PRUDÊNCIA: OS MEIOS MAIS NECESSÁRIOS

  1. OS MEIOS MAIS NECESSÁRIOS 
  1. A mais necessária das prudências

Ao falar, no capítulo anterior, da responsabilidade de preparar os “meios” adequados para alcançar o fim que se deseja, frisávamos que o principal “meio” é a própria pessoa que age.

Neste capítulo vamos considerar algumas qualidades essenciais relativas ao preparo da pessoa em si, não só ao preparo especializado dela para determinadas ações, responsabilidades ou tarefas: para ser pai, para ser administrador, etc.

Tomemos como ponto de partida um “caso” simplificado. João foi o melhor aluno da melhor faculdade do país. Fez posgraduação com a máxima qualificação. Mestrado e doutorado em Harvard. Volta à sua cidade, com essas credenciais e logo consegue emprego numa grande firma. Mas já no segundo mês, diretores, gerentes e colegas começam a sentir-se mal junto dele. A sua arrogância humilha. Companheirismo, zero. Seu desprezo pelas opiniões dos colegas e auxiliares torna o trabalho um inferno. Convencido da sua importância, sente-se no direito de irar-se, vive dando broncas, ofende e de produz contínuos conflitos, que acabam explodindo na diretoria. Não precisa dizer que, se não se corrige, não haverá empresa que o aguente, e os pomposos títulos só servirão para serem pendurados na parede como decoração.

É um caso simplificado, dizia, mas serve para evidenciar que nem as qualificações acadêmicas, nem as capacitações técnicas, nem um alto grau de especialização e experiência setorial definem o “valor humano” de uma pessoa. Ela poderá até chegar ao pináculo da sua “especialidade”, mas fracassará  na “vida” como ser humano.

Uma faca enferrujada pode servir para furar bem ou mal uma caixa de papelão, mas não serve para uma cirurgia cardíaca de que depende uma vida.

Vejamos, então, alguns aspectos que temos de trabalhar para não sermos faca enferrujada.  Por outras palavras, que condições pessoais precisamos ter para sermos prudentes em todas as circunstâncias.

Focalizaremos quatro dessas condições, sendo que as duas primeiras são pilares insubstituíveis.

  1. Sermos pessoa de critério

Têm critério as pessoas que adquiriram formação e lucidez suficientes para captar com facilidade o que está certo e o que está errado. Não só do ponto de vista moral (importante para o juízo da consciência), mas de todos os pontos de vista práticos:

─ Isto vai ajudar ou prejudicar?

─ Isto é o que a pessoa precisa ou vai lhe atrapalhar?

─ Isto educa os alunos ou os desorienta?

─ Este é um bom plano ou é uma confusão insensata?

─ Isto será um fator de crescimento, ou de complicação?

─ Qual será a repercussão pessoal, familiar ou social de tal ou qual decisão minha?

No nível profissional, todos conhecemos pessoas de critério: um médico experiente dotado de um olho clínico perspicaz, um advogado que percebe ao primeiro golpe de vista qual será a melhor solução, um engenheiro que vê logo que um arco está mal calculado.

São pessoas em quem se confia e às quais se recorre com segurança, gente que têm a prudência enriquecida por um “aditivo” especial, que Santo Tomás chama solertia [não confundir com a equivalente palavra portuguesa], que é a capacidade de enxergar logo, intuitivamente – sobretudo em situações inesperadas –, os problema objetivos e as melhores soluções.

─ A primeira coisa que é preciso dizer é que o critério não nasce conosco, como a inteligência, nem se obtém por inspiração angélica. Ganha-se com “labor e suor” (in labore et sudore). Não é lícito, como dizia cruamente alguém, refugiar-se na estúpida suficiência de um saber fictício. A presunção do ignorante que pontifica e dá palpite sobre aquilo que não conhece, além de ridícula, é o polo oposto da prudência.

Convença-se – quero insistir-lhe – de que não basta ter boa intenção, bom coração e boa vontade, unidos a um bom preparo técnico, para enfrentar prudentemente os desafios da vida.  Só poderá ganhar bom critério a pessoa que se esforçar seriamente – com perseverança diária – em aprimorar a sua formação, especialmente a sua formação cristã, nas questões doutrinais,  morais e espirituais.

Hoje, quem quiser pode encontrar muitas obras e outros meios valiosos[1] que – sob a orientação de conselheiros experientes – podem enriquecer constantemente a nossa formação.

Concretamente, quando se trata de um cristão, a aquisição de critério exige necessariamente:

— Ter doutrina. Conhecer em nível suficientemente elevado (para um adulto, não basta o catecismo das crianças) o ensinamento de Cristo e a doutrina da Igreja. Décadas atrás, talvez bastasse o clima familiar para transmitir critérios cristãos certos. Atualmente, não. Cada um tem que se empenhar em adquiri-los, como aquele comerciante, de que Cristo fala, que procurava uma pérola preciosa e não parou até consegui-la (Mt 13, 45-46).

Ter sinceridade de vida. Quer dizer, fazer o esforço de adequar a conduta à fé. Se não há vivência, é impossível adquirir a “sabedoria do coração”, um outro nome que o Livro dos Provérbios dá à prudência (Pr 16,21). Só as verdades encarnadas na prática são luminosas, tanto para a nossa vida como para a dos outros.

Viver em graça de Deus. Usar habitualmente os meios de que dispõe o cristão para adquirir a graça do Espírito Santo, e para recuperá-la, se a perdeu: os Sacramentos da Confissão e da Eucaristia, a oração, o amor a Deus e ao próximo com que se realizam, com a maior perfeição possível, os  deveres que tecem a vida diária.

Quando há esse empenho de autenticidade, os dons do Espírito Santo colocam-nos facilmente diante da Luz de Deus, sobretudo o dom de Conselho, que «julga, nos casos particulares, o que convém fazer em ordem ao fim sobrenatural [à santificação e à salvação eterna]»[2].

 

[1] E também, cursos a distância pela mídia virtual, de boa qualidade, e sites de reta doutrina moral, religiosa e espiritual, preparados para formar, informar e resolver dúvidas.

[2] Antonio Royo Marín, Teología de la perfección cristiana, 5ª ed. BAC, Madrid 1968, p. 547