A ARMADILHA DO CAÇADOR

OS SALMOS, NOSSO ESPELHO

10 – A ARMADILHA DO CAÇADOR

 

Se o Senhor não estivesse do nosso lado, as águas nos teriam inundado, uma torrente nos teria afogado. Como um passarinho fomos libertados da armadilha do caçador (Salmo 124, 1.4.7).

Quantas vezes não tivemos a sensação de que as diversas tentações da vida estavam nos envolvendo como as águas de uma enxurrada. Quantas vezes não sentimos o perigo da tentação muito próxima, prestes a apanhar-nos como a arapuca pega o passarinho.

Na vida sofremos tentações, e em geral não gostamos. Mas …será que isso é mau?

Já pensou alguma vez que, ao ensinar-nos o Pai-nosso, Jesus, em vez de exortar-nos a dizer “livrai-nos da tentação”, mandou-nos pedir “não nos deixeis cair na tentação, mas livrai-nos do mal”? Desse mal, que é o pecado.

Para Deus, a tentação não é um “mal”, é apenas uma provação que, literalmente, nos “põe à prova”, a fim de nos ajudar a ser melhores e a ganhar a têmpera dos filhos de Deus.

Assim vê a Bíblia as tentações:

Porque eras agradável ao Senhor, foi necessário que a tentação te provasse (Tobias 12,13)

Deus provou os justos e os achou dignos de si. Ele os provou como ouro na fornalha (Sabedoria, 3,5-6).

Feliz o homem que suporta a tentação porque, uma vez provado, receberá a coroa da vida, que o Senhor prometeu aos que o amam (Tiago 1,12).

«Não pode deixar de haver tentações – dizia Santo Agostinho –, porque o nosso melhoramento realiza-se através a tentação»[1].

Todas as tentações nos colocam numa alternativa: Dizer sim ao Bem ou ao Mal; dizer sim ao certo ou ao errado; dizer sim ao comodismo ou ao dever; dizer sim ao prazer ou ao amor; dizer sim à justiça ou à trapaça; dizer sim ao perdão ou à vingança; dizer sim às necessidades dos outros ou ao nosso egoísmo…

Cada vez que dizemos “sim” ao Bem, mostramos a nossa “preferência” por Deus, decidimo-nos em favor do que ele nos pede e, assim, crescemos interiormente  e fortalecemos as virtudes.

É uma luta. Mas, nela, não estamos sós. Se tivermos boa vontade e estivermos dispostos a dizer um “sim” decidido ao Bem, então Cristo virá ao nosso encontro, e mandará à tentação, por forte que seja, o que ele mandou ao mar encrespado: Silêncio! Cala-te! E o vento parou e fez-se uma grande calmaria (Mc 4,39).

São Paulo, que tinha muita experiência de lutas, escrevia aos Coríntios: Não vos sobreveio tentação alguma que ultrapassasse as forças humanas. Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças. Pelo contrário, junto com a tentação, também vos dará meios de suportá-la, para que, assim, possais resistir-lhe (1 Cor 10,13).

Não só resistimos, mas tiramos proveito. Veja o que diz São Tiago, falando das provas contra a fé, das tribulações e tentações do cristão: Sabeis que a prova da fé produz em vós a constância. Ora, a constância deve levar a uma obra perfeita: que vos torneis perfeitos e íntegros, sem falta ou deficiência alguma (Tg 1,2-3).

Tudo isso refere-se às “verdadeiras tentações”, ou seja àquelas que aparecem sem nós as termos desejado nem procurado. Porque há “falsas tentações”, fruto dos nossos maus desejos voluntários e da nossa cumplicidade com o mal. São arapucas que nós preparamos para nós mesmos. Contra essas tentações, Deus não concede a ajuda da sua graça, a não ser por uma “loucura” da sua misericórdia.

As falsas tentações podem ser simbolizadas pelo seguinte episódio. Corria o ano de 1974. Era maio, e São Josemaria Escrivá estava em São Paulo. Duas semanas de palestras e catequese. Por prescrição médica devia caminhar cada dia pelo menos meia hora. Procuramos que essa caminhada pudesse ser feita em lugares agradáveis: Jardim Botânico, campus da USP, parque da Água Branca… Um dia, sugerimos que visse o famoso Instituto Butantã, e lá se exercitasse um pouco. Parou, com curiosidade, diante de um serpentário protegido por um vidro onde dormitava uma cascavel, de chocalho crescido. Por aquele pequeno cubículo passeava um ratinho branco. Ia e vinha, passava por cima da cobra, afastava-se e voltava a se aproximar, até que de repente a cascavel deu o bote, com a velocidade de um raio, e abocanhou o bicho.

São Josemaria comentou: «Ele o procurou», ou seja, o ratinho, com a sua inconsciência, foi direto atrás do desfecho fatal; e acrescentou depois que assim acontecia conosco quando brincávamos com a tentação.

É algo que faz pensar. Grande parte dos nossos pecados, vícios e dramas morais procedem da nossa covardia para dizer “não” às ocasiões de pecado. Aproximamo-nos delas pela vaidade, pela curiosidade mórbida (o celular, a internet!), pela gula, pelos maus hábitos que nos custa cortar; pela pressão de amigos… e a cobra salta e nos pega. Depois, dizemos que foi uma fraqueza, um mau momento, mas é um momento que nós preparamos, somos culpados de ter brincado à toa, ou intencionalmente, com a cobra, como o ratinho.

Quando “queremos” vencer, vencemos. A graça de Deus não vai faltar aos que forem sinceros, especialmente se eles procuram unir-se a Deus mediante a oração – que, às vezes, terá que ser uma petição insistente através de Jesus e de Nossa Senhora – e com o sacrifício, a mortificação de uma satisfação ou de um impulso espiritual ou carnal fortes. Poderemos então repetir: Tu és, Deus, a minha fortaleza (Salmo 43,2), tu me salvaste da armadilha do caçador (Salmo 124,7).

[rascunhos de um futuro livro]

[1] Enarrações sobre os Salmos, 60, 3