Prudência e consciência

 [PARTE III: ROTEIROS DE MEDITAÇÃO SOBRE VIRTUDES]

18.  GUIA: PRUDÊNCIA E CONSCIÊNCIA

1. O Catecismo da Igreja Católica relaciona a consciência com a virtude da prudência. Em parte, a consciência se identifica com o segundo passo da prudência: julgar. Digo em parte, porque a prudência é mais ampla: julga sobre tudo o que devemos fazer, enfrentar, etc. (profissão, família, educação). A consciência faz um juízo específico sobre a moralidade dos nossos atos: julga se são bons ou maus, moralmente certos ou errados.

«É a prudência – diz o Catecismo – que guia imediatamente o juízo da consciência. O homem prudente decide e ordena a sua conduta seguindo este juízo. Graças a esta virtude, aplicamos sem erro os princípios morais aos casos particulares e superamos as dúvidas sobre o bem a praticar e o mal a evitar» (n. 1806).

2. A consciência é frequentemente mal entendida, e dá-se o nome de consciência a sentimentos e juízos de valor que nada tem a ver com ela. Vejamos brevemente o que não é, e o que é a consciência:

A)  O que não é. A minha consciência não é um oráculo, não é uma  inspiração irracional infalível, não é “o que eu acho ou sinto” (sentimento meramente subjetivo), e menos ainda é o  eco das ideias que predominam no ambiente. Se fosse assim, a consciência seria, como disse Bento XVI: «um reflexo de mim mesmo [espelho dos meus desejos egoístas] e dos contemporâneos que me condicionam [e me levam a “pensar como todo o mundo”]» (Enc. Spe Salvi, n. 33).

B) O que é. «A consciência moral é um julgamento da razão pelo qual a pessoa humana reconhece a qualidade moral de um ato concreto que vai planejar, que está a ponto de executar ou que já praticou. Em tudo o que diz e faz, o homem é obrigado a seguir fielmente o que sabe ser justo e correto» (Catecismo, n. 1778). A consciência «julga as escolhas concretas, aprovando as boas e denunciando as más» (n. 1777).

3. Com que critérios a consciência julga da bondade ou maldade das nossas ações? Há duas grandes possibilidades.

1ª) A pessoa que acredita em Deus Criador e Providente sabe que o mundo, obra de Deus – suma inteligência e suprema bondade –, não orbita cego, não é como uma nave à deriva que vai errante à mercê dos acasos.

O homem – como, de resto, toda a criação – é um projeto idealizado por Deus. Desde sempre, esteve na mente de Deus o modelo ideal do ser humano e, ao mesmo tempo, a ideia exata daquilo que é a verdade e o bem do homem, daquilo que o pode levar à plenitude e à felicidade. Essa ideia do bem do homem, concebida pela Sabedoria de Deus, é precisamente a lei moral, que a teologia cristã chama lei eterna (porque existe eternamente em Deus e é válida eternamente para todos os seres humanos)[1].

João Paulo II lembra: «Deus, que é o único bom (cf. Mt 19, 17), conhece perfeitamente o que é bom para o homem, e, devido ao seu mesmo amor, o propõe nos mandamentos» (Enc. Veritatis splendor, n. 35).

Portanto, há uma verdade objetiva sobre o bem e o mal do homem. Essa verdade, que procede de Deus, deve ser o referencial pelo qual a consciência se guie, a norma pela qual julgue.

2ª) Em confronto com o que acabamos de dizer, quem não acredita em Deus ou decidiu prescindir dele, que critérios poderá ter sobre o bem e o mal moral? Sem possuir valores certos e permanentes, terá que pendurar os seus juízos morais de ganchos incertos, frágeis e oscilantes:

─ das ideologias (p.e. da filosofia marxista, das antropologias materialistas de inspiração freudiana, da militância laicista, das ideologias de gênero, da moda intelectual do momento)

─ do pseudocientificismo experimental, fechado “dogmaticamente”, com um pré-conceito pétreo, ao espírito e à transcendência.

─ dos simples desejos, impulsos, vícios e paixões pessoais

─ do interesse mesquinho (“para mim, isso é bom, e o resto não interessa”)

Com isso, cai-se na “ditadura do relativismo” (não há verdade nenhuma, não há um bem objetivo, não há pecado, etc.), descrita por João Paulo II na Enc. Evangelium vitae: «acaba-se por assumir como única e indiscutível referência para as próprias decisões, não já a verdade sobre o bem e o mal, mas apenas a sua subjetiva e volúvel opinião ou, simplesmente, o seu interesse egoísta e o seu capricho […]. Desse modo, diminui toda referência a valores comuns e a uma verdade absoluta para todos: a vida social aventura-se pelas areias movediças de um relativismo total. Então, tudo é convencional, tudo é negociável, inclusive o primeiro dos direitos fundamentais, o da vida» (nn. 19,20).

Essa falsa consciência torna-se, muitas vezes, a voz do mal, do pecado, que reivindica o direito de ser “livre”, e de se impor ditatorialmente sobre a verdade e o bem.

4. O guia da consciência é “o esplendor da verdade”, a luz de Deus.

«Colocada diante de uma escolha moral, a consciência pode emitir um julgamento correto de acordo com a razão e a lei divina ou, ao contrário, um julgamento errôneo que se afasta delas» (Catecismo, n. 1786).

