PRUDÊNICA: O JUÍZO MORAL

III. SEGUNDO PASSO: O JUÍZO MORAL 

  1. O juízo da consciência

Navegamos bem pela vida quando a nossa alma – como diz o verso antes citado de Claudel – é norteada pela prudência. Mas já vimos que a prudência só é virtude se sabe «discernir o nosso verdadeiro bem» (Cf. Catecismo, n. 1806).

Ora, quem vai nos dizer qual é o nosso «verdadeiro bem»? Quem deve julgar sobre a qualidade moral – boa ou má – das nossas ações?

A resposta é: –A consciência.

O Catecismo fala assim da relação entre a prudência e a consciência: «É a prudência que guia imediatamente o juízo da consciência. O homem prudente decide e ordena a sua conduta segundo este juízo» (ibidem).

Estamos perante um ponto delicado e muito importante da virtude da prudência.

Para não nos desviarmos da rota do nosso pensamento, nos ajudará prestar atenção desde já à definição de consciência que dá o Catecismo: «A consciência moral é um julgamento da razão pelo qual a pessoa humana reconhece a qualidade moral de um ato concreto que vai planejar, que está a ponto de executar ou que já praticou. Em tudo o que diz e faz, o homem é obrigado a seguir fielmente o que sabe ser justo e correto» (n. 1778).

Com base nessa ideia, vamos prosseguir, começando por focalizar um “caso” difícil.

  1. Uma página desconcertante do Evangelho

Uma das páginas mais difíceis do Evangelho é a parábola em que Jesus elogia um semvergonha, um administrador desonesto de quem o patrão começava a suspeitar  (cf. Lc 16, 1-8).

Para evitar ser dispensado e ficar na rua, o corrupto vai chamando um a um os devedores do seu patrão e os induz a falsificar junto com ele as contas, reduzindo-lhes as dívidas à metade ou quase: – Quanto deves ao meu senhor? – Cem barris de óleo.  – Pega a tua conta, senta-te, depressa, e escreve: cinquenta.

É óbvio que Cristo não aprova a corrupção nem a mentira. O que Jesus pretendeu com  essa história chocante foi mostrar que os que vão atrás do mal – e pecam, e cometem crimes – muitas vezes agem com mais esperteza do que os cristãos que procuram fazer o bem. O senhor elogiou o administrador desonesto, “porque agiu com esperteza”. De fato, os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios que os filhos da luz.

O grande negócio dos filhos da luz, dos filhos de Deus, é aspirar à perfeição do amor, até atingirem o que São Paulo chama a estatura da maturidade de Cristo (Ef 4, 13), e – unidos a Cristo – espalhar o amor e o bem à sua volta. Mas, na realidade, muitos cristãos, acomodados e passivos, tem bem menos fibra para o bem do que muitos bandidos para o mal. Parecem abobalhados ao lado desses espertos[1].

A moral cristã chama “astúcia” à falsa prudência do administrador infiel. A astúcia é a o arremedo diabólico da prudência, que faz com que haja chefes do crime organizado mais eficientes do que os governantes legítimos; que haja quem, com pouco esforço e despesa, tire ótimos lucros vendendo aparelhos falsificados ou celulares roubados; que hackers sem escrúpulos roubem eficientemente milhões, entrando em inúmeras  contas bancárias com vírus quase imperceptíveis.

«Existe uma falsa prudência – diz são Josemaria –, que devemos chamar antes de astúcia , que está ao serviço do egoísmo, que se serve dos recursos mais adequados para atingir fins tortuosos»[2].

São João Paulo II comenta: «Prudente não é – como muitas vezes se julga – o que sabe virar-se na vida para dela tirar o máximo proveito, mas o que consegue edificar a vida inteira de acordo com a voz da consciência reta e as exigências da moral justa»[3].

  1. A voz da consciência reta

Acabamos de ver que a virtude da prudência deve julgar as nossas ações mediante um juízo de valor formulado pela consciência: “Isto está certo, isto está errado”- “Isto é virtude, isto é pecado”.

