PRUDÊNCIA: MAIS SOBRE JUÍZO MORAL

  1. AINDA SOBRE O JUÍZO DA CONSCIÊNCIA
  1. Há luzes falsas

Como víamos, somente a consciência guiada pela luz de Deus formula juízos morais corretos: os únicos que nos permitem ser prudentes. Vamos aprofundar um pouco mais nesse tema.

São muitas as luzes falsas que tiram a consciência dos trilhos e falsificam a bondade das nossas ações. Jesus nos alerta: Se o teu olho – o olho da alma  – estiver são, ficarás todo cheio de luz. Mas se teu olho for ruim, ficarás todo em trevas (Mt 6, 22-23).

Vem-me ao pensamento um conto de Chesterton, O fim dos Pendragon[1], que trata de um “almirante” louco, que morava num velho casarão nas costas rochosas da Cornualha, no sudoeste da Inglaterra. Construiu uma torre em cujo cimo podia acender uma grande fogueira, e assim simulava de longe um farol marítimo. Com essa luz falsa, enganava navegantes rivais que queria eliminar e os induzia a naufragar e morrer no labirinto das rochas.

Que “luzes” nos enganam mais facilmente? Quais os falsos faróis que nos fazem naufragar na vida moral? Vejamos alguns, mesmo que repisemos ideias já expostas ou apontadas nos capítulos anteriores.

─ O farol do subjetivismo. A pessoa  – já víamos isso – confunde a consciência com um sentimento subjetivo. Não nos damos conta de que o que nós “achamos” está condicionado frequentemente por vícios e influências que obscurecem a retidão moral.

Mais ainda. «Quando o homem não se preocupa suficientemente com a procura da verdade e o bem, a consciência pouco a pouco, pelo hábito do pecado, se torna quase obcecada»[2]. É a cegueira moral, a moral insanity .

«Acaba-se por assumir – dizia São João Paulo II – como única e indiscutível referência para as próprias decisões, não já a verdade sobre o bem e o mal, mas apenas a sua subjetiva e volúvel opinião ou, simplesmente, o seu interesse egoísta e o seu capricho… Diminui toda referência a valores comuns e a uma verdade absoluta para todos: a vida social aventura-se pelas areias movediças de um relativismo total. Então, tudo é convencional, tudo é negociável, inclusive o primeiro dos direitos fundamentais, o direito à vida»[3].

─ O farol do politicamente correto. É fácil ser arrastado pela correnteza do pensamento dominante. Se todo o mundo pensa assim, acha-se que aquilo tem que estar certo; ou então adere-se covardemente para ser bem aceito. Ora,  a opinião “geral” – até mesmo em muitos ambientes católicos – com frequência não coincide com o que é o critério “normal”, o que corresponde aos valores autênticos da vida moral.

Uma corrupção econômica ou sexual generalizada não torna esses comportamentos moralmente bons. São incontáveis os jovens e menos jovens que substituem os valores da ética natural e da moral cristã pelas falsas “liberdades comportamentais” do ambiente (abusos destemperados do sexo, do álcool, da droga, do consumismo, da pornografia, do exibicionismo e da mentira nas redes sociais), e acham que isso é “normal”. É a moral que transforma em valores os erros estatisticamente majoritários.

Vale a pena transcrever umas palavras do conhecido filósofo espanhol Julián Marías: «O homem da nossa época recebe uma série de interpretações da realidade que, muitas vezes, têm um caráter moral. Aparecem formas de vida, de relacionamento humano, de família, de ética política que são, de certa forma, interpretações a uma determinada luz e, muitas vezes, apresentam-se como normais só porque são frequentes. Essa identificação parece-me muito perigosa: considerar o que é frequente como normal, o que é normal como lícito, e o que é lícito legalmente como se fosse moral. Não! Trata-se de identificações inaceitáveis. Pode haver coisas frequentes que não são normais, e pode haver coisas lícitas legalmente, mas que não o são moralmente. É preciso analisar cada caso concreto»[4].

O farol das ideologias. É uma falsa luz muito aparentada com a anterior. Hoje, a influência do ambiente, a pressão da mídia, o tom doutoral e agressivo dos militantes das  ideologias em pauta é uma pirotecnia de luzes enganadoras, que pretendem dominar monoliticamente o pensamento de todos. Muitos despreparados caem nessa tirania como a mariposa que queima as asas na chama de uma vela: desde o velho marxismo até o laicismo antirreligioso, passando pelo niilismo e as antropologias antinaturais.