Por isso, o Catecismo enfatiza a necessidade de formar a consciência. «A consciência deve ser educada e o juízo moral esclarecido. Uma consciência bem formada é reta e verídica. Formula seus julgamentos seguindo a razão, de acordo com o bem verdadeiro querido pela sabedoria do Criador. A educação da consciência é indispensável aos seres humanos submetidos  a influências negativas e tentados pelo pecado a preferirem o próprio juízo e a recusar os ensinamentos autorizados» (n. 1783)

E insiste em que «a educação da consciência é uma tarefa para toda a vida» (n. 1784).  Uma formação que devemos procurar: •aprofundando na Palavra de Deus assimilada com a meditação orante; •voltando o olhar para a palavra e o exemplo de Cristo, caminho, verdade e vida (Jo 14, 6), referencial de todo bem; •rogando ao Espírito Santo que ilumine nossos juízos e decisões; •esforçando-nos em conhecer a doutrina cristã, o ensinamento autorizado da Igreja; •e procurando um conselheiro espiritual confiável (cf. catecismo, n. 1785).

Não esqueçamos que a ignorância, quando procede do descuido dessa formação necessária a um cristão, não é desculpa para os erros de consciência e de conduta. «Quando o homem não se preocupa suficientemente com a procura da verdade e o bem, a consciência pouco a pouco, pelo hábito do pecado, se torna quase obcecada» (Const. Gaudium et spes, n. 16).

5. A ignorância e a dúvida. Estamos vendo que ninguém pode se instalar na ignorância só porque é mais cômodo “não saber”. Se essa atitude é premeditada (“prefiro não saber, para não sentir culpa”), a ignorância não só não isenta de pecado, como o torna mais grave (chama-se “ignorância afetada”).

Só a ignorância invencível, isto é, a que existe de boa fé, sem nenhuma culpa ou cumplicidade da pessoa, exime de pecado. «Mas nem por isso [o ato errado] deixa de ser um mal, uma privação, uma desordem. É preciso trabalhar para corrigir a consciência moral de seus erros (Catecismo, n. 1793).

E que fazer com a consciência que duvida? Temos a obrigação de esclarecer as dúvidas morais. A nossa consciência moral não pode ficar balançando na gangorra da dúvida como se pouco lhe importasse errar e ofender a Deus. Sempre somos responsáveis pela nossa consciência: por isso, devemos «procurar sempre o que é justo e bom e discernir a vontade de Deus» (Catecismo, n. 1787).

Questionário sobre a consciência

 

– Compreendo que a qualidade moral da minha conduta − a bondade e a retidão dos meus critérios, das minhas ações e atitudes − depende da boa formação da minha consciência?

– Caio no erro infantil de achar que a consciência é só um sentimento subjetivo, íntimo, e que basta seguir o que eu “acho” e “sinto” como certo? Não percebo que o que nós sentimos, muitas vezes está condicionado por vícios e defeitos que obscurecem a visão: pelo comodismo, pela ânsia de prazer, pelas conveniências meramente egoístas?

–Tenho a preocupação de conhecer cada vez melhor a moral cristã, ou seja, as luzes que o Espírito Santo comunicou, através da Sagrada Escritura e da Igreja de Cristo, sobre o verdadeiro bem  e o caminho da salvação (cf. Mt 19,16-21)? Emprego os meios para isso: leitura do Novo Testamento e de bons livros de formação cristã, estudo do Catecismo da Igreja Católica, cursos de doutrina e de vivência cristã, petição de conselho, etc?

– Procuro estar atualizado em relação com os ensinamentos do Santo Padre e, em geral, do Magistério da Igreja, a fim de fazer deles – e não de opiniões sociais e especulações  da “mídia” – a minha pauta de conduta?

– Percebo que, se descuido o dever de me formar bem, de nada valerá alegar como desculpa a ignorância − “eu não sabia que isso era  pecado…” –, pois esclarecer a bondade moral ou maldade da conduta é um dever grave da consciência?

– Acho que alguns princípios morais católicos são muito bons em geral, mas não servem no meu caso? Esqueço-me de que Deus, quando indica o caminho certo, não pede o impossível, mas dá a graça para poder segui-lo?

– Procuro resolver quanto antes as dúvidas de consciência.  Permaneço nessas situações confusas por medo de enxergar verdades difíceis, que não me agradam?

–Vejo claramente que nem as boas intenções nem as circunstâncias particulares do meu caso podem tornar boa uma ação que é objetivamente má? Estou firmemente convencido de que uma finalidade boa jamais justifica o uso de meios intrinsecamente maus (por exemplo, um aborto)?

– Estou disposto a usar com coragem do meu direito à “objeção de consciência”, quando, no meu trabalho ou na minha família, me pedem ações contrárias à ética, à Lei de Deus?

− Valorizo a importância da direção espiritual e da confissão frequente para formar uma consciência verdadeira, reta e firme, e assim poder também orientar outras pessoas?

Conclusões (Procure tirar as suas conclusões e anotá-las)



[1] O tema da consciência pode-se ver, mais amplamente, no livro A voz da consciência, Quadrante 1996