COMO UM CAVALO SEM FREIO

OS SALMOS, NOSSO ESPELHO

13 –  COMO UM CAVALO SEM FREIO NEM RÉDEAS

Não sejas como o cavalo ou o jumento sem inteligência, cujo brio precisa ser domado com freio e rédeas… Eu te instruirei e te indicarei o caminho que deves seguir; com os olhos sobre ti, te darei conselho (Salmo 32,9.8).

Lembro-me De uma história real que me foi contada por um dos protagonistas. Aconteceu num acampamento, onde faziam o serviço militar, durante as férias, estudantes universitários. Um deles, que nunca tinha praticado equitação, decidiu arriscar-se e tentar. O cavalo escolhido, mal ele se encarapitou em cima da sela – sem dúvida o animal percebeu que carregava um “intruso” – desembestou sem rumo fixo.

Na correria desgovernada, o cavalo com cavaleiro abraçado a seu pescoço, passou por um grupo de jovens oficiais que, morrendo  de rir, perguntaram: “Aonde está indo com tanta pressa?” A resposta ofegante do mau cavaleiro foi: “Eu ia para tal lugar, mas não sei para onde é que este cavalo está me levando”.

A nossa vida pode ser, com facilidade, como um cavalo ou um jumento desgovernados, que nos conduzem aonde não sabemos e não desejávamos ir. Meditemos um pouco no cavalo e no jumento.

  • O cavalo desgovernado pode ser o símbolo da falta da uma das duas faces da virtude da ordem.

─ A primeira, a mais profunda, é a carência de uma íntima ordem de valores. Não sabemos qual deve ser o sentido da nossa vida, não temos ideais claros, afora o desejo de vencer e passar bem, que não é ideal nenhum. E, assim, vamos tocando tudo na confusão do coração, no impulso da hora, e no embalo da rotina.

Será que temos, nem que seja minimamente, uma escala ideal dos valores e prioridades da nossa vida? Pode ser que enxerguemos “teoricamente” que “isto” é o mais valioso, o mais importante; que “aquilo” outro é secundário; que a família deveria estar em primeiro lugar, acima do trabalho; que só com Deus se pode enxergar o autêntico sentido da vida e da morte…

Na prática, porém, essa ordem de valores não significa nada. Aquilo que, na teoria, é primeiro fica sendo o último; o que é “mais” fica sendo o “menos”… Acontece que, mesmo com boa vontade,  não conseguimos segurar as rédeas do cavalo da vida e dirigi-lo pelo caminho que deve seguir, como diz o Salmo.

Não temos forças para segurar as rédeas por duas razões: – Primeiro, porque não temos convicções, apenas teorias, mais ocas que uma laranja chupada.  – Segundo, porque temos a liberdade, ou seja, a capacidade de dominar o nosso “ querer”, prisioneira dos defeitos, caprichos e paixões que nos dominam.

Somos escravos dos defeitos que nos amarram: estes são o cavalo enlouquecido, que nos leva para parte nenhuma e nos faz falhar e fracassar em quase tudo: na família, na formação dos filhos, na vida espiritual, na profissão, nas amizades…

O cavalo sem freio pode se chamar preguiça, inconstância (incapacidade de sermos fiéis a nada, fora do time de futebol e dos vícios arraigados); pode se chamar ambição cega (que ofusca e não deixa ver nem Deus nem a família); pode se chamar intemperança na gula e na sensualidade…

«Eu estava acorrentado – dizia Santo Agostinho –, não por ferros alheios a mim, mas pelos do meu egoísmo agrilhoado… Quando se obedece aos desejos da carne, estes tornam-se costume; quando não se quebra esse costume, torna-se necessidade… Com tais elos fizera eu a corrente com que o demônio me mantinha amarrado à mais dura escravidão».

Você pede a Deus a graça de se libertar dessas correntes? Você se esforça por construir a estrutura sólida de todos os valores da vida, ou seja, das virtudes?[1].

  • E o jumento? Pode ser a imagem da “burrice” do tempo que se perde, como a água num recipiente furado, simplesmente pela falta de organização e previdência.

O tempo passa, foge rápido. Lembro-me de uma entrevista feita a Oscar Niemeyer, quando atingiu os cem anos de idade. O jornalista lhe perguntava como enxergava sua vida, nessa altura. E ele respondeu: “A vida é um sopro”.

Não vê que é asneira perdê-la, desperdiçá-la por falta de ordem, no sentido mais simples dessa palavra? Falta de horário, de previdência, falta de planejamento, falta da coragem de começar, falta de fortaleza para terminar.

Quando uma pessoa, ao enfrentar-se com seus deveres, diz “não tenho tempo”, deveria ouvir na hora um sinal de alarme que lhe diz: “Falta-te tempo, porque te sobra jumento”.

Qual jumento? –Primeiro, a falta de sinceridade no querer: sempre achamos tempo para as coisas que queremos “mesmo”; se não há tempo é porque não queremos. – Segundo, a preguiça de parar e se organizar, de preparar e anotar o que, em consciência, percebe que deve fazer em cada dia (desde assuntos profissionais e dedicação a problemas familiares, até a organização das horas em que vai abrir whats-apps e redes sociais, e da hora-limite em que o tablet, o celular e a tv “vão dormir”, porque você vai ter a firmeza do bom jerico para empacar e dizer não. Manter em dia a agenda e ter a determinação do jegue que finca as patas no chão, isso é que é uma “jumentalidade” sadia e santa.

[rascunhos de um futuro livro]

[1] Para maior aprofundamento, pode ser útil a leitura de dois livros: Autodomínio, elogio da temperança, Ed. Quadrante, 2ª edição; e A conquista das virtudes, Ed. Cultor de Livros, Cléofas, 2ª ed.