Bem dizia o Papa Bento XVI, «Cresce o perigo de uma ditadura da opinião, e quem não a acata é isolado e marginalizado, de tal forma que há gente boa que não ousa mais manifestar que não concorda com esses grupos. Uma eventual ditadura anticristã do futuro será presumivelmente muito sutil. Ela se mostrará aparentemente aberta às religiões, mas com a condição de que não mexam no seu modelo de conduta e de pensamento»[5]. São novos dogmas de fé, com a sua própria inquisição, apoiados até mesmo pela lei e os tribunais.

  1. O farol que não engana

No meio desse hallowen, dessa festa das bruxas, destaca o brilho da lux vera (Jo 1, 9), a luz verdadeira, única que pode guiar as nossas vidas por caminhos de bondade.

Santo Agostinho indica um rumo certo: «A prudência é o amor que sabe discernir bem que coisas nos ajudam a caminhar para Deus, e quais nos podem impedir de fazê-lo»[6]. E alerta: «Não pretendas desviar o coração de Deus, que é sempre reto, para que se acomode à perversidade do teu»[7].

Voltemos ao Catecismo, que nos mostra o verdadeiro farol: «A consciência deve ser educada e o juízo moral esclarecido. Uma consciência bem formada é reta e verídica. Formula seus julgamentos seguindo a razão, de acordo com o bem verdadeiro querido pela sabedoria do Criador. A educação da consciência é indispensável aos seres humanos submetidos  a influências negativas e tentados pelo pecado a preferirem o próprio juízo e a recusar os ensinamentos autorizados» (n. 1783)

Depois, o mesmo Catecismo (n. 1785), concretiza os modos de procurar a lux vera para, com base nela, formular os nossos juízos éticos:

─ «Na formação da consciência, a Palavra de Deus é a luz do nosso caminho; é preciso que a assimilemos na fé e na oração e a ponhamos em prática». Sobretudo, com a leitura e meditação frequente – de preferência, diária – do Novo Testamento, e mais especialmente dos quatro Evangelhos.

─ «É preciso ainda que examinemos a nossa consciência». Lembremos que Jesus dizia que os puros de coração verão a Deus (Mt 5, 8). Com o exame de consciência (bastam uns minutos de balanço espiritual à noite) , identificamos as nossas falhas e  insuficiências, pedimos perdão a Deus, e nos preparamos para purificar a alma com um propósito de retificar e, em muitos casos, com uma boa Confissão. Assim, com a alma purificada pelo perdão de Deus, é mais difícil que nos iludamos com as luzes falsas.

─ «Somos assistidos pelos dons do Espírito Santo». Não nos faltará essa luz divina para as decisões morais, se invocarmos frequentemente a assistência do Espírito Santo: “Ó luz felicíssima, enchei o mais íntimo dos corações dos vossos fiéis”, diz a sequência de Pentecostes Veni, Sancte Spiritus. 

─ «Somos ajudados –diz ainda – pelo testemunho e conselho dos outros». Ajuda-nos muito frequentar um confessor fixo, com quem possamos ter direção espiritual.

─ «Somos guiados pelo ensinamento autorizado da Igreja». O Catecismo da Igreja Católica, na sua edição típica vaticana, é uma fonte de claridade para as dúvidas e ignorâncias da nossa consciência. Basta consultar o assunto em questão no amplíssimo e excelente índice alfabético que, como um dicionário remissivo, se encontra no final do volume.

Nestes tempos de confusão e opiniões morais conflitantes, mesmo no âmbito católico, é importante ter presente o que São João Paulo II dizia sobre esse Catecismo:

O Catecismo da Igreja Católica é «norma segura para o ensino da fé…, texto de referência seguro e autêntico para  ensino da doutrina católica… É oferecido a todos os fiéis que desejam aprofundar o conhecimento das riquezas inexauríveis da salvação» (Constituição Apostólica Fidei depositum, de 11 de outubro de 1992).

 

[1] A sabedoria do padre Brown, cap. XIV

[2]  cf. Concílio Vaticano II, Const. Gaudium et spes, n. 16.

[3] Encíclica Evangelium Vitae, nn. 19, 20.

[4] Conferência A moralidade coletiva, pronunciada em 15/04/98. Cf. www.hottopos.com

[5] Cf. Dag Tessore, Bento XVI – Questões de fé, ética e pensamento na obra de Joseph Ratzinger.  Ed. Claridade, São Paulo 2005, p. 24

[6] Os costumes da Igreja católica e os dos maniqueus, 1, c. 15

[7] Enarrationes in Psalmos, 63, 18