PRUDÊNCIA: ESCOLHER OS MEIOS

  1. O JUÍZO SOBRE OS MEIOS
  1. Julgar e preparar os meios

Comecemos recordando uma citação de Santo Tomás:  «É próprio da prudência deliberar, julgar e ordenar os meios para se chegar ao fim devido»[1]. Em sintonia com o santo doutor, Josef Pieper escreve que «o caráter próprio da prudência é o comprometimento no campo dos meios e dos caminhos, no campo das realidades concretas»[2].

E importante discernir os «caminhos verdadeiros»[3], ou seja, os meios apropriados para alcançar a meta proposta, porque a prudência – insistimos − é uma virtude prática: julga sobre a maneira adequada e eficaz de fazer algo.

Jesus mostra a importância dos meios com uma parábola simples:

Se algum de vós quer construir uma torre, porventura não se senta primeiro para calcular os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Caso contrário, ele vai pôr o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a zombar: “Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar!” (Lc 14, 28-30).

Esse planejador tinha uma meta honesta: edificar uma torre. Começou por refletir: sentou-se para pensar. Mas descuidou frivolamente o juízo sobre os meios: não calculou se tinha o suficiente. E o projeto ficou truncado.

Todos conhecemos casos parecidos de fracassos em empreendimentos comerciais, industriais, imobiliários, agrícolas, familiares, etc.

Vejamos uma história atual:  —Após o aviso prévio, chegou o momento de o protagonista desta história se achar na rua. Já vinha cismando sobre a possibilidade de um novo trabalho. De repente, uma ideia despontou na mente: “O fundo de garantia! Posso aplicá-lo na criação de uma pequena empresa”. Mas qual empresa? Sempre trabalhou como engenheiro no ramo da construção civil. “As pessoas comem – disse de si para si −, as pessoas são gulosas”;  e, com embalo poético, resolveu montar uma doceira.

— Já tinha trabalhado em alguma? Não. Tinha experiência de fabricação de doces? Nenhuma. “Mas tenho um amigo, possível sócio, que trabalhou um tempo nesse ramo da alimentação, ele conhece”. Tão pouco o conheciam ambos que, após oito meses, o fundo de garantia estava queimado e a doceira fechada. Para maior desgraça, a rua onde abriram o negócio tinha fama de ser um “cemitério de fundos de garantia”.

Nessa história precisamos enxergar algo mais que uma incompetência profissional. Temos que considerar a imprudência grave que decorre – em todos os campos − da nossa falta de preparo pessoal.

No “juízo sobre os meios”, o meio principal a se ter em conta é a própria pessoa que faz ou empreende: as suas qualidades, os seus conhecimentos, a sua competência, a sua experiência, as suas capacidades. Muitas das piores imprudências procedem de descuidar o devido “preparo da pessoa”; e, infelizmente, é para as coisas mais importantes da vida que se descura esse preparo.

Vamos meditar sobre duas delas a título de exemplo.

 

[1] Suma Teológica, II-II, q. 47, a. 11, c

[2] Virtudes fundamentais, citado, p. 20

[3] Suma Teológica, II-II, q. 51, a. 1