Intermezzo: Exemplos e símbolos-1

O QUE A VIDA ESPERA DE NÓS

No relato autobiográfico intitulado Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração [1], o psiquiatra Viktor Frankl relata o ambiente de profundo abatimento que se ia apossando do espírito de seus companheiros de barracão, no campo de concentração nazista em que se encontravam, à medida que as expectativas de libertação se afunilavam e o futuro aparecia cada vez mais sombrio.

Era comum ouvir-se dizer: – “Eu já não espero mais nada da vida”.

“Que resposta podemos dar a essas palavras?” – perguntava-se Frankl. E a seguir, com vibrações de descoberta, explicava a nova luz que se acendeu nele e que procurou transmitir aos outros:

─ «Do que realmente precisamos é de uma mudança radical da nossa atitude perante a vida. Temos que aprender nós mesmos, e depois ensinar aos desesperados, que na verdade não é importante o que nós esperamos da vida; importante é o que a vida espera de nós».

Numa noite em que um corte de luz mergulhou os prisioneiros numa depressão ainda maior, Frankl, embora gelado e sonolento, irritado e cansado, sentiu que era preciso fazer alguma coisa para infundir ânimo àqueles pobres farrapos humanos que já desistiam da vida. Levantou-se, então, e falou. Expôs com veemente ardor a sua descoberta. E essa ideia de que a vida tem um sentido invadiu, como um clarão de esperança, aqueles corações agoniados. Entenderam que Deus, a esposa, os filhos, os amigos, o mundo esperavam deles (deles que pareciam animais acuados, prestes a serem levados para o matadouro) um testemunho – na vida ou na morte – de que o ser humano foi feito para algo muito maior do que comer, beber, gozar, rir na fortuna e chorar na adversidade. Deus e os outros esperavam algo que só cada um deles, com grandeza de alma, podia dar. Deus e o mundo “precisavam” de cada um deles!

Afinal, na prática, o que significa ” a vida espera de nós”? O que você e eu, se não nos fechamos no nosso egoísmo, temos condições de dar: o amor que sempre, mesmo nas circunstâncias mais terríveis, nós podemos oferecer a Deus e dar ao próximo.

Excerto do livro de F. Faus: A paciência


[1] 3ª ed., Sinodal-Vozes, 1993, págs. 76 e segs.