Presença de Deus: II – Como consegui-la

A respiração da alma

Na meditação anterior (“Presença de Deus: I – Sob o sol da fé”), falávamos de uma realidade feliz, que podemos resumir com palavras do livro «Caminho»: «Vivemos como se o Senhor estivesse lá longe, onde brilham as estrelas, e não consideramos que também está sempre ao nosso lado. E está como um Pai amoroso … Necessário é que nos embebamos, que nos saturemos de que Pai e muito Pai nosso é o Senhor que está junto de nós e nos céus» (n. 267).

Mas como conseguir “embeber-nos” dessa maravilha, na prática?

Penso que nos pode ajudar uma imagem expressiva: a dos mergulhadores. Muitos séculos antes de que fossem inventados os equipamentos de mergulho, com suprimento de oxigênio, etc, já havia mergulhadores em todos os continentes. Por exemplo, os pescadores de pérolas. Ficavam – e ainda ficam – dentro da água durante um tempo que a nós pode parecer muito longo, mas que se conta apenas por minutos. Necessariamente têm que sair à tona com uma frequência determinada para respirar, sob pena de morrerem afogados.

Nós, que passamos os dias mergulhados em mil coisas, no imediatismo das urgências diárias, muitas vezes nos esquecemos de “emergir para o ar de Deus”, e temos o perigo de ficar espiritualmente asfixiados. Precisamos muito de “subir” constantemente para “respirar” o ar de Deus. Esse esforço de elevar-nos, procurando que o nosso coração possa bater bem “oxigenado”, com o ritmo dos filhos de Deus, nós o realizamos quando lutamos por lembrar-nos dEle mediante “atos explícitos de presença de Deus” (e também de Nossa Senhora, dos Santos, dos Anjos). Consistem em breves pensamentos, desejos, aspirações e orações, impregnados de fé e de amor, que servem como “elevadores” da alma para Deus.

Uma condição prévia

Os atos de presença de Deus pressupõem uma condição: não estar submergidos de tal maneira no mundo, que a pressão das águas nos esmague a alma. É o que acontece quando vivemos o dia a dia de costas para Deus, sepultados sob uma massa excessiva de preocupações e ocupações pessoais, de sonhos, imaginações, projetos e satisfações, que estão concebidos e vividos totalmente à margem de Nosso Senhor.

É justamente para evitar esse perigo que os santos nos incentivaram vivamente a esforçar-nos, a lutar para viver e fazer tudo na presença de Deus.

Para conseguirmos isso, a primeira condição básica é manter habitualmente um plano de vida espiritual, com seus horários bem determinados, que nos leve a ter momentos intensos e marcantes de união com Deus: a meditação, o Terço, a leitura da Sagrada Escritura e de obras espirituais e, acima de tudo, a Missa e Comunhão frequente … (práticas de que já falamos ou falaremos em outras reflexões). Essas práticas, essas “normas” do nosso plano de vida espiritual, deixam a alma “aquecida” – para usar a comparação com os atletas, como faz São Paulo -, pronta, desperta, disposta a dar com leveza o “salto” até Deus, no meio das tarefas e da agitação do dia-a-dia.

Ajudados por essa disposição da alma, será mais fácil que consigamos empregar os meios – tradicionais na espiritualidade católica- que servem diretamente para manter, aumentar e melhorar a presença de Deus durante o dia.

Meios para alcançar a presença de Deus

Existem diversos meios para nos lembrarmos de Deus, cuja eficácia foi comprovada pelos santos durante dois milênios. Vou lembrar a seguir alguns deles, fazendo antes, porém, duas ressalvas importantes:

a) Esses meios têm o papel, por assim dizer, de “muletas”. Devem escolher-se e usar-se com sensatez e liberdade de espírito, na medida em que nos ajudem “mesmo” a lembrar-nos de Deus muitas vezes ao dia. Se não nos ajudam, vamos deixá-los de lado, como se faz com as muletas desnecessárias. O que não se pode fazer – se queremos viver com Deus – é não usar nenhum;

b) Não nos esqueçamos de que quem guia a nossa alma é o Espírito Santo, que sopra onde quer (Jo 3,8 e Rom 8,14). Por isso, o primeiríssimo meio é deixar-nos guiar docilmente pelas inspirações do Espírito Santo, que não faltam quando a alma é piedosa, isto é, quando é alma de oração.

