-nos do valor do tempo para a realização da nossa vocação e da nossa missão no mundo. Você sabe que, para Deus, nenhum de nós é um simples número, para ele todos nós somos “filho único”. E Jesus nos diz: Fui eu que vos escolhi e vos destinei para irdes e dardes fruto (Jo 15,16).

Senhor, que queres de mim? Que fruto esperas? Que queres que eu faça? (At 22,10).

Cada dia da nossa vida é como a página de um livro em branco, o livro da vida. As páginas são contadas por Deus desde toda a eternidade. Nós sabemos qual foi a primeira, mas não qual será a última. Jesus nos alerta: Portanto vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora (Mt 25,13). Cada dia é precioso.

Nos dias da nossa vida:

─ Podemos deixar muitas páginas vazias ou meio vazias, perdidas

─ Podemos deixar páginas que nos envergonham, capítulos infelizes que almejaríamos não ter escrito nunca

─ Ou páginas que arrancam dos lábios de Cristo um sorriso e umas palavras: Muito bem, servidor bom e fiel, entra na alegria do teu Senhor (Mt 25,21).

Talvez você tenha lido ou ouvido contar a resposta que um padre muito ancião, que tinha fama de santo, dava quando lhe perguntavam: “Quantos anos o senhor tem”? “Pouquinhos –respondia –, os que aproveitei para servir Nosso Senhor”.

Se você e eu nos puséssemos a fazer agora a conta certa dos nossos dias, quantos deles diríamos que realmente “aproveitamos”?

Ó Deus, tu és o meu Deus, desde a aurora te procuro… No meu leito te recordo, penso em ti nas vigílias noturnas (Salmo 63,1.7). ─ Já de manhã ouves a minha voz, bem cedo te invoco (Salmo 5,4).

O bom filho de Deus adormece pensando em Deus e amanhece procurando a companhia dele para o dia que se inicia.

Você tem o costume de rezar à noite por algum tempo, pelo menos uns minutos? Você agradece o dia que acaba, pede perdão pelas faltas que o mancharam e se propõe viver o novo dia como Deus espera?

Você reza de manhã, ao acordar? Oferece a Deus tudo o que vai fazer? Você pede ao Senhor que, junto com Maria e o seu Santo Anjo, o acompanhe em cada minuto do dia que começa?

Como nos ajuda a “viver”, a não “perder” o dia, acordar na hora certa, sem nos deixarmos dominar pela preguiça. «Vence-te em cada dia desde o primeiro momento, levantando-te pontualmente a uma hora fixa, sem conceder um só minuto à preguiça. – Se, com a ajuda de Deus, te venceres, muito terás adiantado para o resto do dia. – Desmoraliza tanto sentir-se vencido na primeira escaramuça!»[1].

Tendo começado bem, o dia se encaminha bem. Experimente e verá que você tem mais facilidade para enfrentar com ânimo o dever de cada momento, com uma ordem e uns horários bem pensados (e, às vezes, anotados), e se convencerá da importância do que diz o livro Caminho: «Queres de verdade ser santo? – Cumpre o pequeno dever de cada momento; faz o que deves e está no que fazes» (n. 815).

Medite o que escreveu o Bem-aventurado bispo vietnamita, François Xavier Nguyen Van Thûan, quando estava na cela solitária, preso pelo governo comunista: «Nas longas noites de prisão, convenci-me de que viver o momento presente é o caminho mais simples e seguro para alcançar a santidade… Quero viver o momento presente enchendo-o de amor. Alinha reta é feita de milhões de pontinhos unidos uns aos outros. Também a minha vida está feita de milhões de segundos e minutos unidos entre si. Se eu “viver” cada segundo a linha será reta. Se eu viver com perfeição cada minuto, a vida será santa»[2] .

Você sabe o que é que torna santos os nossos dias, mesmo os menores atos deles? É o amor, o amor a Deus e aos nossos irmãos: «Fazei tudo por Amor. – Assim não há coisas pequenas: tudo é grande. – A perseverança nas pequenas coisas, por Amor, é heroísmo»[3].  Se você capricha nos pequenos deveres e pensa “não faria assim, se não fosse por Deus; não faria assim se não fosse para ajudar e alegrar aquela pessoa”, então, você fez por amor e está se santificando.

