PRUDÊNCIA: A REFLEXÃO

  1. PRIMEIRO, A REFLEXÃO
  1. O humus da reflexão

Num bom humus, a planta vinga e cresce. A prudência também precisa de uma boa terra para realizar bem seu primeiro ato: a reflexão. Uma reflexão que, na vida prática, pode se fazer às vezes em questão de segundos, e outras vezes exigirá bastante tempo e a possibilidade de consultar.

Pensar não é fácil. Romano Guardini, falando do “homem disperso” dos nossos dias,  escreve: «Sempre anda ocupado em alguma coisa. Quando não existe algum objetivo que o impressione, algum estímulo que o empurre ou algum incentivo que o acorde, toda a sua atividade se desvanece e apenas existe nele um surpreendente vazio»[1].

É preciso aprender a pensar, a utilizar a «razão prática», aquele raciocínio que esclarece os problemas e equaciona as situações da vida, tanto da nossa vida interior quanto da nossa vida exterior.

É claro que isso exige fazer o esforço sincero de vencer os “inimigos da reflexão”.

  1. Os inimigos da reflexão 

─ A preguiça de pensar. Custa vencer a dificuldade de pensar nos problemas, nos deveres e projetos, com interesse e aplicação, especialmente quando se trata do projeto familiar, dos problemas dos filhos, da perfeita realização do trabalho ou do nosso amadurecimento espiritual. Não achamos tempo para refletir. Umas vezes por cansaço, outras vezes porque é complicado, outras por mau humor, e sempre por preguiça.

A afobação da urgência. A ansiedade, a aflição por definir ou resolver algum assunto urgente facilmente encampa o raciocínio, que deveria ser sereno e não precipitado. Certo que há emergências que aparecem de surpresa, e só deixam uns minutos para rezar e decidir. Mas muitas outras vezes a urgência que nos rouba a reflexão é fruto de adiamentos indevidos ou de faltas de previsão ou de ordem, que deveríamos corrigir.

O preconceito e a teimosia. Em empresas familiares, em entidades educativas tradicionais e em outras iniciativas, já aconteceu mais de uma vez que aquele que iniciou o empreendimento fique preso àquilo que, muitos anos atrás, o levou ao sucesso. Vai passando o tempo, e não se dá conta de que as circunstâncias, o mercado, o sistema empresarial, a cultura, etc, mudaram. Os filhos, os “jovens sucessores”, querem renovar o empreendimento, mas o “velho” agarra-se a seus pré-conceitos. Com essa obstinada teimosia, o barco ameaça encalhar.

A vaidade presunçosa. Há quem se idolatre a si mesmo de tal modo, que não é capaz de valorizar nem de ouvir ninguém: nem na família, nem no trabalho. Fala “pontificando”, impõe as coisas sem diálogo, desvaloriza o parecer dos demais. Assim se dispensa de refletir, e deixa de se enriquecer com as ponderações valiosas dos outros.

  1. Os amigos da reflexão

Há uma série de hábitos bons, que – ao contrário dos anteriores – propiciam o exercício da reflexão, esse primeiro passo da virtude da prudência. Trata-se de hábitos de base, que vale a pena cultivar, e que devem ser exercitados perseverantemente:

O hábito da leitura. Quanto mais e mais constantemente lemos, mais rico fica o nosso raciocínio. E vice-versa, a falta  de leitura empobrece a mente. Refiro-me à leitura de obras de qualidade cultural, que se torna hábito diário ou quase: livros clássicos, históricos, romances, biografias, ensaios, crônicas, etc. Grande inimigo desse hábito bom é o vício de saltitar pelo mundo da Internet, bicando aqui e acolá como um tico-tico por mera curiosidade superficial.

Para um cristão, além da Bíblia, há um tesouro de livros de reflexão teológica, de meditação, de espiritualidade, que dilatam os horizontes do conhecimento de Deus e de nós mesmos, e desvendam valores importantes para cada dimensão da vida pessoal e social. Tomara que dedicássemos um tempo diário a essas leituras. Já vi acontecer coisas surpreendentes a homens de empresa de grandes responsabilidades: acharam orientações decisivas, não em grandes estudos econômicos, mas na leitura da vida de um santo (de um santo que nem sabia o que era uma conta bancária).

A memória.  Nunca ouviu uma reclamação deste tipo: “Você não se lembrou?” “Você não sabia que não dava?” “Sempre cai na mesma!” “Nunca vai aprender!”. É muito velho – e muito atual − o ditado que diz: “O homem é o único animal que tropeça duas vezes na mesma pedra”. O bom uso da memória pode criar em nós o acervo cada vez mais rico da experiência.

Não me refiro à experiência da pessoa que ficou traumatizada por um fracasso e agora teme qualquer iniciativa: “gato escaldado, foge da água fria”. Isso é só psicose ou covardia. A memória “reflexiva” sobre os sofrimentos e fracassos é um mestre de obras experiente que orienta na edificação da vida.

A humildade de pedir conselho. É uma disposição importante da pessoa prudente. «No que diz respeito à prudência – escreve Santo Tomás – ninguém se basta a si mesmo»[2]. Quatro olhos dispostos a ver enxergam mais do que dois. Às vezes vamos precisar de mais de dois pares de olhos. Só o vaidoso autossuficiente acha humilhante pedir conselho a quem o pode dar.

«O primeiro passo da prudência – escreveu são Josemaria − é o reconhecimento das nossas limitações: a virtude da humildade. É admitir, em determinadas questões, que não aprendemos tudo, que em muitos casos não podemos abarcar circunstâncias que importa não perder de vista à hora de julgar. Por isso nos socorremos de um conselheiro. Não de qualquer um, mas de quem for idôneo […]. Não basta pedir um parecer; temos que dirigir-nos a quem no-lo possa dar desinteressada e retamente»[3].

O hábito da meditação. Faz-nos muita falta reservar todos os dias um tempo para meditar com calma, em um lugar tranquilo, sobre os assuntos que exigem uma decisão acertada. Podem ser uns dez minutos de manhã cedo, acordando talvez um pouco antes do habitual; ou à noite, antes de nos retirarmos para dormir, ou em outro momento oportuno. O silêncio, o esforço de pôr as ideias e os planos em ordem, o exercício de anotar os dados ordenadamente, para pensar melhor sobre eles, o exame de acertos e erros do dia, são premissas de uma reflexão objetiva e uma decisão lúcida.

Refletir sob a luz de Deus. Para um cristão, esta deveria ser a reflexão mais importante. Vem ao pensamento o belo versículo do Salmo 36 [35], 10: É na vossa luz que vemos a luz. Trata-se disso: de pedir luz a Deus – a luz do Espírito Santo, “luz dos corações”–; de examinar o que devemos resolver sob o resplendor da verdade de Deus, da sua palavra, dos seus mandamentos, acolhidos num coração sincero. Trata-se, sobretudo, de ter bem gravada na alma a imagem de Cristo, do seu exemplo e dos seus ensinamentos, para fazer deles luz da vida (Jo 8, 12). Voltaremos a isso no último capítulo.

Com estas considerações sobre a reflexão, já estamos lançando um cabo para os próximos capítulos.

[1] Romano Guardini, Introdução à oração. Ed. Aster, Lisboa, pp. 27-28

[2] II-II, 49, 3 ad 3

[3] São Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, n. 86