E agora vamos às sugestões:

1) Eu sinto muita alegria quando um amigo ou conhecido me fala do filho recém-nascido, ou da esposa, ou da família inteira e me mostra, sorridente, no seu celular ou no Ipode ou no Smartphon…, a foto digital deles que lá colocou. O carinho que tem para com eles faz-lhe sentir a necessidade desses lembretes para “tê-los presentes”. Todo coração precisa da “presença” de seus amores. O nosso coração, quando quer amar a Deus, precisa da mesma coisa. Por isso, um bom meio de alimentar a presença de Deus é, entre outras coisas:

- colocar nesses aparelhos eletrônicos de uso diário, e no computador de trabalho, alguma imagem de Cristo, de Maria Santíssima, de cenas evangélicas, de santos, etc. Na Internet achamos um estoque inesgotável. Depois de inseri-los, bastará um olhar de carinho para a imagem (o ícone) e estaremos fazendo um ato de presença de Deus. Também será um ato de presença dirigir-lhes uma invocação, uma oração breve, um pedido para as necessidades daquela hora; outras vezes, ofereceremos a Cristo ou a Maria, como «hóstia espiritual» (1 Pedr 2,5), a resolução de ter mais paciência, de trabalhar melhor naquele momento, de ser mais delicados com os outros, de vencer a preguiça, de aproveitar um restinho de tempo que sobra….

- A mesma finalidade pode-se alcançar por meio de um crucifixo ou de uma imagem de Nossa Senhora (ou de ambos), colocados com jeito como elementos decorativos do escritório, consultório, etc., que possamos ver enquanto trabalhamos; e igualmente de uma imagem ou quadro religioso, ou gravura bonita, colocado em lugar nobre da casa, ou no quarto, ou na cozinha, etc. Também é ótimo utilizar como “despertador-lembrete”, um santinho, uma medalha…, sempre que façamos isso discretamente. Ter presença de Deus não é “exibir” a religiosidade à toa nem fazer o papel de católico “exibido”; a nossa fé “exibe-se”, fala sem o pretendermos, por meio das virtudes, da caridade, da lealdade, da bondade, do espírito de serviço…

- Eu gostaria ainda de lhe recomendar vivamente que carregue sempre consigo um pequeno crucifixo de bolso (além do seu terço ou tercinho de anel), de modo que possa colocá-lo à sua frente na mesa de trabalho (sem exibicionismo!), ou junto dos livros quando estuda, ou numa gaveta que abra e feche com frequência; e também na mesinha de cabeceira ou debaixo do travesseiro, para beijá-lo antes de dormir e logo ao acordar.

2) Acabamos de ver, no item 1), algumas sugestões de lembretes-despertadores da presença de Deus. Já dizíamos que devem servir para manifestar a nossa fé e o nosso amor, quer com um simples olhar, quer com palavras e preces.

Neste sentido, quero lembrar-lhe uma tradição importante na Igreja: a de rezar “jaculatórias” – meios privilegiados de presença de Deus – muitas vezes ao longo do dia. Não é preciso que consiga, como o “peregrino russo” (e a escola dos chamados “hesicastas”) dizer tantas jaculatórias como o bater do coração, mas sim é preciso que nos habituemos a rezar muitas.

Lembro-lhe que se chama “jaculatórias” a orações muito breves, frases que são lançadas como um dardo (“jaculum”, em latim), e constituem como que a respiração do coração. Tente. Esforce-se por dizer algumas, para começar, e depois por dizer cada vez mais. Elas não nos distraem das nossas ocupações, ao contrário, garanto-lhe que são meios fantásticos para prestar mais atenção e colocar mais carinho naquilo que fazemos.

Interrompo aqui essa reflexão, que já ficou longa demais. Na próxima, que terá como título «Presença de Deus: III – Jaculatórias», vou sugerir-lhe alguns exemplos. Espero que não seja tão longa como esta.

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