Como a erva são os dias do homem, ele floresce como a flor do campo; basta que sopre o vento desaparece, e o lugar que ocupava não voltará a vê-la (Salmo 103, 15-16). Acabam nossos anos como um sopro (Salmo 90,9).

A palavra de Deus nos exorta constantemente a tomar consciência da brevidade da vida. É como um clarim de alerta que nos diz: Estás caminhando para o encontro definitivo com Deus, vale a pena caminhar bem, para que esse encontro seja o que deve ser para o cristão: o abraço eterno do Amor, o abraço da Santíssima Trindade para sempre.

Sim, vale a pena viver preparados, pensando nessa meta final, que é maravilhosa, mas que nós podemos frustrar. São Paulo tinha a “sabedoria do coração” de que falávamos antes. Por isso, exortava assim os efésios: Portanto, ficai bem atentos à vossa maneira de proceder. Procedei não como insensatos, mas como prudentes, que aproveitam bem o tempo presente, pois estes dias são maus. Não sejais sem juízo, mas procurai discernir bem qual é a vontade do Senhor (Ef  5,15-17).

Quem é que se prepara bem para o encontro definitivo com Deus, para a hora da morte? Quem vive com o coração voltado para Deus, e mantém o olhar e o ouvido abertos a ele. Ouça a promessa de Jesus: Em verdade, em verdade vos digo: se alguém guardar a minha palavra, nunca verá a morteAs minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna. Por isso, elas nunca se perderão (Jo 8,51 e 10,27-28).

O servidor bom e fiel, que entra na alegria do seu Senhor (Mt 25,21) é o que procurou ouvir a sua voz, e dizer sempre “sim” a tudo que Deus lhe pedia

É preciosa aos olhos do Senhor a morte de seus fieis. Senhor, sou teu servo, sim, sou teu servo filho da tua serva: quebraste as minhas cadeias… Que retribuirei ao Senhor por todo o bem que me deu? (Salmo 116,15 e 12).

No dia 11 de dezembro de 1998, iniciou-se oficialmente a Causa de Canonização de um membro Supernumerário do Opus Dei, o Dr. Eduardo Ortiz de Landázuri, catedrático de Clínica Médica e um dos médicos de mais prestígio da Espanha. Deve-se principalmente a ele a conhecida Faculdade de Medicina da Universidade de Navarra. Sua bondade, sua generosidade com pacientes e necessitados era proverbial. Eu mesmo dou testemunho, porque, por um dia, fui paciente seu.

Faleceu santamente em 20 de maio de 1985, enquanto repetia esta oração: “Senhor, aumenta a minha fé, aumenta a minha esperança, aumenta a minha caridade, para que o meu coração se pareça com o teu”.

Em 1983, com um câncer disseminado, sabia que lhe restava pouco tempo de vida. Entrevistado por um jornalista do Diário de Navarra contava-lhe que, apesar de ter sido um agnóstico, desde a sua conversão «sempre tive fé, e peço a Deus que não a tire de mim, agora que mais preciso dela. Na realidade, a única coisa que me preocupa é ir ao Céu. Sim, acredito no Céu, o lugar onde gozarei da presença de Deus. Como? A minha mente é pequena demais para explicá-lo. Mas é para lá que eu quero ir. Tentei passar pela vida fazendo o bem que pude. Tentei, mas não quero que me digam que o consegui, porque me assusta a minha possível vaidade. Quero ir ao Céu e lá não há lugar para os vaidosos».

Releia esse breve relato que fala da forma como encarava a morte um profissional notável, que fez grandes coisas, que teve esposa e filhos sempre unidos, uma família admirável, e que, na hora final, podia apresentar a Deus as duas mãos cheias de frutos de realizações, de bem, de virtudes e de amor. Releia e perceba, olhando para o Dr. Eduardo, o que é uma vida feliz com Deus, porque tem bem clara a meta e o caminho que conduz a ela.

 

[1] Caminho, n. 191

[2] Do retiro que pregou ao Papa São João Paulo II em 2000

[3] Caminho, n. 813