O “terceiro passo”
Quem já achou no Evangelho o “espelho” do amor e das virtudes de Jesus – que nos convida a imitá-lo -, e achou também o “farol” que ilumina os caminhos da vida (ver “Como meditar o Evangelho-III”), não fica satisfeito com isso, tem mais fome: fome de aprofundar no conhecimento e no amor de Jesus. E é aí que sente a necessidade de dar um “terceiro passo”.
Em que consiste esse novo passo? Consiste na “contemplação” de Jesus Cristo, que tem, entre outras, estas manifestações:
a) Ânsia cada vez maior de olhar sem cansaço e de aprofundar com amor na figura, na vida e na Palavra de Jesus. Isso era o que fazia, lá na sua casa de Betânia, Maria, a irmã de Marta, sentada aos pés de Nosso Senhor, sem se cansar de olhá-lo e de ouvi-lo (Lc 10,38-42).
b) Desejo de “viver” as passagens do Evangelho, não como coisa do passado, mas como realidades atuais. De viver por exemplo, o Natal, a Paixão de Jesus, a alegria da sua Ressurreição como cenas que estão acontecendo “hoje”… Veja o que nos diz, acerca disso, o “Catecismo da Igreja Católica”:
- «A contemplação é o “olhar” de fé fito em Jesus, “Eu olho para Ele e Ele olha para mim”, dizia o camponês de Ars, em oração diante do Sacrário» (n. 2715);
-«Tudo o que Cristo é, tudo o que fez e sofreu por todos os homens participa da eternidade divina, e por isso abraça todos os tempos e em todos se torna “presente”» (n. 1085). Quer dizer que, de uma maneira divina, Jesus nasce “agora”, vive “agora”, dá a vida por mim “agora”…, uma vez que todos os mistérios da sua vida estão ligados para sempre à sua presença real na Eucaristia: à Santa Missa e ao sacrário.
c) Fome de falar com Jesus vivo, de lhe dizer que o amamos muito, de agradecer-lhe tudo, de desabafar e chorar reclinados no seu coração, de pedir-Lhe com confiança, de “consolá-lo”, de tê-lo como companheiro, tal como os discípulos de Emaús (Lc 24, 13 ss.).
Como mais um personagem
Todos os santos “contemplaram” assim o Evangelho. Nos nossos dias, um guia experiente para essa contemplação é São Josemaria Escrivá. Veja como nos ensina a ser contemplativos (falo apenas do que ele comenta sobre a contemplação do Evangelho, pois também ensinava a sermos contemplativos no meio do mundo, o dia inteiro).
«Misturai-vos com frequência- dizia – entre os personagens do Novo Testamento. Saboreai aquelas cenas comoventes em que o Mestre, Jesus, atua com gestos divinos e humanos, ou relata com modos de dizer humanos e divinos a história sublime do perdão, do Amor ininterrupto que tem pelos seus filhos».
«O meu conselho – acrescentava – é que, na oração, cada um intervenha nas passagens do Evangelho como mais um personagem. Primeiro, imaginamos a cena ou mistério, que servirá para nos recolhermos e meditar. Depois empregamos o entendimento para considerar este ou aquele traço da vida do Mestre: seu Coração enternecido, sua humildade, sua pureza, seu cumprimento da Vontade do Pai. Depois, contamos-lhe o que nos costuma acontecer nessas matérias, o que sentimos, o que nos está acontecendo. É preciso permanecermos atentos, porque talvez Ele nos queira indicar alguma coisa: e surgirão essas moções interiores, o cair em si, essas reconvenções».
Exemplos vivos
Quer ver alguns exemplos vivos da forma em que São Josemaria praticava essa contemplação? Vou dar-lhe apenas três, que servem como amostra:
1) Meditação do Natal. Metia-se na gruta de Belém e contemplava, pasmado, Jesus recém-nascido, com Maria e José. Então fazia-se criança e “introduzia-se” dentro da cena. Aproximava-se de José, puxava-lhe da manga e lhe pedia que o deixasse pegar nos braços o Menino Jesus: «Que bom é José! Trata-me como um pai a seu filho. Até me perdoa, se tomo o Menino em meus braços e fico, horas e horas, dizendo-lhe coisas doces e ardentes! E beijo-O, e O embalo, e canto para Ele, e lhe chamo Rei, Amor, meu Deus, meu único, meu Tudo!».
2) A Paixão de Jesus. Acompanhava Jesus, passo a passo, pela Via dolorosa, bem pertinho de Maria e João. E, quando via, por exemplo, Jesus cair pela terceira vez sob o peso da Cruz, rasgava o coração: «Meu Deus! Que eu odeie o pecado e me una a Ti, abraçando-me à Santa Cruz para cumprir por minha vez a tua Vontade amabilíssima…».
3) A Ressurreição. Imaginava-se criança e unia-se à alegria indizível de Nossa Senhora, dos Apóstolos, das Santas mulheres, quando Jesus lhes apareceu ressuscitado. E inflamava também a alma dos que liam seus comentários sobe a Ressurreição, incentivando-os a participar juntamente com ele, com palavras como estas: «Apareceu a sua Mãe Santíssima. Apareceu a Maria de Magdala, que está louca de amor. E a Pedro e aos demais Apóstolos. E a ti e a mim, que somos seus discípulos e mais loucos que Madalena. Que coisas lhe dissemos! Que nunca morramos pelo pecado; que seja eterna a nossa ressurreição espiritual. E, antes de terminar…, beijaste as chagas dos seus pés…, e eu, mais atrevido – por ser mais criança -, pus os meus lábios no seu lado aberto».
Que achamos? Que nos falta muito para dar esse “terceiro passo”? Pois então aproximemo-nos de Nossa Senhora e peçamos-lhe que, como boa Mãe, nos ensine a contemplar e a viver com Ela as maravilhas da vida de seu Filho.
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