Oração de súplica: II- O que devemos pedir?

Saber pedir bem

            Estas reflexões – quero repisá-lo – não são aulas de doutrina, embora procuremos que a doutrina esteja na base de tudo o que dizemos e, às vezes, precise ser explicitada um pouco mais amplamente. São apenas conselhos práticos de vida espiritual

            Digo-lhe isto porque não vamos meditar sobre todos os aspectos da oração de petição. Além do que já foi dito na palestra anterior, quero recordar-lhe apenas algumas qualidades que fazem com que oração de súplica seja boa…, pois poderia ser má.

            De fato, podemos pedir mal, como diz São Tiago, que não tem papas na língua: Não alcançais, porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, com o fim de satisfazerdes as vossas paixões (Tg 4, 2-3).

O pedido de todos os pedidos

            Com isso, já temos um primeiro esclarecimento sobre a boa oração de petição. São Tiago afirma que reza mal quem pede a Deus que lhe satisfaça os desejos e ambições egoístas, que satisfaça as suas paixões (orgulho, avareza, inveja, ânsia de sucesso e glória, soluções cômodas, bênçãos para negócios pouco limpos, sensualidade, etc.). Não é cristão usar Deus como «ajudante», como «criado» a nosso serviço, pedindo-lhe que nos conceda o que as nossas paixões egoístas almejam.

            Jesus, quando fala da oração de petição, diz que, assim como um pai não vai dar uma pedra ao filho que lhe pede pão, nem uma cobra ao que lhe pede peixe, da mesma forma o nosso Pai celeste dará coisas boas aos que lhe pedirem (Mt 7,11).

            Que quer dizer com essa expressão, coisas boas? Ele mesmo responde em outro lugar: Se vós, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai celestial dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem (Lc 11,13).

            Quer dizer que o objeto da nossa oração de petição, aquilo que «sempre» deve ser pedido a Deus (mesmo quando Lhe pedimos coisas materiais) é a graça do Espírito Santo.

            Para que foi que Cristo enviou o Espírito Santo, fruto da sua morte redentora na Cruz? Para nos tornar filhos de Deus, capazes de amar a Deus e ao próximo com a força desse Amor em pessoa que é o Espírito Santo. Para nos santificar: a caridade, o amor, que o Espírito Santo derrama nos nossos corações (cf. Rm 5,5) – diz São Paulo – é a essência da perfeição (Col 3,14).  E é também o Espírito Santo quem nos leva à verdade completa sobre Deus, os homens, o mundo e seus problemas (Jo 16,13).

Seja feita a vossa vontade

            Podemos pedir tudo o que seja honesto e bom, desde que esteja subordinado ao maior bem, que é a nossa santificação, e ao autêntico bem dos filhos de Deus, que são os nossos irmãos.

            Por isso, no coração de toda súplica dirigida a Deus, você – e eu, e todos – deve colocar o pedido primordial: Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu (Mt 6,10). Muitos bons cristãos, pedem, e pedem muito – e, nisso, fazem muitíssimo bem -, mas sempre acrescentam: «Se isto for, Senhor, da vossa vontade». Rezar assim é ótimo. Essa foi a oração de Cristo no Horto, a mais perfeita de todas as orações: Abá (Pai!), afasta de mim este cálice; contudo, não se faça o que eu quero, mas o que tu queres (Mc 14,38).

            Na realidade, como diz São Paulo, nós não sabemos o que devemos pedir…, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inefáveis (Rm 8, 26). É uma maravilha! Nós podemos pedir a Deus tudo o que for honesto e bom, como há pouco lhe dizia: saúde física e espiritual, forças para enfrentar um problema, e – se possível – que Deus afaste esse problema, o pão material, recursos para o sustento próprio e da família, o Pão espiritual, o bem da Igreja, a paz do mundo, o bem comum do país, etc, etc. E, enquanto nós pedimos filialmente, o Espírito Santo, dentro do nosso coração,  irá intercedendo por nós, fazendo com que o nosso pedido obtenha o resultado que mais nos convier (mesmo que, às vezes, seja o contrário do que pedimos, como os pais que amam os filhos têm que fazer com frequência).

            Não se esqueça, porém, de que, mesmo que Deus demore a responder de um ou outro jeito, mesmo que pareça que não nos escuta, há muitas graças divinas que estão vinculadas à nossa oração. Quem reza, sempre recebe, sempre! (pedi e recebereis). Ai de nós, se não rezamos, porque aquele que não reza, pode anular o plano de Deus a seu respeito (cf Lc 7,30). Mais uma vez convirá lembrar a frase famosa de Santo Afonso: «Quem reza se salva, quem não reza se condena».

Rezar uns pelos outros

            Neste reflexão, queria ainda lembrar-lhe, mesmo que seja brevemente, a enorme importância que tem a oração que pede pelos outros. Deus nos vê como filhos, como família de Deus (Ef 2,19), que deve estar unida como os primeiros cristãos, de quem dizem os Atos dos Apóstolos: Unidos de coração, frequentavam todos os dias o templo… Perseveravam eles…na oração (cf. At 2,42.46).

            Espiritualmente, mais ainda do que materialmente, uns dependemos dos outros. Formamos um só corpo, o Corpo Místico de Cristo; e, como diz ainda São Paulo, o olho não pode dizer à mão: eu não preciso de ti (1 Cor, 12,21). Todos precisamos de todos. Todos temos que apoiar-nos na oração dos outros. Os outros devem poder apoiar-se na nossa oração. A Igreja viveu isso intensamente desde o começo.

            Após a primeira prisão de Pedro, por exemplo, todos os «irmãos» rezavam unanimemente: Agora, Senhor, olhai para as suas ameaças e concedei aos vossos servos que, com todo desassombro, anunciem a vossa Palavra (At 4,29). Da mesma forma, São Paulo, que em todas as suas cartas pede orações, escrevia aos romanos: Combatei comigo, dirigindo vossas orações a Deus por mim (Rm 15,30).

            Mais ainda, além de rezarmos pelos outros cristãos, membros do Corpo Místico de Cristo, é preciso rezar muito também pelos que não conhecem a Deus, pelos que o combatem ( cf. At 7,60; Rm 12,14, etc), e até mesmo pelos que se empenham em ser os nossos «inimigos», e nos odeiam e nos perseguem (Mt 5,44).

            Acha que está claro tudo o que hoje vimos? Penso que o que fica mais evidente é que devemos propor-nos, a partir de agora, rezar muito mais. Eu lhe lembro, para terminar, umas palavras de São Josemaria, que afirmava que muitas coisas não andam bem no mundo «porque poucos rezam; e os que rezam, rezam pouco». Deus faça que nós não estejamos entre esses «rezadores anêmicos».

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