Será que a nossa consciência sempre julga bem? Não pode enganar-nos? Qual é a luz verdadeira com a qual a nossa consciência tem que julgar? Qual é o referencial que garante o  acerto da consciência?

É um fato que a nossa consciência muitas vezes nos engana. «Colocada diante de uma escolha moral, a consciência pode emitir um julgamento correto de acordo com a razão e a lei divina ou, ao contrário, um julgamento errôneo que se afasta delas» (Catecismo, n. 1786).

A consciência pode errar, isto é, pode achar correta uma solução desonesta.

Para evitar esses erros é necessário ter muito em conta que a nossa consciência não cria a moralidade – a bondade – dos nossos atos. Muitos acham que basta que a “sua consciência” aprove algo para que isso fique sendo certo. Transformam assim a sua “convicção” subjetiva, não autenticada por uma verdade objetiva, num “deus” que sempre acerta e que deve ser acatado contra tudo e contra todos; e a esse falso “deus” chamam “a minha consciência”.

É indispensável, por isso, não perder de vista que só a consciência bem formada «formula seus julgamentos segundo a razão, de acordo com o bem verdadeiro querido pela sabedoria do Criador» (Catecismo, n. 1783).  Somente assim a consciência é «a voz de Deus», e não a voz de uma ilusão, das conveniências ou da fantasia.

  1. Em sã consciência

É muito sábia a língua portuguesa quando usa a expressão “em sã consciência, eu penso que…”, porque – como estamos vendo – a nossa consciência pode estar sã ou doente.

Veja como São João Paulo II fala da sã consciência: «Deus, que é o único bom (cf. Mt 19, 17), conhece perfeitamente o que é bom para o homem, e, devido ao seu mesmo amor, o propõe nos mandamentos»[4].

Esclarecida pela luz dos mandamentos, dos preceitos e dos conselhos divinos, a consciência torna-se canal da voz de Deus. Um exemplo: toda a doutrina católica sobre a vida, que são João Paulo II expõe magnificamente na encíclica Evangelium vitae (“O evangelho da vida”), tem como alicerce – para iluminar verdades, erros e confusões – o quinto mandamento da lei de Deus: Não matarás.

«Os preceitos morais negativos – diz – têm uma função importantíssima: o “não” que exigem incondicionalmente aponta o limite intransponível abaixo do qual o homem livre não pode descer, e simultaneamente indica o mínimo que ele deve respeitar e do qual deve partir para pronunciar inumeráveis “sins”, capazes de cobrir progressivamente todo o horizonte do bem, em cada um dos seus âmbitos» (n. 75).

Em 1833, o futuro cardeal Newman, cada vez mais próximo da sua conversão ao catolicismo, escrevia durante uma estadia na Sicília, o seguinte verso: «Eu antes gostava de escolher e compreender o meu caminho. Agora, pelo contrário, eu oro: Senhor, guia-me Tu».

Bento XVI comentava essa atitude de Newman: «O específico do ser humano, enquanto ser humano, não consiste em interrogar-se a si mesmo sobre o “poder” [o que eu posso fazer], mas sobre o “dever” como abertura da alma à voz da verdade e das suas exigências […]. O jugo da verdade é “leve” (Mt 11,30), dado que a Verdade – Jesus – veio, amou-nos e queimou as nossas culpas no seu amor. Só quando conhecemos isso e o experimentamos interiormente é que somos livres pra escutar com alegria e sem ansiedade a mensagem da consciência»[5].

 

[1] É neste sentido que Jesus dizia: Sede prudentes como as serpentes, e simples como as pombas (Mt 10, 16)

[2] São Josemaria Escrivá, Amigos de Deus, n. 85

[3] Alocução de 25 de outubro de 1978

[4] Encíclica Veritatis splendor, n. 35

[5] Conferência sobre “Consciência e Verdade”, de 17-II-2013, em www.analisis digital.org