PRUDÊNCIA: NA EDUCAÇÃO DOS FILHOS

PRUDÊNCIA NA FORMAÇÃO DOS FILHOS

Muitas das atitudes que acabamos de mencionar aplicam-se – com a mesma força e urgência – à formação dos filhos.

Todos os pais desejam que os filhos sejam “bons”, que não sejam arrastados pelo aluvião de desordem, desorientação e vícios, que parece sequestrar boa parte da nossa juventude.

Não pretendo fazer aqui uma exposição sobre educação dos filhos. Limito-me a conclamar os pais a terem a prudência de não confundirem os filhos com anjinhos ou com couves. Sim, isso mesmo.

─ “Anjinhos” não são. Todos nascemos com “uma gota do veneno da serpente do Paraíso”, como dizia Ratzinger, ou seja, com as tendências e os puxões dos sete vícios capitais: orgulho, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça. Não empenhar-se em educar a sério as virtudes dos filhos – dentro de um clima de dedicação amiga, de exigência e de liberdade acompanhada – equivale a deixá-los prisioneiros dos sete tentáculos desse polvo dos vícios capitais.

– Também não confunda filhos com “couves”, que podem crescer sozinhas, e mal,  em qualquer terreno baldio. Não vão se formar por si mesmos, nem basta o melhor colégio, se os pais não assumem “pessoalmente” a tarefa de educá-los (além de garantir-lhes escola, faculdade, saúde, etc.). Concretamente, assumam:

  • A tarefa de formar-lhes o caráter, de formá-los nas virtudes humanas (fortaleza, justiça, temperança, desprendimento, respeito, compreensão…)
  • A tarefa de formá-los na caridade, na vitória sobre o egoísmo grande ou pequeno. Isso é importante! Façam tudo para que abram o coração às necessidades do próximo – começando pelos irmãos, se tiverem –e não fiquem fechados em si mesmos
  • Especialmente, ponham empenho em formá-los na fé, nos valores morais perenes do Cristianismo e na prática cristã Leiam juntos, rezem juntos, expliquem-lhes a doutrina.

Reparem que muitos pais, com as suas omissões na educação dos filhos, são como o tal terreno baldio onde os filhos crescem como couves mirradas e bichadas, como mato  que a vida se encarregará de queimar.

─ Ninguém nasce sabendo formar filhos[1], menos ainda numa sociedade de confusões, ameaças, naufrágios e fogos cruzados de ideologias como é a atual. Nos tempos atuais, é preciso preparar-se bem para essa grande tarefa.

“Preparar-se” não é recusar-se a ter filhos ou ter apenas um por medo dos perigos desse mundo. É dar o máximo para proporcionar-lhes os meios de formação moral e espiritual adequados  –  mais necessários do que o pão que comem – e para que sejam assim o que Deus quer deles: bons filhos de Deus, protagonistas da grande aventura de um futuro melhor.

─ Mais umas poucas palavras, agora sobre a liberdade dos filhos. Perante a liberdade mal formada e mal acompanhada que os pais dão muito cedo aos filhos, caberia perguntar-se se isso consiste realmente em deixá-los livres, ou em livrar-se deles e jogá-los às feras. Uma liberdade sem norte equivale a um suicídio programado. Que cada pai e mãe se perguntem sinceramente como praticam a prudência neste ponto crucial.

─ E ainda mais uma consideração, bem importante nos nossos dias: é preciso aprender a arte de corrigir os filhos. É uma das prudências mais elevadas. Seleciono aqui apenas algumas breves sugestões de São Josemaria para os pais e formadores:

Quando se vê a necessidade de corrigir, é preciso «contar antecipadamente com o desgosto alheio e com o próprio, se desejamos de verdade cumprir santamente as nossas obrigações de cristãos … Não esqueçais que é mais cômodo – mas é um descaminho – evitar a todo o custo o sofrimento, com a desculpa de não desgostar o próximo. Frequentemente, esconde-se nessa inibição uma vergonhosa fuga à dor própria, já que normalmente não é agradável fazer uma advertência séria. Meus filhos, lembrai-vos de que o inferno está cheio de bocas fechadas»[2].

« Que nenhuma razão hipócrita vos detenha: aplicai o remédio nítido e certo. Mas procedei com mão maternal, com a delicadeza infinita com que as nossas mães nos curavam as feridas grandes ou pequenas dos nossos jogos e tropeções infantis. Quando é preciso esperar umas horas, espera-se; nunca mais que o imprescindível, já que outra atitude encerraria comodismo, covardia, que são coisas bem diferentes da prudência. Todos nós − e principalmente os que se encarregam de formar os outros − devemos repelir o medo de desinfetar a ferida»[3].

 

[1] cf. A força do exemplo, Ed. Quadrante, São Paulo 2005

[2] Amigos de Deus, n. 161

[3] Ibidem, n. 158