O QUE É A PRUDÊNCIA?

  1. PRUDÊNCIA: O QUE É, E O QUE NÃO É
  1. O que não é

Muitas pessoas têm uma visão míope: reduzem a prudência à simples “cautela”. O cuidado para evitar um mal – a cautela – é algumas vezes um aspecto da virtude da prudência; mas muitas outras é exatamente o oposto dessa virtude.

Repare que as duas principais palavras que expressam a cautela são negativas: “cuidado” e “não”.

  • Tome cuidado ao atravessar a rua.
  • Não saia sozinha à noite.
  • Não confie nesse seu sócio.
  • Não arrisque a comprar uma moto Harley Davidson.
  • Não exagere nas doações e caridades, que eles acabam abusando.
  • Cuidado com o que posta no face-book.
  • Cuidado com tantas idas à igreja, que vai virar carola.

Nessa sinfonia cacofônica de “cuidado” e “não”, algumas frases merecem o nome de prudência, mas outras não. Ora, repare que, nem uma só delas, nem todas elas em conjunto, são capazes de nos oferecer um ideal de vida. Não apontam para nenhuma realização, nenhuma conquista, nenhuma melhora, nenhuma perfeição.

Ninguém se realiza na base de medos e cautelas. Por isso, o Catecismo da Igreja Católica afirma que a virtude da prudência «não se confunde com a timidez ou o medo» (n. 1806).

  1. Então, o que é?

Veja como é clara a definição de prudência que nos dá o Catecismo:

«A prudência é a virtude que dispõe a razão prática  a discernir, em qualquer circunstância, o nosso verdadeiro bem e a escolher os meios adequados para realizá-lo» (n. 1806).

Grave bem essas palavras, que nos deverão ilustrar ao logo deste livro. E não perca de vista que a prudência visa principalmente realizações práticas, “a realização do verdadeiro bem”.

─ A definição começa dizendo que é uma virtude que tem como base a razão prática, não o raciocínio puramente teórico. A prudência, com efeito, visa à realização das ações sobre as quais temos que pensar e decidir, não à resolução de teoremas.

─ É uma virtude que leva a discernir, ou seja a conhecer e distinguir claramente – limpando confusões mentais − qual é a ação certa que se deve praticar.

─ Mas o discernimento da prudência tem um norte: o nosso verdadeiro bem, pois – como veremos adiante – pode haver objetivos errados e bens enganadores. Refere-se, portanto, ao bem moralmente  objetivo. Um bem que tanto pode consistir na boa ação de ajudar uma velhinha a atravessar a rua, como no bom encaminhamento de um empreendimento comercial ou de uma entidade religiosa.

Se não procurássemos o bem moral objetivo, a prudência se perderia num mato fechado onde o bem e o mal não se poderiam distinguir; seria como aquela «selva oscura» onde Dante se achava extraviado, porque «la diritta via era smarrita», porque tinha perdido o caminho reto[1].

─ Uma vez discernido o verdadeiro bem, a prudência leva, então, a escolher os meios adequados para realizá-lo. Como a prudência é prática, a pessoa, depois de dizer “quero fazer isso, pergunta-se “como vou fazê-lo”?

─ Finalmente, com os meios bem escolhidos, chega o momento de decidir-se a agir, a fazer.

Em pouquíssimas palavras, Santo Tomás de Aquino, inspirando-se em Aristóteles, resume tudo isso dizendo: «A prudência é a regra certa da ação»

  1. É a primeira das virtudes?

Os pensadores clássicos pagãos e cristãos dão à prudência uma precedência sobre as outras virtudes morais (justiça, fortaleza, temperança…). Não dizem que seja a “maior” das virtudes. A maior virtude humana é a justiça; e a maior de todas as virtudes, em seu conjunto, é a virtude teologal da caridade: Se não tiver caridade, nada sou (1 Cor 13, 2).

Contudo, diz-se que a prudência tem precedência sobre todas as outras virtudes neste sentido: ela é a “moderadora” de todas elas. Guia, orienta as outras virtude para o  seu próprio fim, ajudando-as a manter-se no ponto certo, no “ponto médio” do  equilíbrio moral, evitando assim que descambem para a insuficiência ou para o  exagero . Por isso Santo Tomás a chama «a mãe das virtudes»[2]

A expressão “ponto médio” é correta mas perigosa, pois pode levar a confundir equilíbrio com mediocridade. Os comentaristas cristãos, para evitar essa distorção, recorrem a uma imagem expressiva: o ponto médio moral é um cume que se eleva entre dois abismos. Per exemplo, a coragem – que como todas as virtudes deve aspirar à perfeição máxima − é um cume entre os abismos da covardia e da temeridade insensata.

A ética tradicional define essa função diretiva da prudência dizendo que ela é auriga virtutum, literalmente, condutora (auriga, em latim) do carro das virtudes.

Talvez você se lembre das corridas de quadrigas (quatro cavalos) ou de  bigas (dois cavalos) ou que aparecem no filme “Bem Hur”? Enquanto o auriga tem domínio das rédeas, o carro avança velozmente pela pista certa, e pode chegar em primeiro lugar. Mas, se o condutor solta as rédeas ou puxa por elas desajeitadamente, por bons que sejam os cavalos o desastre é inevitável.  A  mesma coisa acontece com as virtudes que não têm as rédeas nas mãos da prudência.

Com seu toque poético, Paul Claudel dizia: «A prudência está no Norte da minha alma, como a proa inteligente, que conduz todo o navio»[3].

  1. Os quatro atos da prudência 

Seguindo o ensinamento de Santo Tomás de Aquino[4], podemos distinguir quatro atos da prudência:

  • A reflexão
  • O juízo (julgamento de valor, e julgamentos práticos)
  • A decisão
  • A realização 

Como escreve Josef Pieper, glosando Santo Tomás, a prudência não consiste apenas no conhecimento objetivo do “verdadeiro bem” numa determinada situação. Trata-se de um conhecimento que logo «se transforma numa decisão prudente, decisão que por sua vez conduz à realização»[5].

 

Esses são os passos da virtude da prudência, que vamos meditar nos próximos capítulos.

[1] Divina Comédia, Inferno, Canto primeiro

[2]  Genitrix virtutum 3, d. 33, 2, 5

[3] Cinq Grandes Odes, n. 5: La maison fermée

[4] Suma Teológica II-II, questões 47 a 56

[5] Num livro importante sobre as virtudes: Virtudes fundamentais, Ed. Aster, Lisboa 1960, cf. pp. 21 e 22