APRENDER O TEMOR DE DEUS

OS SALMOS, NOSSO ESPELHO

15 – APRENDER O TEMOR DE DEUS

Feliz quem teme o Senhor! (Salmo 112,1). O princípio da sabedoria é o temor do Senhor (Salmo 111,10). Vinde, filhos, escutai-me, eu vos ensinarei o temor do Senhor (Salmo 34,12).

O temor, o medo, não é agradável nem parece positivo. São Tomás de Aquino diz que «nós tememos perder o que amamos»[1], e a nossa experiência confirma que é assim mesmo. Ficamos com medo de perder uma pessoa querida, a saúde, a integridade física, o trabalho, o bom nome, os bens materiais…, em suma, as coisas que amamos.

Feliz quem teme… Como é possível que o temor de Deus nos proporcione alegria? Como é que, partindo do temor, uma religião pode ser sábia? Como é que o medo pode ser algo bom que precisa ser aprendido?

Essas mesmas perguntas intrigavam, no século IV, santo Hilário, bispo de Poitiers, quando se preparava para comentar os salmos ao povo. De modo especial ficava perplexo com aquela exortação do salmo 34: Vinde…, eu vos ensinarei o temor do Senhor. Com a ajuda de Deus, achou uma resposta simples.

No nosso dia a dia, o temor – comentava este santo – «não é objeto de ensino, mas surge da nossa fraqueza natural; não aprendemos o que se deve temer, mas são as próprias coisas temíveis que nos incutem o seu temor». Pelo contrário, o temor de Deus não é uma reação natural, espontânea; tem que ser ensinado e aprendido. «Não provém do nosso receio natural, mas do conhecimento da verdade. Para nós, todo o temor de Deus vem do amor»[2].

A esse temor que nasce do amor a tradição espiritual da Igreja chama «o santo temor de Deus». Vamos meditar sobre três manifestações do temor de Deus, que podem trazer luz à nossa alma.

  • Em primeiro lugar, não é raro que católicos que estiveram a um triz da morte, que escaparam por pouco de um incêndio ou de uma doença grave, sintam um calafrio de terror ao pensar: “E se eu tivesse morrido em pecado mortal sem me arrepender, sem me ter confessado, com que cara iria à presença de Deus? Não iria para o inferno?”. Esse temor não é motivado pelo amor a Deus, mas pelo amor a si mesmo, pelo medo de sofrer a condenação eterna.

Embora esse temor não seja o “ideal” e esteja manchado pelo interesse, para muitos foi, como diz o salmo 111, o princípio da sabedoria. Ouviram a voz da consciência: “Não vê que é uma soberana tolice viver em perigo de se condenar eternamente, quando pode alcançar, por meio de uma boa confissão, o perdão de Deus?”. Mas de uma vez, esse princípio imperfeito, que afinal procede da fé, acabou conduzindo à conversão e à santidade.

O próprio Jesus, neste sentido, no alerta: A vós, meus amigos, eu digo: não tenhais medo dos que matam o corpo e depois não podem fazer mais nada. Vou mostrar-vos a quem deveis temer: temei aquele que, depois de fazer morrer, tem o poder de lançar-vos no inferno (Lc 12,4-5).

Como glosa brevemente são Josemaria: «Não esqueças, meu filho, que para ti, na terra, só há um mal que deverás temer e evitar com a graça divina: o pecado»[3].

  • Há uma segunda manifestação do temor de Deus, que já é temor “santo”. É a emoção, o assombro estremecido da alma que percebe junto a si a grandeza e a beleza deslumbrante de Deus.

Foi isso o que aconteceu aos pastores de Belém, na noite de Natal: Um anjo do Senhor lhes apareceu, e a glória do Senhor os envolveu de luz. Os pastores ficaram com muito medo. O anjo então lhes disse: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria… (Lc 2,9-10).

Tomara que cada um de nós, com a graça de Deus, pudesse ter um pouco da experiência dos pastores: que, envolvidos interiormente pela luz da fé, tremêssemos de emoção e caíssemos de joelhos ao captar as maravilhas indescritíveis de Deus.

O futuro cardeal Newman, num dos seus sermões paroquiais, perguntava se eram cristãos os sentimentos de temor perante o “sagrado”, perante o divino. Respondia: «São os sentimentos que teríamos, e em grau intenso, se tivéssemos a visão do Deus soberano. São os sentimentos que teríamos se verificássemos a sua presença. Na medida em que acreditamos que ele está presente, devemos tê-los. Não os ter é não acreditar que Deus está presente»[4].

Hoje nos faz muita falta pedir a Jesus, como os apóstolos: Aumenta a minha fé (Lc 17,5). Porque quando cresce a fé, cresce esse santo temor maravilhado, comovido, que é o espírito de “adoração”. Quanta coisa melhoraria na vida de muitos católicos se recuperassem o sentido da adoração diante do Santíssimo Sacramento do altar.

  • Finalmente, o perfeito temor de Deus é o temor filial. Deixemos que nos fale dele são João: Caríssimos, nós somos agora filhos de Deus… Aquele que não ama não conheceu a Deus, porque Deus é Amor… Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e nos enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados… No amor não há temor; ao contrário,o perfeito amor lança fora o temor (1 Jo 3,2; 4,8.10.18)
  • Aquele que ama muito e é muito amado teme magoar a pessoa amada. Qualquer falha cometida lhe causa muita pena.

A alma de fé é aquela que diz, com são João, nós conhecemos o amor de Deus e acreditamos nele. (1Jo 4,16). Sabe que «Deus é um pai amoroso: quer mais a cada um de nós do que todas as mães do mundo podem querer a seus filhos»[5]. E dói-lhe muito ofendê-lo. É a única coisa que “teme” de verdade.

Quando temos esse temor filial, o coração não fica encolhido pelo medo; ao contrário, se dilata, aberto totalmente à gratidão e à confiança em nosso Pai Deus: Não tenhas medo, pequeno rebanho  – diz-nos Jesus –, porque foi do agrado do vosso Pai dar-vos o Reino (Lc 12,32).

Este temor filial é o perfeito temor de Deus.

[1] Suma Teológica, II-II, q. 19. a.8

[2] Tratados sobre os salmos. Cit. na Liturgia das Horas, Quinta-feira da 2ª.semana da Quaresma.

[3] Caminho, n. 386

[4] Parochial and plain sermons, 5,2, pág. 21-22

[5] Cf. Caminho, n. 267